Críticas Lucinha no Cinema

Lolo – O filho da minha namorada

O que seria pior em um relacionamento familiar: uma mãe superprotetora ou um filho com desordem de personalidade antissocial? À primeira vista, qualquer um desses problemas causaria dificuldades, não só no convívio familiar, como na vida adulta e independente do filho. Mas, desordens de personalidade conduzem ao imponderável, e o repúdio às normas sociais pode ser, em quaisquer circunstâncias, um incomensurável obstáculo em relacionamentos sociais.

A psiquiatria considera essas desordens, ou transtornos de personalidade dissocial, estados da mente. As pessoas nascem e morrem com esses transtornos. Não haveria tratamento ou medicamento eficaz para tratá-los. E, dentre os transtornos mais conhecidos muito se fala da sociopatia, eventualmente confundida com a psicopatia. Na verdade, embora ainda não haja um consenso, alguns pesquisadores tendem a considerar a psicopatia como um transtorno genética, enquanto que a sociopatia possuiria como causa não só a predisposição hereditária, mas a influência do ambiente, tais como negligência dos pais, abuso ou violência na infância, para a sua eclosão.

Nesse sentido, apesar de ambos serem incapazes de sentir emoções, empatia ou culpa, os psicopatas, por não sentirem medo, teriam alta predisposição à violência e à impulsividade, enquanto os sociopatas, por se apresentarem próximos à normalidade, seriam mais estáveis em seus relacionamentos, conseguindo enganar e manipular facilmente as pessoas ao seu redor, tanto por ganância como por vingança. Talvez você já tenha conhecido alguém com essas características, mas não percebeu, pois são muito dissimulados. As taxas de prevalência oscilam entre 0,5 e 3,3% da população, subindo para 45 e 66% entre presidiários.

Normalmente, os familiares não detectam esses comportamentos fora da normalidade, especialmente por não ocorrerem situações limites que propiciem tais descobertas, mas, principalmente, porque é muito difícil reconhecê-los. Mas, eis que surge um choque de interesses e pronto, está instalado o conflito. E parece que foi esse o caso da comédia ‘Lolo – O filho da minha namorada’, o novo longa de Julie Delpy, atriz, roteirista, diretora, cantora e compositora franco-americana, indicada ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado pelos dois últimos filmes da trilogia ‘Antes do amanhecer’ (1995), ‘Antes do pôr-do-sol’ (2004) e ‘Antes da meia-noite’ (2013), filmes nos quais atuou ao lado de Ethan Hawke.

De férias no sul da França, Violette (Julie Delpy), sofisticada parisiense quarentona que trabalha no mundo da moda, encontra Jean-René (Dany Boon), um modesto técnico de informática recém-divorciado. Contra todas as probabilidades, acontece uma química de verdade entre eles. No fim do verão, Jean René não perde tempo em se juntar a sua amada em Paris, mas suas diferentes origens sociais e a presença de Lolo (Vincent Lacoste), o filho mimado dela de 19 anos, não tornarão as coisas tão fáceis.

Violette nunca se preocupou com a impulsividade de Lolo, muito menos com seu comportamento errático, um tanto ou quanto violento, pois sempre o enxergou como o independente e esperto filho de pais separados, cuja mãe trabalha e viaja muito. Ele precisava se virar para sobreviver. Todos aqueles comportamentos narcisistas ou manipuladores, eram vistos como resultado da vida que compartilhavam. Violette até achava útil, um menino inteligente e charmoso, agir daquela forma, não fosse Lolo um terrível manipulador quando não faziam o que ele queria!

O roteiro se aproveita da disputa, entre Lolo e Jean-René, por Violette, para revelar a personalidade extremamente egocêntrica e narcisista do filho mimado e obsessivo. Apesar de ser muito protetora, Violette não conhece seu filho, e este também não está nem aí para a felicidade de sua mãe. Quem sofre mesmo é Jean-René, o caipira apaixonado, que não tem a menor ideia de que não pode confiar em Lolo, um perfeito psicopata, incapaz de manter uma relação leal e duradoura, incapaz de se arrepender, de se modificar, incapaz de amar.

Apesar da natureza cruel de Lolo, o roteiro consegue criar cenas impagáveis de humor, muitas vezes mais para humor negro, naturalmente. Nesse sentido, são memoráveis as cenas da trapalhada do pó-de-mico nas roupas de Jean-René, do vírus no computador, da luta de guarda-chuvas, uma verdadeira batalha de espadachins pela donzela, em plena sala-de-estar. E o que rola nas conversas, acerca da vida sexual das mulheres depois dos 40? Às vezes parece que há mais entusiasmo e estórias para contar da escassez de sexo, do que realmente podia ter rolado. ‘Quanto mais idiota, melhor o sexo’, lembra Ariane (Karin Viard), a amiga descolada de Violette. E tem ainda aquela disputa provinciana de Paris e o resto da França, incluindo piadas sobre caipiras versus parisienses, puro humor francês.

Vai chegar o momento em que a mãe precisará encarar a realidade. Afinal, o filho quer estar próximo, precisa realmente dela, ou simplesmente quer controlar seus sentimentos, seu tempo, infernizar sua vida? Carência, ciúme, necessidade de afeto ou simplesmente crueldade? E o filme parece deixar um conselho: se puder, afaste-se desse tipo de pessoas. Os psicopatas que não são assassinos estão por aí, ganhando promoções, enquanto puxam o tapete de colegas, corrompendo empresários, cuidando levianamente de pacientes, preparando o bote para qualquer incauto que se interponha no seu caminho. Quanto mais longe melhor, pois eles são predadores sociais! A melhor maneira de se proteger de um psicopata é evitá-lo.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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