Críticas Lucinha no Cinema

Julieta

A principal e mais grave punição para quem cometeu uma culpa está em sentir-se culpado.’ (Sêneca)

Por que mentes inocentes desenvolvem, alimentam e carregam, às vezes por uma vida inteira, uma força destruidora denominada sentimento de culpa? Mas, o que é e de onde vem esse sentimento tão nocivo à saúde e ao bem-estar geral do ser humano ? A culpa é vista por alguns como um arrependimento por uma atitude tomada e surgiria do anseio à perfeição. De acordo com outros, seria um delírio de grandeza, daqueles que acreditam que podem controlar a vida, como se tudo dependesse deles. Por esse viés, a culpa revelaria uma sensação ilusória de poder, de auto-valorização, numa vã tentativa de superação da insignificância do ser humano.

Culpa e seus derivativos, raiva e medo, são sentimentos paralisantes e geradores de infelicidade. Por mais que a civilização tenha incutido limitação ao comportamento humano, o homem continuaria a agir por impulso, seja por raiva, por medo ou por culpa. A culpa seria causa ou consequências dos problemas?

Explorada pelas religiões, pela psicologia, pela filosofia, pela ética e pelo direito, o sentimento de culpa parece se sobrepor ao próprio ser humano, pois decorreria do seu anseio ancestral de perfeição, do seu delírio de grandeza e de controle sobre a realidade. E, por conta dessa ilusão de poder, a pessoa deixa ser quem é para ser crítica de si mesma. E a culpa, em todas as suas nuances e angústias, é tratada magistralmente em ‘Julieta’, o vigésimo longa do premiado diretor, ator, produtor e roteirista espanhol Pedro Almodóvar, detentor de dois ‘Oscar’, dois ‘Globo de Ouro’, seis ‘BAFTA’, além de quatro prêmios no Festival de Cannes.

Depois de um período nacional (1974-1978), conhecido como ‘Movida Madrilenha’, quando Almodóvar, conhecido apenas na Espanha e em circuitos de cineclubes, produziu uma série de curtas metragens autorais, houve a consagração internacional, que se iniciou com ‘Mulheres à beira de um ataque de nervos’ (1988), seguida por ‘Ata-me!’(1990), ‘De salto Alto’ (1991), ‘Kika’ (1993) e ‘A flor do meu Segredo’ (1995). A terceira fase se inicia com ‘Carne Trêmula’ (1997) e mostra Almodóvar em sua maturidade, com obras-primas do quilate de ‘Tudo sobre minha mãe’ (1999), ‘Fale com ela’ ( 2002), ‘Má educação’ (2004), ‘Volver’ (2006), ‘Abraços Partidos’ (2009), ‘A pele que habito’ ( 2011) e ‘Amantes Passageiros’ (2013).

Uma das características do cinema de Almodóvar é a recorrência de atrizes fetiches e uma porta aberta para desbravar a temática feminina. Mas Almodóvar é audacioso e vive para romper fronteiras, falando abertamente de sexo e sexualidade em todos os matizes possíveis, expondo o melhor e o pior dos diferentes, dos escondidos dos marginalizados e aí surge a ninfomaníaca, a prostituta, os homossexuais, a diversidade de gêneros, os abusos sexuais em crianças, a violência doméstica, a questão das drogas, passando por desejos humanos incontidos, pelos meandros da personalidade humana, alcançando os psicopatas, os loucos de todo o gênero, sem descuidar da ironia, do humor e até do horror.

Em ‘Julieta’, cujo roteiro foi adaptado a partir de três contos da escritora canadense Alice Munro, o verdadeiro melodrama almodovariano se faz presente. Aqui temos a personagem-titulo Julieta (Emma Suárez na juventude e Adriana Ugarte na maturidade), uma mulher de meia idade que está prestes a se mudar de Madri para Portugal, acompanhando seu namorado Lorenzo (Dario Grandinetti). Um encontro fortuito na rua com Beatriz (Michelle Jenner), uma antiga amiga de sua filha Antía (Blanca Parés), faz com que Julieta repentinamente desista da viagem. Ela resolve se mudar para o antigo prédio em que vivia, também em Madri, e lá começa a escrever uma carta para a filha relembrando o passado entre as duas.

Nada como por a vida a limpo no papel, e é isso que tenta fazer Julieta, relembrando seu passado, seus erros e acertos, suas memórias, suas lembranças. E o melhor de Almodóvar está ali: sexo, segredos, cores berrantes, mulheres de personalidade, conflitos maternos. O vermelho-sangue abre a primeira cena, vibrante, passional, assim como a trilha sonora de Alberto Iglesias envolvendo os personagens. E, falando de personagens, nada como uma atriz fetiche. E, eis que surge Rossy de Palma, como uma sinistra empregada doméstica, que, por saber demais da vida dos patrões, altera o rumo dos acontecimentos. A Espanha, os espanhóis e a culinária também se fazem presentes. Há até um pequeno contraponto com a mitologia grega, com o pescador e sua vida subjugada pelo poder incomensurável do mar. Não faltou nada. Trata-se de um legítimo Almodóvar!

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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