Críticas Lucinha no Cinema

Neve Negra

A natureza pode ser maravilhosa, deslumbrante, aparentemente perfeita. Mas ela também pode ser difícil, cruel, imprevisível. E isso sempre perturbou o ser humano. Não só pela constatação de que o mundo natural é mutável, como pelo absoluto descontrole sobre essas transformações. E se tem uma coisa perturbadora na natureza, uma força totalmente incontrolável, que chega com o inverno e se apresenta devastadora em algumas regiões, esse fenômeno se chama neve.

Já ouvi histórias estranhas, engraçadas e até dramáticas, dos que vivem em lugares com gelo e neve. As crianças, por exemplo, logo que começam a andar, aprendem que não podem colocar a língua em nada gelado nem metálico, pois a pele vai ficar grudada. As pessoas precisam usar roupas adequadas às baixas temperaturas. Os carros devem ser equipados para não derrapar no gelo. Os encanamentos precisam ser aquecidos para não congelar com a água ou explodir com o gás. Muitas vezes as pessoas nem podem sair de casa por conta das nevascas. Isso sem contar com as consequências da falta do sol sobre o organismo ou com a depressão que pode surgir por conta do confinamento em regiões isoladas.

Muitos roteiristas de cinema adoram criar histórias fantásticas em lugares com neve, paisagens desoladoramente brancas e propícias a acidentes e, às vezes, a crimes. Lembro, assim de pronto, de “Fargo” e “O Iluminado”, com histórias onde a neve, o frio e o contínuo isolamento causam sérios problemas mentais, tornando os personagens mais afetados, agressivos e perigosos. Além disso, a própria imprevisibilidade do tempo aumenta a tensão e a dramaticidade dos eventos.

“Minha primeira idéia foi um filme invernal, em que a neve fosse personagem. O restante veio vindo naturalmente – poucos personagens, conflitos familiares, segredos escuros. Qual família não tem esqueletos no armário?”

Esse depoimento foi feito por Martin Hodara, roteirista, diretor e produtor argentino, responsável por “Neve Negra” [Nieve Negra], misto de drama, mistério e suspense que, em menos de seis meses, já levou mais de 700 mil ao cinema. Esse é também o segundo longa-metragem de Hodara (“O Sinal”), que demorou mais de seis anos para concluir as filmagens – em função das agendas dos atores, da falta de dinheiro e, por fim, da falta de neve na primeira locação – depois de obter a garantia de que Ricardo Darín e Leonardo Sbaraglia, astros de primeira grandeza na Argentina, trabalhariam no filme. Ambos foram seduzidos pelo conflito familiar, com altas doses de suspense e tensão pairando no ambiente gelado da Patagônia Argentina.

No roteiro de Martin Hodara e Leonel D’Agostino, Salvador Sabaté (Ricardo Darín) vive isolado do mundo, numa cabana rústica nas colinas geladas da Patagônia. Sozinho há décadas, ele recebe a inesperada visita do irmão Marcos (Leonardo Sbaraglia) e da cunhada grávida Laura (Laia Costa). O objetivo deles é fazer com que Salvador aceite vender sua parte, nas terras que os irmãos receberam de herança, depois da morte recente do pai (Andrés Herrera). Mas Salvador não está nem um pouco disposto a sair dali.

O filme tem algumas pequenas inconsistências, mas também idéias brilhantes. Não há, por exemplo, um protagonista, porém vários, que se sucedem conforme as circunstâncias. E que tal embaralhar o tempo, fazendo o passado conviver com o presente, como se ele tivesse sido congelado, tal qual o tempo no exterior da cabana. Os flashbacks são geniais, confundindo e explicando ao mesmo tempo, além de propiciar a participação de ótimos atores nos personagens jovens, entre os quais se destacam Iván Luengo (Juan), Mikel Iglesias (Salvador), Biel Montoro (Marcos) e Liah O’Prey (Sabrina), cujas aparições soam como um corte na linha do tempo, sem edição ou mudança de cenário. Genial e perturbador!

O elenco excepcional conta, ainda, com pequenas, porém importantes participações de Federico Luppi (Sepia, advogado e amigo da família) e de Dolores Fonzi (a irmã Sabrina, na fase adulta). Mas o melhor de tudo está no cenário, no inverno inclemente, nos sons ambientais assustadores, na trilha sonora e nas locações (Patagônia Argentina e Andorra, nos Pireneus), sem esquecer da iluminação quase inexistente, propiciando um ambiente lúgubre, fantasmagórico. Todos esses elementos mostraram-se fundamentais para criar e aumentar o clima de suspense e isolamento dos personagens.

Como assinala Hodara – se existe um problema no roteiro, esse problema é descobrir quem é o menos mau nessa história. Como em muitas famílias disfuncionais, há manipulação, frieza, falta de remorsos e impulsividade, em relacionamentos superficiais, onde os interesses estão além da afetividade que costuma unir irmãos. Nada ou ninguém é o que parece. Carrascos podem ser vítimas e vice-versa.

Segredos de família são como cicatrizes: estão ali, quase invisíveis, escondidos, mas sempre nos lembrando do passado, de tragédias, reativando amarguras, ressentimentos, vinganças.

Você é capaz de guardar um segredo? Para dizer a verdade, talvez seja melhor nem saber dele. Se isso for possível, é claro. Segredos de família são como conflitos que perpassam o tempo. Só existem quando o que revelam não é bom. Infelizmente.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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