Críticas Lucinha no Cinema

La La Land – Cantando Estações

Para comemorar o centenário do cinema, um júri com mais de 500 pessoas, entre artistas, compositores, músicos, críticos e historiadores, selecionou o clássico “Cantando na Chuva” [Singin’ in the Rain] (1952), com Gene Kelly e Debbie Reynolds, como o mais memorável musical de todos os tempos. Apesar do sucesso de público e de crítica, entretanto, os musicais não são unanimidade. Há os que adoram e os que odeiam musicais. Questão de gosto, naturalmente.

A partir de 1927, surgiu a possibilidade de se produzir filmes sonoros ligando as canções ao roteiro, o que revolucionou a narrativa do gênero musical. Depois do sucesso do primeiro longa-metragem com diálogos e cantorias sincronizados, aliados a partes totalmente sem som – “O Cantor de Jazz” – foram produzidos mais de 104 filmes em formato musical, em apenas três anos.

Alguns filmes foram considerados musicais, mas seus personagens não cantavam e, em outros, eles só dançavam. Muitas vezes composições já existentes e populares eram aproveitadas para embalar filmes, enquanto sucessos musicais da Broadway eram filmados. E um ciclo se completava: obras literárias eram adotadas para peças, peças para musicais de palco e musicais para filmes. E eis que surge aquilo que hoje conhecemos como o cinema musical-espetáculo.

Desde então, centenas de musicais foram produzidos, culminando com produções monumentais e bem-sucedidas da chamada “Era de Ouro dos Musicais” (1945-1965), como “Cantando na Chuva” e “A Noviça Rebelde”. Nas décadas seguintes, apesar dos musicais terem sido associados a espetáculos extravagantes da Velha Hollywood, com queda de público e de crítica, alguns se tornaram clássicos (“Grease”), outros amplamente premiados (“Cabaret”), além das incríveis bilheterias das animações musicais da Disney (A Bela e a Fera, Frozen e O Rei Leão, entre outros).

Mas na indústria do cinema, nada se perde, tudo se recicla. E o que faz sucesso sempre se replica. E não é que “O Cantor de Jazz”, o precursor dos musicais (que conta a estória de um pretendente a cantor sofrendo preconceito dos jazzistas tradicionais por ser branco) tem uma enorme ligação com o queridinho da vez de Hollywood, “La La Land – Cantando Estações” [La La Land], do jovem diretor e roteirista americano Damien Chazelle, conhecido pelo também premiado “Whiplash” (2014), com cinco indicações ao Óscar ?

Misto de romance e comédia dramática na forma musical, o longa-metragem conta o romance do pianista apaixonado por jazz Sebastian (Ryan Gosling) com a barista e pretendente a atriz Mia (Emma Stone), na cidade dos sonhos, Los Angeles. Depois de alguns desencontros, os dois descobrem interesses em comum e, apaixonados, resolvem morar juntos. Mas, como conciliar o relacionamento amoroso com a busca de oportunidades para carreiras diferentes, numa cidade tão competitiva?

‘La La Land’ já ganhou sete prêmios, entre eles o Golden Globe de melhor filme de comédia, além de quatorze indicações ao Óscar 2017, incluindo a de melhor filme. A cena inicial, um plano-sequência de 10 min, com mais de 100 dançarinos num viaduto engarrafado de Los Angeles, já se tornou uma referência de beleza, originalidade e técnica, não só por conta das piruetas e danças, como pela canção ‘Another Day of Sun’, interpretada por todo o elenco.

O filme é uma tremenda homenagem a Los Angeles, conhecida por alimentar e destruir esperanças e corações. E lá estão cenas de ruas, mostrando salas de de cinema, de teatro, ou pontos conhecidos da cidade, como Judge Harry Pregerson Interchange (o complexo de viadutos da cena de abertura), Hollywood Hills, Colorado Street Bridge, South Pasadena, Homer Laughlin Building, Watts Towers, o Observatório de Griffith Park, a estação ferroviária ‘Angels Flight’ (fechada depois de um descarrilamento e aberta só para as filmagens), os parques e suas vistas panorâmicas, além do trânsito caótico, da expansão imobiliária e da atmosfera dos estúdios de cinema.

A trilha sonora conduz a trama, mas a emoção supera a técnica. Nenhum dos atores é exímio cantor. Então não se deve esperar performances operísticas. Segundo consta, Ryan Gosling fez curso intensivo para tocar as músicas no piano, cantar e sapatear. E até se saiu bem. Aliás, o casal se saiu muito bem, pois Emma Stone também deu conta do recado, cantando e sapateando tão bem quanto o parceiro. A fantasia presente na trama facilita os encontros e desencontros e a narrativa se apoia na sequência das músicas coreografadas.

As canções, o ponto forte do longa-metragem, amarram as letras à trama, interligando canto e dança, como uma espécie de ‘revival’ dos antigos musicais da Metro-Goldwyn-Mayer, com direito a figurinos e referências à década de 1950, além do uso do CinemaScope, a grande novidade daqueles tempos. A trilha sonora foi composta e orquestrada por Justin Hurwitz, ex-colega de Chazelle na Universidade de Harvard, com as letras a cargo de Pasek and Paul. Tanto a trilha sonora, quanto a canção-tema, ‘City of Stars’ foram indicadas ao Óscar e já ganharam o Golden Globe.

Como todo filme que se propõe a homenagear Los Angeles, Hollywood e o cinema, há citações a musicais famosos, do início ao fim, como ‘Cantando na Chuva’, ‘O Picolino’, ‘Sinfonia de Paris’, ‘Os guarda-chuvas do Amor’, ‘Ritmo Louco’, ‘A Roda da Fortuna’, ‘The Young Girls of Rochefort’ e ‘Oito e Meio’. Todos clássicos e embalados nas mesmas angústias e alegrias dos seres humanos: a dor e o prazer de seguir seus sonhos.

Mesmo que você não seja um fã convicto de musicais, dê uma chance ao sonho, e como tenta dizer o título do filme – ‘lalaland’ – saia da realidade por alguns momentos. Vai valer a pena.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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