Críticas Lucinha no Cinema

Manchester à Beira-Mar

por Lucia Sivolella Wendling*

Quando ocorre uma desgraça, a gente percebe como o mundo está dividido entre aqueles que sabem lidar com perdas e aqueles que não sabem. Tudo o que acontecer depois vai depender de como os envolvidos administram suas emoções e se recuperam das adversidades. Pode parecer uma conclusão simplista, mas essa capacidade de defesa e recuperação faz toda a diferença entre viver ou sobreviver.

Os psicólogos dizem que há indivíduos que sabem administrar, melhor que outros, suas emoções e impulsos. E, por conta dessa habilidade, eles conseguem enfrentar problemas, superar obstáculos e resistir à pressão em situações adversas, sem entrar em surto psicológico.

E da física veio o termo que se encaixa perfeitamente nessa habilidade, nessa capacidade de adaptação – resiliência – conhecida como a propriedade que alguns materiais apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a um choque ou percussão.

Pessoas resilientes, assim como os materiais, seriam mais resistentes que outras, com enorme capacidade de adaptação e de voltar ao estado natural após alguma situação crítica ou fora do comum. Essas pessoas conseguem extrair lições de crises, transformando infortúnios e desgraças em emoções positivas. Como são otimistas, com sólida autoestima, aceitam críticas sem ressentimentos e, por conta disso, mantém amizades e relacionamentos saudáveis, suporte social necessário para a manutenção do bem-estar pessoal após forte estresse.

Esse não é, decididamente, o perfil de Lee Chandler, protagonista de ‘Manchester à Beira-Mar’ [‘Manchester-by-the-sea’], um dos filmes mais falados de 2016 e favorito ao Oscar. O drama foi escrito e dirigido por Kenneth Lonergan, diretor de cinema e roteirista americano, responsável pelos roteiros e direção dos longa-metragens ‘Margareth’, de 2011 e ‘You Can Count on Me’, de 2000, além de outros trabalhos como o roteiro de “Gangues de Nova York”, de 2002.

Após a morte de seu irmão mais velho, Lee (Casey Affleck) fica chocado ao saber que Joe (Kyle Chandler) o fez guardião de seu sobrinho Patrick (Lucas Hedges). De férias de seu trabalho, Lee retorna, de forma relutante, à Manchester-by-the-Sea, a pequena cidade do Massachusetts, para cuidar de Patrick, um espirituoso menino de 16 anos e ainda se vê forçado a lidar com o passado que o separou de sua mulher Randi (Michelle Williams) e da comunidade onde nasceu e foi criado.

Ligados pelo homem que manteve a família unida, Lee e Patrick encontram dificuldades de se ajustarem ao mundo sem ele. Depois de sofrer um forte trauma, Lee tinha decidido sair da cidade e trabalhar como encarregado da limpeza de edifícios residenciais em Boston. Ele pretendia se afastar do passado, talvez se esquecer de tudo e de todos. Na verdade, seu autoexílio parece mais um grande castigo, uma espécie de autopunição. Uma forma de não esquecer. De reviver no trabalho miserável e na vida infeliz sua penitência, a expiação de todos os seus pecados.

Com este personagem amargo e perdedor, Casey Affleck se posiciona, finalmente, como um dos melhores atores de sua geração, apesar de normalmente atuar como coadjuvante. Aliás, foi nessa posição que ele foi indicado ao Oscar, ao Globo de Ouro e ao ‘Screen Actors Guild’, além de ter ganhado os Prêmios ‘National Board Review’ e ‘Satellite Award’, em 2007, pelo longa ‘O Assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford’.

‘Manchester à Beira-Mar’, um longa-metragem sobre perdas e como as pessoas reagem a essas perdas, parece ter alçado altos voos, caindo no gosto do público e da critica. O longa entrou em várias categorias na disputa do Oscar 2017: Melhor Filme, Ator Principal (Casey Affleck, já ganhou vários prêmios por esta atuação, além do Globo de Ouro), Ator e Atriz Coadjuvantes (Lucas Hedges e Michelle Williams), Diretor (Kenneth Lonergan) e Roteiro Original.

Além do elenco, em ótima performance, merecem destaque a trilha musical, com ênfase no ‘Adagio Per Archi e Organo in Sol Minore, de Albinoni, (The London Phillarmonic Orchestra) e a edição, com a criativa reconstituição dos fatos em flashbacks, numa espécie de confessionário, com o apaziguamento doloroso dos fatos.

“A dor é inevitável. O sofrimento é opcional”
(autor desconhecido)

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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