Críticas Lucinha no Cinema

Memórias Secretas (Remember)

Essa é a última história que podemos contar sobre o Holocausto com sobreviventes e perpetradores do genocídio ainda vivos. Daqui a uns cinco anos, quando todos estiverem mortos, ‘Memórias secretas’ se tornará um filme de época.’Atom Egoyan

Passados pouco mais de setenta anos do fim da Segunda Grande Guerra Mundial, ainda somos surpreendidos com estórias decorrentes daquela terrível fase da humanidade, como é o caso do novo longa do diretor armênio-canadense Atom Egoyan, ‘Memórias Secretas’. Estamos diante de um impactante drama ficcional, no qual a questão das feridas deixadas pelo nazismo serve, na verdade, como mote para um confronto doloroso de ideologias, numa complexa trama de vingança, enriquecida pelo suspense à la Hitchcock, por conta do criativo e premiado roteiro do estreante Benjamin August.

Atom Egoyan, o diretor de cinema independente de nacionalidade canadense, nascido no Egito de pais armênios, é conhecido por explorar temas da alienação e do isolamento. Também levou às telas as agruras do genocídio armênio com o filme ‘Ararat’ de 2002. Sua maior projeção no meio cinematográfico, no entanto, ocorreu com ‘O Doce Amanhã’, premiado com o Grande Prêmio do Júri e o da Imprensa, além da indicação à Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1997, e considerado um dos dez melhores filmes canadenses de todos os tempos, que ainda lhe rendeu indicações ao Oscar de Melhor Direção e o de Melhor Roteiro Adaptado.

Por conta da brutalidade generalizada da Segunda Guerra, é razoável supor que na memória dos sobreviventes, seus familiares e amigos, os personagens e suas estórias tenham se tornado recordações dolorosas e indeléveis. E são essas lembranças que movem os personagens de ‘Memórias Secretas’, os sobreviventes de Auschwitz, Max Zucker (Martin Landau) e Zev Guttman (Christopher Plummer), moradores em um asilo para idosos em Nova York.

Mesmo com tantos fatos e versões daquele conflito mundial, contados e recontados pelos cineastas desde então, o roteiro de Benjamin August inova, sai do lugar comum, e nos apresenta uma espécie de ‘thriller’, bem diferente dos conhecidos filmes de guerra. Para começo de conversa, não mostra nem os campos de batalha, muito menos os de concentração. Também não exibe o sofrimento imposto aos prisioneiros antes, durante ou depois da guerra, nem as manhas e artimanhas dos espiões ou dos heróis no front.

Quando Max acredita que descobriu a identidade do comandante nazista que torturou e matou as famílias de ambos, um pacto surge entre os idosos e Zev é transformado em justiceiro de um plano para localizar e eliminar o tal comandante, que vive com um nome falso em algum lugar dos EUA.

O fato de ambos serem idosos, na verdade bem idosos, por si só seria motivo suficiente para questionarmos a viabilidade do tal plano. E é essa questão, a vulnerabilidade do protagonista, que cria uma grande empatia com o público. Ocorre que, além disso, Zev sofre de demência, acabou de perder a esposa, tem lapsos de memória e precisa rever, volta e meia, uma carta escrita por Max com as instruções do tal plano. E de Max, nem se fale. Ele está numa cadeira de rodas e precisa, todo o tempo, de um tubo de oxigênio por perto. Pronto! Temos um conflito e tanto. Mãos à obra ou, luz, câmera, ação!

Com esses ingredientes, há quem imagine tratar-se de uma farsa, quiça uma total impossibilidade real. Como seria possível unir um paraplégico, um demente e um plano de vingança? Pois é, ele funciona e fica a cada cena mais interessante. O melhor do roteiro se esconde em cada nova descoberta, não só nas feitas por Zev, como nas nossas próprias, movidos pela angústia de perceber como a falta de memória pode impactar a vida das pessoas. E ali, nos acordes de Mendelssohn, de Wagner ou na trilha sonora do compositor canadense Mychael Danna, parceiro constante de Atom Egoyan, há um confronto de identidades, de valores, de utopias e ideologias.

O destaque do longa é sem dúvida de Christopher Plummer, ator canadense de 86 anos, premiado com o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 2012 por ‘Beginners’ (‘Toda forma de Amor’), além de vários outros prêmios, entre os quais dois ‘Emmys’, dois ‘Tonys’, Globo de Ouro e BAFTA. Sua atuação em ‘Memórias Secretas’ confere verossimilhança ao personagem, tornando crível, na verdade incrível, um nonagenário que busca vingança, e aparenta ser, às vezes frágil, outras agressivo, incrédulo, inseguro, em suma, perfeitamente humano, consideradas as condições atuais e as pregressas do personagem.

O passado e as memórias ou a falta delas são mais fortes que o presente e a realidade que se impõe? O roteiro tem muitas surpresas, algumas reviravoltas e dois grandes trunfos: a dualidade dos personagens e um final ao estilo Shakespeariano, sem heróis. Todos se equiparam na hora da vingança.

O título no original, ‘Remember’, e que sugere lembrar, ou lembrar-se, numa tradução literal, serve tanto para Zev, seus familiares, amigos e companheiros do asilo, como para qualquer um que se identifique com as memórias daquele período sombrio. Somente um alienado teria possibilidade de confrontar e ser confrontado numa situação limite, trazendo à tona questões ultrapassadas mas não esquecidas.

‘A memória é a consciência inserida no tempo’ Fernando Pessoa

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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