Críticas Lucinha no Cinema

Mundos Opostos

(WORLDS APART / Enas Allos Kosmos) por Lúcia Sivolella Windling

“Pois bem, no princípio nasceu Caos; depois Gaia de amplo seio, a eterna base de tudo.”Hesíodo, Teogonia.

Com a mitologia grega, o universo torna-se compreensível e a origem do mundo pode ser explicada a qualquer criança. Mas os deuses gregos não eram, em sua totalidade ou todo o tempo, obedientes aos seus criadores e muitas das adversidades humanas também são explicadas pelas desobediências divinas.

Embora poderosos, com habilidades fantásticas – os deuses gregos eram essencialmente humanos, tinham grandezas e fraquezas como todos os mortais: praticavam violência, possuíam ciúme, cólera, ódio e inveja.

Segundo a mitologia grega, havia uma era de transição em que os deuses e os homens se misturaram livremente. Esses contos (chamados ‘contos de castigo’ e ‘contos de amor’) sugerem que as relações entre deuses e mortais deveriam ser evitadas, pois raramente resultariam em finais felizes.

Mesclar mitologia grega e estórias contemporâneas parece uma ousadia divina sem precedentes, sujeita a sérias consequências. Mas se lembrarmos que os gregos usavam o mito para explicar fenômenos naturais e as idiossincrasias humanas, há toda uma lógica nessa apropriação.

E não há melhor cenário para tal apropriação que a Grécia, onde Christoforos Papakaliatis, diretor, roteirista e ator grego lançou MUNDOS OPOSTOS’- ‘WORLDS APART’ [Enas Allos Kosmos], longa-metragem através do qual nos fala de crises econômicas, imigrações ilegais, xenofobia, mitologia grega e romances, em estórias entrelaçadas, contadas por personagens carismáticos, com forte apelo popular.

O roteiro, do próprio diretor, nos mostra uma Grécia assolada pela terrível crise socioeconômica, mas ainda conectada aos seus deuses e às suas tradições. E numa bem articulada metáfora da globalização, temos drama, ação e suspense, entremeados por três romances, aparentemente proibidos ou não bem vistos, a depender do viés ideológico de quem olha. Na mitologia também havia romances e casamentos proibidos. Culpa de Eros, o deus do amor, filho de Caos com Afrodite, um caçador terrível, astucioso, sempre armando intrigas.

O primeiro romance surge quando a universitária grega Daphne (Niki Vakali) é salva de um estupro pelo imigrante ilegal sírio Farris (Tawfeek Barhom), por quem acaba se apaixonando.

No segundo, o executivo grego Giorgios (o próprio diretor Christopher Papakaliatis) encara grandes mudanças na empresa em que trabalha, ao mesmo tempo em que se envolve mais do que o esperado com a consultora sueca Elise (Andrea Osvárt), enviada para reduzir os custos e preparar a empresa para o futuro.

E no terceiro e último romance, temos o historiador alemão Sebastian (J.K. Simmons), tentando se comunicar com a dona de casa grega Maria (Maria Kavoyianni), usando um supermercado como ponto de encontro de um romance quase juvenil, mesmo tendo ambos já entrado na maturidade.

Nos últimos tempos a Grécia vem experimentando sérias dificuldades econômicas, notadamente por conta dos elevados gastos públicos, da crescente evasão de impostos, aliados a sérias dificuldades para aprovar medidas de austeridade que reduzam o crescente déficit público.

Como em muitos dos países que passam por problemas semelhantes, os sindicatos e alguns cidadãos mais atingidos pelas reformas creditam a crise a forças externas, notadamente aos especuladores e banqueiros internacionais ou, mais especificadamente, à globalização.

Apesar do termo globalização parecer atual, vários estudiosos já perceberam que as sociedades estão em um constante, contínuo e ininterrupto processo de globalização, desde o início da história da humanidade.

É certo que esse processo sofreu aceleração ao longo do história, como, por exemplo, na época dos grandes descobrimentos marítimos dos séculos XV e XVI, ou depois das duas grandes guerras mundiais e do colapso da União Soviética, no período de maior efervescência desse processo, e mais recentemente, com a evolução e redução dos custos dos meios de transporte e comunicação.

Como em todas as questões controversas, há os contra e os a favor. Há quem alegue que a globalização cria instabilidade econômica e que há falta de controles. Na posição oposta, que ela facilita a propagação das inovações, assim como o acesso fácil e rápido às informações e aos bens gerados em qualquer lugar do planeta.

O filme não pretende esgotar a discussão das questões ali tratadas. Na verdade, não é a favor nem contra a tal da globalização. Mas, certamente que não poderia deixar de mostrar os efeitos das imigrações ilegais, da xenofobia ou do choque cultural entre nativos e imigrantes, tudo embalado pela mitologia e religião gregas. E parece que os deuses ainda estão no comando. Mas, para quem precisa crer, sonhar e ter esperança, uma ajudinha divina vem bem a calhar.

Queiramos ou não, o mundo está no centro de uma complicada teia de conexões e todos nós, pobres mortais, sofremos influência uns dos outros, estejamos próximos ou em diferentes continentes.

Lamentável que, muitas vezes, o viés preconceituoso predomine e alguns imigrantes sejam considerados mais ilegais que outros. Uma luz na escuridão percebida por Papakaliatis: o Canadá. Quem se aventura?

“Para mim, quando os deuses realizam maravilhas, nada parece inacreditável.” – Píndaro

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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