Críticas Lucinha no Cinema

Monsieur & Madame Adelman

Talvez a melhor palavra para definir um casamento duradouro seja perseverança. E quando essa qualidade – tão incomum aos seres humanos – é compartilhado pelo casal, então fica mais fácil, sem dúvida, manter um relacionamento. Mas, seria isso suficiente? E quando surgirem ciúmes, traições ou as ambições não convergirem para a mesma direção e o amor ficar reduzido ao mínimo máximo comum?

Será possível encontrar um casamento durável sem confiança, respeito mútuo  e, certamente, sexo? E como fazer para conciliar personalidades fortes e, às vezes, conflitantes? O sucesso ou o fracasso profissional dos parceiros tem influência na manutenção do casamento? E quanto aos filhos, a descoberta de problemas de saúde pode separar ou unir mais o casal? Vale  a pena manter um relacionamento ruim por causa dos filhos?

Aliás, por que mesmo as pessoas se casam, hein? Pensando bem, com tantas traições e separações, como é possível que a instituição do casamento se mantenha firme e forte? Dar visibilidade ao relacionamento, buscar estabilidade financeira e formar uma família, com filhos e sexo, aparentemente seguro e estável, serão argumentos suficientes para duas pessoas abrirem mão da sua liberdade e autodeterminação?

Essas e muitas outras questões estão presentes em “Monsieur & Madame Adelman” [“Mr & Mme Adelman”], o primeiro longa-metragem de Nicolas Bedos, cenógrafo, dramaturgo, cronista, ator, humorista, roteirista e diretor de teatro e de cinema francês, conhecido pelo roteiro de “Les Infidèles” e pela atuação em alguns filmes franceses, entre os quais “L’Art de la fugue” e “Amour et Turbulence”.

Pelo roteiro do próprio casal de protagonistas, Sarah (Doria Tillier) e Victor (Nicolas Bedos) – os tais Mr & Mme Adelman do título – estiveram juntos por mais de 45 anos. No funeral dele, Sarah é abordada por um jornalista (Antoine Gouy) que deseja contar a história de seu marido, um renomado escritor, a partir do olhar da mulher que sempre o acompanhou. Ela se empolga com a possibilidade de contar a sua versão da vida de Mr Adelman e passa a contar, em minúcias reveladoras, o tumultuado relacionamento que tiveram, incluindo segredos bastante íntimos.

Mas quem se sobressai de verdade nessa história de amor, ciúmes, traições, ambições e segredos é a própria Sarah Adelman, uma jovem professora de letras, que se descobre apaixonada por Victor de Richemont, um pretendente a escritor, ainda totalmente desconhecido. Ele reluta, sua família aristocrática faz pouco do romance, mas Sarah, mulher de personalidade forte, não descansará enquanto não conseguir o que pretende.

Quem realmente era essa mulher enigmática vivendo à sombra de seu marido? Por que Victor resolveu adotar o nome da família judia da mulher? Como Sarah e Victor fizeram para se aguentar por tantos anos, ainda mais sabendo-se da grande insegurança de Victor? E, como saber se tudo aquilo aconteceu de verdade, se estamos sabendo dos fatos pela versão da viúva, quiçá distorcida pela memória rancorosa das frustrações vividas ao lado daquele eminente escritor?

Nicolas Bedos e Dora Tillier são um casal também na vida real. E no filme fazem de tudo e mais um pouco. Além de protagonistas, são responsáveis pelo roteiro e ele, além da direção, ainda compôs parte da trilha sonora, numa eloquente, incrível e imperdível comédia dramática, dividida em 14 capítulos, com direito a divertido prólogo e inesperado epílogo.

Os diálogos são ácidos, inteligentes e se mostram muito mais eficazes pela atuação precisa de Doria Tillier e Nicolas Bedos, ambos em sua primeira versão protagonista. Mas o sucesso do filme acontece por muitos outros quesitos, com destaque para a trilha sonora – memorável e eficiente na recriação daqueles tempos – e para a maquiagem, igualmente bem sucedida na perfeita demonstração da passagem do tempo.

Nicolas Bedos é conhecido na França por sua criatividade e sua enorme habilidade de polemizar, razão pela qual seria uma espécie de ‘enfant  terrible’ no meio artístico. Como seus personagens Victor e Sarah, teria tido grandes dificuldades de adaptação na juventude, quando foi acometido por grave crise de depressão e tentativa de suicídio, causada provavelmente pelas drogas. Talvez isso explique as tentativas de Victor de se ancorar em seu psicanalista, em cujas sessões – muitas vezes hilárias e em outras, totalmente inoportunas  – temos a chance de conhecê-lo melhor.

Mas o roteiro tem muito mais do que a vida conjugal apimentada de Victor e Sarah deixam transparecer. Certamente não poderiam faltar o humor e a ironia contundentes numa família judaica como a de Sarah, nem as críticas à burguesia e aos ditos ‘escritores de direita’ numa época conhecida pela contracultura, pela rebeldia nas artes e nos costumes.

Talvez mais do que uma história de amor do início  ao fim, “Mr & Mme Andelman” revele a força e a influência de uma mulher no comando de um relacionamento, antes mesmo do ‘sim’ no altar e até muito depois que a morte os separe.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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