Críticas Lucinha no Cinema

Negócio das Arábias

‘A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.’
(Carlos Drummond de Andrade)

Qual a sua razão de viver? O que lhe motiva, dia após dia, a se levantar da cama, sair para trabalhar e voltar para casa? E repetir, tudo de novo, do mesmo jeito, no dia seguinte, no seguinte e nos próximos dias, pelo resto da sua vida? Quem ou o que impulsiona sua força de vontade? Você é movido por dinheiro ou por altruísmo? Aliás, você seria capaz de qualquer coisa por dinheiro?

Em pesquisas nas empresas, perguntado o que era mais importante, se aumentos salariais ou reconhecimento profissional, os empregados respondiam pelo segundo. Ou seja, aquilo que não se vê, mas se sente, ali escondido no fundo da sua alma, se sobressai, mesmo que, no final, para se livrar da depressão, do que advém das escolhas equivocadas, você tenha que pagar, e muito, ao seu analista.

E você, conhece alguém que abandonou tudo, que literalmente ‘chutou o balde’ e resolveu assumir outro papel no roteiro da sua própria existência? Pois foi o que o protagonista da comédia dramática ‘Negócio das Arábias’ decidiu fazer, quando tudo à sua volta parecia desmoronar.

Alan Clay (Tom Hanks) é um executivo norte-americano à beira da falência: perdeu a casa, o carro e até a esposa dedicada que, aparentemente, não aguentou a pressão de viver sem dinheiro para pagar as contas. Determinado a dar uma reviravolta em sua vida, encontra um meio de não se render à depressão. Mete-se num avião rumo à Arábia Saudita, o novo país das oportunidades, onde pretende vender uma idéia inesperada ao próprio chefe de Estado daquele país: um sistema holográfico tridimensional passível de ser usado em videoconferência, daí o título original do longa em inglês: um holograma para o Rei.

Apesar das dificuldades e do inevitável choque cultural, que quase o leva ao desespero, é ali que Alan vai encontrar a oportunidade de se reerguer e de se sentir novamente pronto a enfrentar o mundo. Com direção e roteiro do alemão Tom Tykwer (“Corra, Lola, Corra”, “O Paraíso”, “A viagem” e “Perfume – A história de um assassino”), o longa, indicado ao Prêmio do Cinema Alemão de Melhor Filme de 2016, é uma adaptação da obra homônima do escritor americano Dave Eggers, editada em 2012, e por conta da qual o diretor se reencontra com o premiado ator americano, com quem já havia trabalhado em ‘A viagem’.

Além de Tom Hanks, numa atuação mais do que convincente, entre o americano comum e o mais destemido dos forasteiros, uma breve e bem-humorada lembrança do caixeiro-viajante presente em muitas estórias do cinema americano, o filme conta com uma ligeira mas contundente participação do ator americano Tom Skerritt, como o pai-patrão-algoz de Alan, com a beleza exótica da atriz britânica Sarita Choudhury (da série ‘Homeland’) que, encarnando a médica Zahara, descortina para Alan um oásis num deserto insólito, coalhado de personagens bizarros, como o faz-tudo-motorista-guia turístico Yousef (Alexander Black), contraponto bem-humorado entre os milhares de sauditas em seus ‘djellabas’, transitando entre as ‘adhan’, as famosas cinco chamadas às orações, e as terríveis execuções junto a essas mesmas mesquitas, entre as quais se sobressai a ‘Masjid al-Haram’, em Meca, objeto de uma pitoresca cena do filme.

Na próspera cidade de Jeddah, longe da complicada realidade da recessão que então assolava os Estados Unidos, Alan realiza uma última e desesperada tentativa de evitar a falência completa, pagar a caríssima faculdade da filha e, talvez, realizar algo de bom e surpreendente em sua vida. Nesse futuro improvável, ele irá se deparar com uma estranha e fascinante galeria de forasteiros, vindos do mundo inteiro para cumprir todo tipo de ambições, como se convergissem para lá aspectos de uma realidade que ninguém pensa em viver, mas acaba por construir, por total falta de opção. É nesse espelho quebrado de nacionalidades e aspirações que Alan tentará juntar os cacos de sua própria vida e recriar sua existência, e quem sabe, recobrar sua honra.

Não espere uma profunda reflexão acerca das idiossincrasias dos locais, muito menos uma desculpa esfarrapada dos esteriótipos do mundo ocidental em relação ao oriental. Num momento marcado pelo fechamento de fronteiras, com centenas de muros reais e imaginários sendo erguidos entre os homens, o olhar crítico do estrangeiro está presente. Certamente que está. Mas, o de fora, aquele que normalmente lança o olhar crítico, com sua contundente visão hegemônica, agora precisa ser acolhido. E, felizmente, apesar de todos os clichês ali presentes, o longa não cai na armadilha da guerra religiosa, muito menos na crítica fácil ao processo de globalização, como se fosse possível transitar pelas diversas economias, auferir todas as vantagens da modernidade, sem pagar o custo do pedágio, aquele lembrete de que não há almoço grátis.

Numa das cenas visualmente mais deslumbrantes, por conta de um inesperado mergulho no mar Vermelho, Alan se depara com uma exótica pintura, retratando uma paisagem idílica dos Alpes suíços, pendurada no meio de uma imensa janela sobre o mar, como que rompendo a mansidão do azul marinho exterior. E a própria personagem da médica árabe dá a deixa, lembrando que as pessoas nunca estão satisfeitas com o que têm, numa alusão a uma das mensagens sub-reptícias do longa. Alguns querem sempre o melhor dos mundos. Estão num lugar, mas gostariam de estar em outro.

‘Em nossas vidas, a mudança é inevitável. A perda é inevitável. A felicidade reside na nossa adaptabilidade em sobreviver a tudo de ruim.’ (Buda)

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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