Críticas Lucinha no Cinema

Kóblic

Golpes de estado, ditaduras civis e militares, ditaduras provisórias e permanentes, guerra suja, terrorismo de estado, desaparecidos, impunidade. Infelizmente, o sentido de cada uma dessas palavras é muito conhecido dos argentinos. Não só pelos seis golpes de estado ocorridos durante o século XX (1930, 1943, 1955, 1962, 1966 e 1976), como também pelos 14 ditadores que ocuparam a presidência no intervalo de 25 anos, interrompendo governos democraticamente eleitos.

Mas, as cicatrizes mais profundas foram deixadas, sem sombra de dúvida, pelo autodenominado ‘Processo de Reorganização Nacional’ (1976-1983), que desencadeou uma verdadeira guerra suja na linha de terrorismo de estado, violando massivamente os direitos humanos.

Há relatos de que os militares teriam sequestrado, torturado e assassinado dissidentes e suspeitos políticos de todos os matizes, incluindo médicos e advogados que ofereciam apoio profissional aos perseguidos. As estimativas quanto ao número de vítimas são conflitantes, variando entre 9 mil e 30 mil pessoas, a maioria entre jovens menores de 35 anos, operários ou estudantes, detidos preferencialmente em seus domicílio, à noite.

Durante quase 30 anos, leis de impunidade, como as chamadas ‘Obediência Devida’ ou ‘Ponto Final’, impediram que os argentinos levassem os responsáveis pelos delitos de detenções ilegais, torturas e assassinatos, que ocorreram na ditadura militar, aos tribunais. Por conta disso, muitos  familiares dos desaparecidos, descendentes de europeus, buscaram justiça em seus países de origem. Os juízos na França, Espanha, Alemanha e Itália cumpriram um importante marco de pressão sobre o poder judiciário e o governo argentinos.

A partir desses julgamentos no exterior e de inúmeros questionamentos na Argentina, essas leis foram declaradas inconstitucionais pela Corte Suprema de Justiça, possibilitando a reabertura daqueles casos, então relacionados como crimes contra a humanidade e, portanto, imprescritíveis. Com a condenação de um dos responsáveis direto pelos desaparecimentos forçados, em 4 de agosto de 2006, foi firmada jurisprudência reconhecendo que o terrorismo de estado na ditadura argentina foi uma forma de genocídio.

Esses desaparecimentos forçados renderam músicas, livros e filmes, como o mais recente longa-metragem do roteirista e diretor argentino Sebastián Borensztein (‘Um conto chinês’) – Kóblic, que conta a história de um capitão das Forças Armadas, Tomás Kóblic (Ricardo Darín), comandante de um dos chamados “voos da morte”, que lançavam pessoas consideradas subversivas no Rio da Prata. Por não concordar com esses terríveis procedimentos, o militar se refugia nos confins de um vilarejo perdido ao sul de Buenos Aires, na isolada e remota Colônia Santa Elena, onde um velho conhecido mantém um serviço de fumigação com duas pequenas aeronaves.

O ambiente criado a partir do roteiro de Borensztein é denso, angustiante, uma espécie de suspense misturado com faroeste, não só pelo lugar, selvagem, sem outra lei que não a da força e das armas, como também pelos pistoleiros, xerifes e suspeitos de toda ordem que habitam aquele fim-de-mundo. E nesse faroeste sul-americano também ocorrem perseguições, confrontos físicos e até uma espécie de duelo, o que certamente não poderia faltar num faroeste!

Levando-se em conta o terrível legado dos golpes militares, é surpreendente perceber a criatividade dos roteiristas argentinos, inserindo argumentos criativos em questões tão complexas e dolorosas da sua história recente. Lamentável que alguns críticos desqualifiquem o filme, argumentando falta de aprofundamento nos crimes de guerra ou contexto problemático do enredo. Convém lembrar que não se trata de um documentário daqueles cruéis eventos, muito menos de um acerto de contas entre civis e militares.

O ambiente de suspeição e perseguições daquela época, além dos sinistros voos da morte, com toda sorte de violência ao seu redor, são questões pertinentes numa estória de suspense, guerra psicológica, romance, vingança, ajuste de contas. Num lugar tão isolado, nada passa despercebido, principalmente quando o xerife mantém tudo e todos sob seu controle. Aqueles tempos eram difíceis e não se podia confiar em ninguém. Talvez isso explique, mas certamente não justifica, a razão de ser a violência, a única estratégia utilizada pelos personagens de Kóblic para resolver as pendências por aquelas bandas.

Saber o que aconteceu, divulgar os fatos, honrar a memória dos desaparecidos e exigir a punição dos culpados têm confortado os familiares das vítimas. Sebastián Borensztein e Ricardo Darín (perfeito como sempre), juntos novamente em Kóblic, também estão em busca dessa verdade, desaparecida assim como muitos dos dissidentes do regime. Apesar de tudo ter sido feito para dissimular a eliminação dos opositores, com base na tese de que sem corpo do delito não há crime, vale lembrar o que cantavam as ‘Mães da Praça de Maio’ nas marchas de protesto: ‘os desaparecidos, que digam onde estão!’

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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