Críticas Lucinha no Cinema

Life – Um retrato de James Dean

‘Uma fotografia é um instante de vida capturado para a eternidade.’ (autor desconhecido)

Vida, morte e eternidade, a trilogia do drama humano em constante e perseverante evolução, perfeitamente documentadas em imagens. Com a popularização da fotografia no final do século XIX, muito já se fez e se escreveu sobre essa técnica de criação de imagens. E, desde então, muitos vivem da fotografia, seja registrando ou sendo registrado. Há quem considere a fotografia uma arte, outros uma simples reprodução da realidade. A diferença entre uns e outros estaria na sensibilidade de quem aperta o disparador.

Segundo Henri Cartier-Bresson (1908-2004), o pai do fotojornalismo, ‘fotografar é colocar, na mesma linha de mira, a cabeça, o olho e o coração.’ E a forma como cada um desses agentes atua, vai determinar o tipo de imagem ou o que dela se pretende revelar. Memória, afeto, prazer ou denúncia, qual será o motivo do olhar? Qual a verdadeira essência daquela imagem?

Entre os muitos que se ocuparam da arte de fotografar, há que se destacar Roland Barthes (1915-1980), escritor, sociólogo, crítico literário, semiólogo e filósofo francês. E, de tudo com que ele se ocupou, o mais relevante foi desvendar o verdadeiro enigma da fotografia, a percepção do par ‘studium/punctum’, nos denominados estados da fotografia. O que aquela imagem denota, o que exatamente o fotógrafo quis mostrar? Quais as conotações derivadas daquele instante capturado pelas lentes? Que detalhes não foram pré-produzidos, mas se destacam naquela fotografia?

Nesses tempos de exposição excessiva da intimidade nas redes sociais, chama a atenção o olhar nostálgico e intimista sobre a arte da fotografia que nos revela ‘Life – Um retrato de James Dean’, o novo filme do diretor e fotógrafo neerlandês Anton Corbijn, conhecido por dirigir videoclipes do U2, do Nirvana e do Coldplay, além de ser o responsável por ‘Control’ (2007), longa sobre Ian Curtis do Joy Division, ‘The American’ (2010) e ‘O homem mais procurado’ (2014).

Às vésperas do lançamento do filme “Vidas Amargas” (1955), James Dean (Dane DeHaan) ainda não é um ator famoso. Os estúdios têm grandes planos para transformá-lo em um astro, mas ele não se sente à vontade com a vida de festas, eventos e autógrafos. O fotógrafo Dennis Stock (Robert Pattinson), apostando no sucesso iminente de James Dean, pede para fotografá-lo em um ensaio para a revista Life, mas recebe apenas respostas negativas. Um dia, para fugir da promoção de “Vidas Amargas”, Dean esconde-se na fazenda de sua família, e leva o novo amigo Stock junto. Nessa empreitada, o fotógrafo registra as imagens mais famosas de toda a curta carreira do ator.

Com roteiro do escritor australiano Luke Davies (‘Candy’-2006), o longa tentar descobrir quem era realmente James Byron Dean (1931-1955), ícone cultural, personificação da rebeldia e das angústias próprias da juventude da década de 1950, eternizado na memória dos fãs através das fotos registradas por Dennis Sotck, fotógrafo freelancer associado à conhecida Agência de Fotografia Magnum. Como James Dean morreu muito jovem, com apenas 24 anos, num terrível acidente automobilístico, sua vida se confunde com a de seus personagens, todos tão angustiados e melancólicos quanto ele parece ter sido.

Além de poder participar de uma espécie de ‘making of’ das fotos da Life, o melhor do longa são os momentos íntimos, os dramas familiares, as pequenas estórias, o tédio e a melancolia de um ator estreante, que não se adaptava à vida agitada de Hollywood, muito menos às exigências dos contratos leoninos e claustrofóbicos então praticados pelos estúdios de cinema. E certamente que o elenco, em esplêndidas atuações, além da perfeita reconstituição daquela época, facilitam, e muito, esse mergulho no passado.

Os embates entre os personagens, com James Dean acuado por seu produtor, Jack Warner (Ben Kingsley), presidente da Warner Bros Studios, o ator, influenciando ou sendo influenciado por Dennis Stock, e este e seu editor na Magnum, John Morris (Joel Edgerton), na eterna discussão do possível com o ótimo, são os melhores momentos do longa, revelando as angústias, a insegurança e a baixa autoestima daqueles jovens profissionais, num momento emblemático do pós-guerra, com traumas e dramas pessoais, além do ambiente ainda conturbado com o fim da segregação racial determinado pela Suprema Corte americana, ou, quem sabe, com a iminência da controvertida Guerra do Vietnã.

A surpreendente atuação de James Dean em ‘Vidas Amargas’ (1954), de Elia Kazan, em ‘Juventude Transviada’ (1955), símbolo da rebeldia dos anos 1950, onde atuou com Natalie Wood, e ainda em ‘Assim caminha a humanidade’ (1955), ao lado de Elisabeth Taylor, nos quais interpretou jovens solitários e amargurados, marcaram decididamente essa época e o então desconhecido ator. James Dean recebeu duas indicações ao Oscar, em 1956, por ‘Vidas Amargas’, a primeira indicação póstuma da história das premiações, e em 1957, por ‘Assim caminha a humanidade’, ambas de melhor ator. Ganhou, também postumamente, dois Globos de Ouro, em 1956, como melhor ator, e no ano seguinte, num prêmio especial que o consagrou como ator favorito do público.

James Dean continua vivo, com sua pulsante juventude. As fotografias interromperam o tempo. Pode não haver futuro, mas o passado, aquele instante congelado no tempo, aqueles momentos vividos, estão todos ali, não só nas fotografias de Dennis Stock, como na memória dos fãs, mostrando o icônico jovem, o eterno rebelde sem causa. A pose eternizou a ficção. Mas, são os detalhes, o acaso, aquilo que salta da foto como uma flecha, o que efetivamente permaneceu na memória dos fãs. Os tais ‘punctum’ detectados por Roland Barthes, que transformam uma imagem comum numa tocante lembrança, estão em cada imagem, a depender do olhar de quem vê, seja num levantar de sobrancelhas, naquele estremecimento pelo frio do inverno, num virar de cabeça, na tristeza do semblante, numa incógnita do olhar.

‘A câmera não faz diferença nenhuma. Todas elas gravam o que você está vendo. Mas você precisa ver.’ (Ernst Haas)

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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