Críticas Lucinha no Cinema

Lion-Uma jornada para casa

por Lucia Sivolella Wendling*

Se um passageiro de trem na Índia se dispusesse a nele viajar por dias ou mesmo por poucas horas, conseguiria conhecer o pior e o melhor do país sem sequer sair do trem. E isso seria possível graças à Indian Railways, a estatal indiana responsável por uma das maiores redes ferroviárias do mundo: 7.500 estações, 10 mil locomotivas, 280 mil vagões, 108 mil km de trilhos e 1,6 milhão de empregados, transportando mais de 13 milhões de pessoas por dia, sete bilhões por ano, em várias classes de assentos e cabines, além das 350 milhões de toneladas de carga. Números grandiosos, especialmente para quem não conhece a Índia e suas longínquas e diversificadas paisagens.

Com mais de um bilhão de habitantes, uma sociedade pluralista, multilíngue e multiétnica, a Índia é uma verdadeira colcha de retalhos, unidos, literalmente, por trilhos e seus indescritíveis trens – transformando as ferrovias no meio de transporte mais importante do país. Depois da independência e nacionalização da empresa responsável pelo serviço de trens – implantado pelos britânicos em meados do século XIX para transportar algodão cru para a indústria têxtil da Grã-Bretanha –  o sistema ferroviário permanece como o maior e mais importante legado do colonialismo britânico.

Mas, essa imensa teia de trilhos e seus velhos, sujos e apinhados trens também oferecem perigos e deixam sequelas. A cada meia hora uma pessoa morre, alimentando uma triste estatística de 17 mil acidentes fatais por ano, a maioria enquanto as pessoas atravessam as linhas dos trens, além das que simplesmente caem dos vagões, por conta do amontoado de passageiros, pedintes e vendedores, uma verdadeira multidão, transitando por suas portas sempre abertas a riscos e aventuras.

E, nessa estarrecedora realidade, nem os elefantes estão a salvo dos acidentes no sistema ferroviário indiano. Com uma manada de 26 mil elefantes selvagens vagando pelas ruas das cidades, não é incomum que alguns sejam atropelados, como ocorreu em 2013, quando sete animais morreram e dezenas saíram gravemente feridos, por conta da colisão de uma manada de 40 elefantes com um trem em alta velocidade.

Mas não há como viver na Índia sem andar nos seus trens ou transitar por trilhos que atravessam seus 28 estados, de norte a sul e de leste a oeste. E foi por conta dessa realidade que tomamos conhecimento do drama de  Saroo, que com apenas cinco anos se perdeu do irmão mais velho Guddu, numa estação de trem em Khandwa, enfrentou grandes desafios para sobreviver, até ser resgatado em Calcutá, onde foi adotado por uma família australiana. Incapaz de superar o que lhe aconteceu no passado, aos 25 anos ele decide buscar uma forma de reencontrar sua família biológica.

Este é o argumento de ‘Lion – Uma jornada para casa’ [Lion], drama dirigido pelo publicitário e diretor de cinema australiano Garth Davis, indicado em sete categorias no Oscar (filme, ator e atriz coadjuvantes, roteiro adaptado, trilha sonora e fotografia), além de premiado no BAFTA (ator coadjuvante e roteiro adaptado), no AACTA (atriz e ator coadjuvantes), e em inúmeros outros festivais de cinema mundo afora.

O roteiro de Luke Davies (‘Life – Um retrato de James Dean’) é baseado na autobiografia ‘A long way home’, através da qual Saroo Brierley faz sua redenção e descreve a longa e difícil jornada para reencontrar Ganesh Talai, um isolado e pobre vilarejo da Índia, distante 1500 km de Calcutá, onde foi resgatado e adotado por Sue e John Brierley, vividos no cinema pelos atores australianos Nicole Kidman e David Wenhan.

Como na maioria dos filme de sucesso, o elenco faz toda a diferença, e o personagem Saroo tem a performance de dois excelentes atores, tanto na infância, com o cativante indiano Sunny Pawar, como na fase adulta, com o britânico Dev Patel, que ganhou notoriedade e o prêmio de revelação (National Board of Review) como Jamal Malik no premiado ‘Quem quer ser um milionário’ [Slumdod Millionaire], além de participações em seriados e longas-metragens, como o protagonista da comédia dramática ‘O Exótico Hotel Marigold’ [The Best Exotic Marigold Hotel].

Apesar do apelo melodramático presente na primeira parte do filme, não há como não se emocionar com as peripécias do pequeno Saroo, expondo as mazelas de uma sociedade que detém a maior concentração de pessoas pobres vivendo em ambientes insalubres, um círculo vicioso que só faz aumentar as altas taxas de subnutrição e abandono de crianças. A Índia, aliás, detém o recorde de mais de oitenta mil crianças perdidas ou sequestradas por ano, muitas vítimas do tráfico infantil para exploração de trabalho escravo ou sexual, questão também abordada levemente pelo roteiro.

Sabendo-se  que os indianos convivem com mais de 400 dialetos diferentes, incluídos o híndi falado por Saroo e o bengali de Calcutá, fica mais fácil entender como ele se perdeu, porque sua mãe não conseguiu encontrá-lo e ele foi adotado por uma família da Tasmânia. Já adulto, por conta das possibilidades criadas pela internet e com a ajuda dos recursos disponíveis no Google Earth, foi possível, finalmente, descobrir onde morava na infância, resgatando um lugar ermo e perdido em suas lembranças, além de poder reencontrar a família que insistia em permanecer em sua memória afetiva.

No final das contas, se levarmos em consideração as dificuldades enfrentadas pelas crianças perdidas ou abandonadas na Índia, chegaremos à conclusão de que Saroo teve sorte, muita sorte, apesar de tudo por que passou. E, quando ficamos sabendo que seu nome real, Sheru, que ele pronunciava erroneamente Saroo, seria uma redução de ‘sher’, a palavra em Hindi para leão, percebemos que ele viveu realmente como um pequeno leão, superando com garra e disposição todos os obstáculos para reencontrar e resgatar suas raízes.

SINOPSE:
Aos cinco anos de idade, o indiano Saroo se perdeu do irmão numa estação de trem de Calcutá e enfrentou grandes desafios para sobreviver sozinho, até ser adotado por uma família australiana. Incapaz de superar o que aconteceu, aos 25 anos ele decide buscar uma forma de reencontrar sua família biológica.
Data de lançamento: 16 de fevereiro de 2017 (Brasil)
Filme: Lion (2016 – Drama – 12 anos)
Direção: Garth Davis
Indicações: Prêmio Globo de Ouro: Melhor Filme Dramático, mais
Prêmios: Prêmio BAFTA de Cinema: Melhor Ator Coadjuvante, mais
Música composta por: Dustin O’Halloran, Hauschka
Elenco:
Dev Patel: Saroo Brierley
Nicole Kidman: Sue Brierley
Rooney Mara
David Wenham
Priyanka Bose: Kamla
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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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