Críticas Lucinha no Cinema

Nahid – Amor e liberdade

Quando falamos de casamentos, a maioria das pessoas pensa imediatamente em união duradoura, amor, interesse e fidelidade recíprocas. Outras, no entanto, imaginam o casamento como uma prisão, na qual os parceiros estão cerceados em sua liberdade, literalmente algemados um ao outro, como faz parecer a simbologia da troca de alianças.

Daí para as separações, qualquer desavença pode ser levada em conta. E eis que ressurge a liberdade antes tolhida. Essa poderia ser a realidade de alguns países ocidentais, notadamente daqueles onde a religião predominante é o cristianismo. Mas, a situação pode ficar muito mais difícil para as mulheres após o divórcio, especialmente por conta de países não laicos, como é o caso daqueles sujeitos às leis islâmicas.

E esse é o caso de ‘Nahid – Amor e Liberdade’, filme da jovem diretora iraniana Ida Panahandeh (The Story of Davood and The Dove), primeira mulher iraniana a concorrer e vencer a mostra ‘Um Certo Olhar’, no Festival de Cannes de 2015. O longa nos mostra Nahid (Sareh Bayat), jovem divorciada, que vive com o filho de 10 anos em uma pequena cidade à beira do Mar Cáspio.

Segundo a lei iraniana, em casos de separação, a guarda do filho é concedida ao pai. Mas, nesse caso, ele aceitou cedê-la à ex-esposa na condição dela não se casar novamente. Porém, Nahid acaba encontrando uma nova paixão e sua vida vai mudar completamente como mãe e mulher.

Como em muitos dos filmes iranianos de que temos notícia, este também aborda a falta de liberdade e as péssimas condições das mulheres na sociedade islâmica. O roteiro, da própria diretora, se fixa fortemente no duelo feminismo versus machismo, com todas as nuances que a questão do divórcio permite. Mas, o que chama realmente a nossa atenção é a existência de um casamento temporário, usado como uma espécie de solução num cenário totalmente desfavorável à protagonista.

A religião islâmica permite que os homens se casem com até quatro mulheres ao mesmo tempo. Entre os xiitas há, ainda, o casamento temporário, o ‘mutah’, que pode durar minutos ou anos, com uma ou várias mulheres simultaneamente, com a ressalva de que estas sejam viúvas ou divorciadas.

Além de permitir a satisfação de homens casados, esse tipo de casamento possibilita que jovens, sem idade ou meios de se casar, possam ter suas necessidades sexuais atendidas, longe das complicações religiosas ou financeiras.

Há, no entanto, quem considere o casamento temporário, também conhecido pelos sunitas como ‘casamento do viajante’ ou ‘misyar’, uma forma de prostituição ou socialmente defeituoso. Há sérias controvérsias entre os a favor e os contra, não obstante tal tipo de união ser permitido desde tempos imemoriais.

O divórcio, assim como o casamento iraniano, são determinados pelos homens, que podem exercer o direito de repúdio das esposas de acordo com as diretrizes da lei islâmica. As mulheres somente eram autorizadas a deixar seus maridos por motivos estritamente definidos como insanidade ou impotência.

Modernamente, em função dos dotes de alto valor, dos adultérios, dos abusos físicos, dos problemas econômicos e suas consequências, como o aumento do custo de vida e do desemprego, assim como da dependência das drogas e principalmente da emancipação feminina, as mulheres têm tido maior liberdade de solicitar e ficar livres de casamentos mal sucedidos.

A personagem vivida em grande atuação de Sareh Bayat [vencedora do ‘Urso de Ouro’ em Berlim, por sua participação em ‘A separação’, de Asghar Farhadi] não tem uma personalidade linear ou racionalmente entendida como tal.

Ela vacila, mente, se enrola nas situações. Chega a perder a empatia com a platéia, tal sua fuga da realidade. Às vezes se tem a impressão de que a liberdade alcançada com o divórcio ainda não foi exatamente entendida.

Nahid ora parece uma adolescente imatura, que não sabe o que quer, ora uma mulher à beira de um ataque de nervos, sem noção dos seus deveres de mãe e de profissional que precisa trabalhar para manter seu mais precioso bem, sua liberdade. Poderia ser uma mulher infeliz em qualquer lugar. Mas, ser uma mulher divorciada no Irã torna tudo muito mais difícil.

Interessante perceber que o ex-marido é um perfeito cafajeste, viciado em heroína, jogador inveterado, desempregado. Mas quem tem a moral prejudicada e a liberdade cerceada é a ex-mulher, mal vista pelos parentes, pelos vizinhos, pela sociedade cercada de preconceitos.

Há que se render elogios ao filme, não só pela coragem do elenco, especialmente de Sareh Bayat em expor mais uma faceta de um regime totalitário e especialmente prejudicial às mulheres como é o caso do iraniano, como pela visão libertária, feminina e feminista de Ida Panahandeh, uma mulher à frente de seu tempo.

Nahid – Amor e liberdade
Nahid – Amor e liberdade
Nahid – Amor e liberdade
Nahid – Amor e liberdade

FICHA TÉCNICA:
Título: Nahid – Amor e liberdade
Direção: Ida Panahandeh
Roteiro: Ida Panahandeh
Gêneros: Drama
Nacionalidade: Irã
Ano de Lançamento:28 de julho de 2016 (1h 44min)
Produção: Bijan Emkanian
Distribuidor Brasileiro (Lançamento): Fênix Filmes

ELENCO:
Sareh Bayat … Personagem: Nahid
Pejman Bazeghi … Personagem: Masoud
Navid Mohammadzadeh … Personagem: Ahamd
Milad HasanPour … Personagem: Amir Reza

Comentários

Print this entry

Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

Obrigado por visitar o nosso site.

Facebook
%d blogueiros gostam disto: