Críticas Lucinha no Cinema

Justiça Federal – A Lei é para Todos

Sempre acho curioso ouvir a pergunta – ‘o que ‘o Povo’ tem a dizer sobre isso?’ – quando o equivalente americano ao nosso Ministério Público é chamado a opinar, nos filmes cujas cenas ocorrem nos Tribunais de Justiça. Essa denominação seria uma forma de lembrar às pessoas do papel fundamental, da razão primeira e única desse órgão: a defesa e representação das pessoas do povo!

Para qualquer um que não seja norte-americano pode soar pitoresco se fazer essa associação, mas é assim que eles veem uma instituição pública que só existe para proteger e servir aos interesses dos cidadãos, função, aliás, que deveria ser a única e inequívoca razão de ser do Estado.

Até a Constituição Federal de 1988, o Ministério Público acumulava tantas atribuições no Brasil, que acabava por não fazer o que lhe cabia na defesa da democracia: zelar pelo efetivo respeito dos poderes públicos e dos direitos fundamentais assegurados na Constituição. Em outras palavras, o Ministério Público não tinha a independência, a autonomia e o respeito que hoje ostenta na sociedade brasileira. No futuro, com as mudanças que se operam desde já, a história provavelmente confirmará: depois de 1988, o Brasil nunca mais foi o mesmo!

Você duvida? Onde você estava no julgamento do Mensalão? E no dia 17 de março de 2014, quando teve início a Operação Lava Jato? Pois fique sabendo: a Lava Jato já cumpriu mais de mil mandados de busca e apreensão, de prisão temporária, de prisão preventiva e de condução coercitiva, com a condenação de mais de 150 pessoas, tudo isso visando apurar um esquema de lavagem de dinheiro que movimentou bilhões de reais em propina.

Quer saber o valor em números precisos? Infelizmente, ainda não é possível calcular o rombo total. Quem sabe um dia, quando finalmente conseguirem juntar todas as pontas soltas, a gente não conheça o verdadeiro valor da corrupção brasileira recente? Sim, eu sei: a corrupção não foi inventada agora, nem deixará de existir depois da Lava Jato. Essa constatação é verdadeira, mas nada disso deve inibir a apuração das irregularidades, muito pelo contrário.

E, convenhamo-nos, não dá para fechar os olhos e fingir que nada disso aconteceu. Não dá para esquecer que a maior empresa brasileira quase foi à falência, porque foi usada por políticos e empresários inescrupulosos. Não dá para continuar aceitando que políticos se elejam com patrocínios, interesses e objetivos escusos, sem qualquer compromisso com o interesse público.

Também não dá para, simplesmente, criticar o trabalho da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça na averiguação dos fatos e punição dos responsáveis pelos crimes. Você pode até achar que há espetacularização, ou que provavelmente alguns equívocos e exageros foram cometidos na condução das averiguações, mas nada disso pode colocar sob suspeição o resultado das investigações, muito menos menosprezar os prejuízos causados pelos crimes cometidos e a efetiva punição dos envolvidos.

E esse é justamente o objetivo do longa-metragem “Justiça Federal – A Lei é para Todos”, do roteirista, produtor e diretor brasileiro Marcelo Antunez (“Até que a sorte nos separe 3”- 2015, “De pernas pro ar”- 2010): precisamos falar sobre a corrupção no Brasil!

O alerta para que os brasileiros conversem civilizadamente já está dado há tempo, mas faltam racionalidade, vontade de mudar velhos e arraigados hábitos, de pensar no país como um bem a ser valorizado, não como um objeto a ser dilapidado. E, infelizmente, sobram ideologias, deturpação da realidade, mentiras, interesses escusos, ignorância e má-fé.

Apesar do tempo já transcorrido – a operação está em sua 45° fase operacional – ainda não existe um horizonte visível, um ponto de chegada palpável. Mas isso só ocorre porque ainda há o que investigar. Para espanto das pessoas comuns, não param de surgir indícios criminosos de corrupção ativa e passiva, gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro, organização criminosa, obstrução da justiça, operação fraudulenta de câmbio e recebimento de vantagem indevida.

E pensar que tudo teria começado no final de 2013, com uma operação da Polícia Federal investigando tráfico de drogas! O que poderia ser visto como uma tremenda fantasia de roteiristas – a  apreensão, numa estrada do interior do Paraná, de um caminhão carregado de palmitos recheados com 697 kg de cocaína – acaba por revelar o maior esquema de corrupção jamais visto no mundo!

A investigação estava a cargo da equipe montada por Ivan Romano (Antonio Calloni), sediada em Curitiba e composta por Beatriz (Flávia Alessandra), Júlio (Bruce Gomlevsky) e Ítalo (Rainer Cadete). As conexões do tráfico levaram os investigadores ao doleiro Alberto Youssef (Roberto Birindelli) e, posteriormente, ao ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa (Roney Facchini), que revelaram uma imensa estrutura envolvendo grandes construtoras e o governo, numa gigantesca e complexa armação para desviar dinheiro público. À medida que a investigação avançava, o grupo liderado por Ivan se aproximava cada vez mais de alguns dos políticos mais influentes do país.

Os produtores já se manifestaram pela continuação do longa-metragem e este seria o primeiro de uma trilogia que espera contar toda a história da Lava Jato. Mesmo que você pense que sabe tudo o que aconteceu até agora e consiga imaginar o final dessa história, a realidade sempre consegue superar a ficção. A cada nova etapa, novos personagens parecem surgir de onde menos se espera, revelando crimes cada vez mais complexos.

O roteiro, de Gustavo Lipsztein e Thomas Stavros, tem como ponto de partida o livro homônimo de Carlos Graieb e Ana Maria Santos, que revela os bastidores da operação, com histórias que passam longe das páginas dos jornais e sites de notícias. Assim como na trilogia cinematográfica, o livro também terá continuações. Pela quantidade de HDs, celulares e documentos apreendidos, parece ainda haver muitas histórias a serem contadas.

As críticas, pouco condescendentes, dizem que o filme é partidário, uma espécie de campanha eleitoral antecipada. Quem acompanha a realidade brasileira, não só aquela divulgada pela poderosa Rede Mundo – com seu grande aparato de TV, rádio e jornais – já percebeu que ainda falta muito a ser revelado. Nem tudo o que a mídia expõe tem relação com a verdade ou com o interesse público. Todos os partidos deveriam prestar mais atenção ao que diz a chamada opinião pública. Em algum momento os fatos superarão as versões.

Além da história – que seria um ótimo thriller de ficção, não fosse tudo verdade – o filme conta com um excelente elenco, facilitando o entendimento dos fatos ali apresentados. Apesar dos críticos alardearem que alguns personagens são caricatos, temos que admitir: caricatas são as pessoas reais que eles representam. Infelizmente, não há como competir com tamanha canastrice!

Apesar do apuro na produção, com locações reais e ótimo elenco, que facilitam o entendimento dos fatos narrados, além das perseguições automobilísticas bem executadas e da ótima pegada policial, o filme poderia dispensar perfeitamente o preâmbulo histórico-pitoresco. E, sinceramente, não dá para continuar culpando os portugueses pelos problemas ocorridos depois de 1500!

‘Há épocas de tal corrupção que, durante elas, talvez só o excesso do fanatismo possa, no meio da imoralidade triunfante, servir de escudo à nobreza e à dignidade das almas rijamente temperadas.’ (Alexandre Herculano)

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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