Críticas Lucinha no Cinema

‘Marguerite’ ou ‘Florence: Quem é essa mulher?’

Por que odiamos nossa voz gravada? Por que gostamos do que vemos no espelho, mas não das fotos em que estamos? A explicação poderia estar no denominado ‘efeito da mera exposição’, estudado por diversos psicólogos desde o século XIX, por conta do qual imagens e sons, vistas e ouvidos frequentemente, se tornariam familiares, gerando na mente humana sentimentos positivos, que provocariam uma espécie de afeição, de aconchego. Sem que o indivíduo se dê conta, o subconsciente formaria uma preferência emocional, uma tendência a gostar daquilo com o que está familiarizado, ou seja, quanto mais se vê, mais se gosta.

Talvez essa teoria, conhecida no meio publicitário como ‘princípio de familiaridade’, nos ajude a entender as atitudes de uma bizarra personagem, a milionária americana Florence Foster Jenkins, nascida em 1868, na Pennsylvania, e que desde criança manifestou o desejo de seguir a carreira de cantora lírica, mas nunca conseguiu acertar uma única nota, sendo conhecida como a pior soprano do mundo.

Florence Foster Jenkins foi uma pianista prodígio quando criança, com recitais por todo o estado da Pennsylvania, tendo se apresentado até na Casa Branca, durante a administração do Presidente Rutherford B. Hayes. Manteve-se como professora de piano até que um acidente com o braço a impossibilitou permanentemente de tocar piano.

Apaixonada pela música, mas completamente inconsciente da sua incapacidade vocal, Florence tinha inquebrantável segurança de seu talento e dispunha-se a cantar as árias mais difíceis do repertório clássico, com indumentária e acompanhamento de pianista profissional, graças à fortuna que herdou de seu pai, banqueiro norte-americano, que não permitiu, enquanto vivo, que ela estudasse canto, por considerar que ela não tinha talento.

Em trinta e dois anos de carreira, conheceu todo tipo de reação do público, nos recitais anuais que protagonizava no Hotel Ritz, mas ninguém de seu círculo de relações jamais havia lhe dito que ela desafinava, seja por hipocrisia social, interesse financeiro ou simplesmente falta de coragem. Segundo seus biógrafos, ela e seu marido tinham a estratégia de distribuir convites exclusivos para pessoas na rua, com o objetivo de evitar a presença de críticos profissionais em suas performances.

Por conta dessas idiossincrasias, várias histórias e roteiros já foram escritos sobre a trajetória dessa improvável cantora de ópera, que ganhou o apelido de ‘a diva do grito’. Coincidentemente, há duas estréias simultâneas no Brasil, apresentando versões bem diferentes sobre a vida e a carreira dessa extraordinária personagem.

A primeira versão é a comédia dramática franco-belga-checa ‘Marguerite’, escrita e dirigida pelo francês Xavier Giannoli, premiada em Cannes com quatro estatuetas (Melhor Atriz, Figurino, Direção de Arte e Som).

Baseado livremente na vida de Florence Foster, Xavier apresenta Marguerite Dumont (Catherine Frot, em excepcional performance), como uma socialite milionária e excêntrica, uma espécie de diva filantropa, obsessivamente apaixonada por ópera, vivendo num inusitado palácio no campo, com seu inescrupuloso marido, Georges Dumont (André Marcon) e o fiel escudeiro, Madelbos (Denis M’Punga), misto de motorista, mordomo, pianista e fotógrafo, personagem aparentemente secundário, mas que atua como um maestro, conduzindo a estória e a performance de Marguerite, ora como uma crítica debochada da burguesia francesa, ora com toques de surrealismo ou de humanismo, ao sabor de seus interesse e dos delírios de Marguerite.

Xavier propõe uma visão mais romanceada da vida de Florence, transpondo a história para a França dos anos 1920, com humor, inocência, emoção e traição, por conta das hipocrisias e maldades da vida mundana de então. O filme é, antes de tudo, uma história de amor entre um homem e uma mulher, que procuram uma forma de continuar se amando, apesar das crueldades da natureza humana. A música serviu como um fio condutor, revelando a distância entre a vida que sonhamos e aquela que efetivamente se leva.

A outra versão, ‘Florence – Quem é essa mulher?’ ‘Florence Foster Jenkins’ no original, sob direção do britânico Stephen Frears (‘A Rainha’, ‘Alta Fidelidade’ e ‘Philomena’), revela uma anti-heroína, uma extraordinária personagem por trás da cantora sem noção, que existiu e continua fascinando pessoas ao redor do mundo. A memória de Florence sobreviveu, não por suas habilidades, mas por sua incapacidade, sua fragilidade, talvez carência, quiçá inocência.

A versão britânica está mais ocupada em descobrir o que estava por trás daquela extravagante mulher. Por que desafiava o bom senso, vivendo uma cantora caricata? Até que ponto a possibilidade de morrer a qualquer momento, em razão da sífilis, adquirida com o primeiro marido, influenciou sua determinação? Por que, afinal, os humanos sentem tanta curiosidade pelo bizarro? Teria a tal doença desencadeado em Florence uma espécie de distanciamento da realidade?

Além de valorizar a excepcional personagem por trás de Florence, a versão britânica conseguiu reunir um elenco de notáveis. Ao lado da excepcional Meryl Streep, cuja fantástica interpretação posiciona Florence no nível superior dos mitos do cinema, brilham Hugh Grant, como St. Clair Bayfield, um ator medíocre, filho ilegítimo de um aristocrata inglês e marido amoroso de Florence, numa de suas melhores performances no cinema, e Simon Helberg (o Howard da série ‘The Big Bang Theory’), como o hilário e atormentado Cosmé McMoon, o pianista de Florence, numa impagável performance do personagem!

Também merece destaque a perfeita e minuciosa reconstituição de época, retratando a Nova York dos anos 1940, apesar de as filmagens terem ocorrido em Londres e Liverpool. A cena que se passa no famoso Carnegie Hall, por exemplo, foi filmada no Hammersmith Apollo, com cerca de 300 figurantes.

Florence tinha 76 anos quando resolveu se apresentar a um público maior, no famoso e ambicionado Carnegie Hall. Quem viu garante que foi uma apresentação inesquecível. E interminável. Entre uma música e outra havia intervalos enormes para Florence mudar de figurino. Sua roupa com asas, que ela chamava de ‘Angel of Inspiration’, tornou-se um clássico. Conta-se que a atriz Tallulah Bankhead riu tanto que teve que ser retirada do teatro. Um mês depois do concerto, em 26/11/1944, Florence morreu de ataque cardíaco.

Além dos longas recém lançados, a peça de teatro, ‘Gloriosa’, de Peter Quilter (traduzida para 27 idiomas e representada em 40 países, inclusive no Brasil em 2009, protagonizado por Marilia Pera), Florence Foster Jenkins deixou ainda gravadas nove árias de óperas (Mozart, Delibes, Johann Strauss II e Félicien David) e cinco canções escritas para ela por seu pianista Cosmé McMoon, em disco de 78 rotações (Melotone Recording Studio, Nova York, 1941-1944), reeditados em 3 CD nos Estados Unidos.

Florence costumava afirmar que as pessoas podiam dizer que ela não sabia cantar, mas ninguém pode dizer que ela não tinha cantado.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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