Críticas Lucinha no Cinema

Melhores Amigos

Às vezes os pais têm a impressão que seus filhos adolescentes se sentem mais à vontade com os amigos do que com os próprios irmãos ou com a família. Mas esse comportamento não tem nada de anormal. Afinal, numa fase de conhecida baixa autoestima, a necessidade de participar de um grupo, partilhar os mesmos interesses e ser visto como um igual assume a maior importância para aqueles que não se sentem mais crianças, mas ainda não são respeitados como gostariam pela família. Muitas vezes os adolescentes são rejeitados ou reprimidos pela própria sociedade, não só pela franqueza e rebeldia com que defendem seus pontos de vista, como pela inabilidade dos adultos nesse confronto de idéias.

Essa e outras questões estão presentes em “Melhores Amigos” [Little Man], o novo longa-metragem do diretor de cinema norte-americano Ira Sachs (“The Delta”-1997,“Forty Shades of Blue”-2005, premiado com o Grande Prêmio do Júri em Sundance, “Married Life”-2007, “Keep The Lights on”-2012 e “Love is Strange”-2014), conhecido pela defesa, em todos os seus filmes, da temática LGBT, de famílias múltiplas ou fora do convencional e de questões envolvendo imóveis e suas complicações urbanas e sociais.

“Little Man” foi indicado aos prêmios ‘Independent Spirit’ de Melhor Roteiro – para a dupla formada por Ira Sachs e Maurício Zacharias, roteirista brasileiro com quem Sachs já trabalhou nos seus três primeiros filmes – e de Melhor Atriz Coadjuvante para Paulina Garcia – consagrada atriz chilena, conhecida pelo filme “Glória”(2013). Ganhou, ainda, o prêmio ‘Silver Condor’ de Melhor Filme Estrangeiro pela Associação de Críticos da Argentina.

Além do roteirista, o longa-metragem conta com mais dois profissionais brasileiros: Affonso Gonçalves, montador de filmes e Rodrigo Teixeira, produtor de cinema, ambos conhecidos e premiados pela indústria cinematográfica norte-americana.

Com a morte do avô, Jake Jardine (Theo Taplitz), filho único de treze anos, se muda com os pais, Brian (Greg Kinnear) e Kathy Jardine (Jennifer Ehle), para a casa onde ele morava no Brooklyn. Lá conhece Tony Calvelli (Michael Barbieri), da mesma idade, filho de Leonor Calvelli (Paulina Garcia), a costureira chilena que aluga a loja localizada no térreo do imóvel, também de propriedade da família Jardine.

Enquanto o pai de Jake decide discutir a renovação da locação, os dois meninos estreitam os laços de amizade. Alheios aos conflitos latentes no mundo adulto, eles sonham em se matricular em uma prestigiosa escola voltada para o ensino das artes: Fiorello H. LaGuardia High School.

O roteiro traça duas histórias, aparentemente paralelas, cujos desfechos poderão convergir ou não para um final feliz: a descoberta e o fortalecimento da amizade entre dois jovens adolescentes totalmente diferentes – um tímido e pouco afeito a amizades, que se refugia na pintura e no desenho, o outro, extrovertido e disputado nas partidas de futebol, que aspira atuar- e a disputa quanto ao aumento ou não da locação do andar térreo do imóvel.

Na parte superior vive agora Jake e sua família: o pai, Brian, trabalha como ator em ‘teatros off-Broadway’, com pouca ou nenhuma remuneração, o que deixa todas as despesas familiares a cargo da mãe, Kathy, psicoterapeuta. Além disso, a irmã de Brian, Audrey (Talia Balsam), também herdeira do imóvel, cobra veementemente a renovação da locação, com a consequente majoração do aluguel.

No térreo funciona uma loja de roupas femininas, cuja locação, apoiada num contrato verbal em bases nunca atualizadas, se baseava na amizade entre o antigo proprietário, o avô falecido, e a inquilina, imigrante latino-americana, cujo marido trabalha como enfermeiro em um país africano. Na ausência de um apoio masculino, eis que surge Hermán (Alfredo Molina), advogado e amigo de Leonor, que atua como uma espécie de contrapeso no necessário equilíbrio das forças divergentes.

Há, de forma subjacente, uma discussão sobre a valorização ou não da vizinhança em função do comércio ali existente e a necessidade ou não de sua renovação, requalificação ou modernização.

Apesar de parecer, à primeira vista, antipática e inoportuna, a solicitação de aumento do aluguel faria sentido, por tratar-se de um contrato muito antigo, baseado na amizade entre os então  contratantes. Além do mais, ambos as famílias são de classe média, dependentes do trabalho assalariado. Não há, pois, que se falar em vilões e vítimas, mas sim em pessoas que sobrevivem.

Mesmo quem se sente torcendo pela modista, numa possível disputa entre norte-americanos e imigrantes,  fica em uma situação desconfortável pela forma agressiva e indiferente com que Leonor lida com os problemas dos Jardines, especialmente quando expõe a relação, nada afetuosa, entre Brian e seu pai, o antigo proprietário. Consciente ou inconscientemente, os adultos agem como crianças irresponsáveis, sem medir as consequências de suas palavras e ações.

Em certo momento, premidos pelas circunstâncias  e temerosos dos resultados inesperados que poderão advir, os meninos resolvem fazer um alerta, através de uma greve inusitada: ambos ficam calados e não respondem aos pais, alheios aos acontecimentos.

A idéia da greve contra os pais teria sido inspirada, segundo declarações do próprio Sachs, em filmes do aclamado diretor de cinema japonês Yasujirô Ozu, que a teria usado em alguns de seus filmes, entre os quais se destacam “Meninos de Tóquio” (1932) e “Bom Dia” (1959), onde meninos questionam a incoerência e inadequação do comportamento dos pais, assim como ocorre neste filme.

Independentemente do final, o filme suscita muitas discussões, não só em relação aos problemas do que se convencionou chamar de ‘gentrificação’ (do inglês ‘gentrification’, derivada do francês ‘gentry’/’genterise’, ou de origem gentil, nobre) – que se refere ao processo mundial de reestruturação de espaços urbanos degradados – como também em relação ao amadurecimento dos jovens, sujeitos que estão ao curso dos acontecimentos.

Não há como impedir a renovação das cidades ou o processo de amadurecimento dos jovens. A vida tem seu curso forçado, com sofrimento ou não. Adapte-se, enlouqueça ou morra!

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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