Críticas Lucinha no Cinema

Norman: Confie em mim

Experimente saber o que um desconhecido pensa a respeito de política. Provavelmente, dirá que não gosta, não quer saber e tem raiva de quem sabe. Talvez diga também que nada entende de política e que todos os políticos são corruptos. Mas, não pense que esse panorama se restringe ao Brasil. A crise de valores na política é mundial, certamente não é recente, mas surpreende pelas cifras atualmente divulgadas e pelo rastro de problemas que permanecem depois da descoberta das falcatruas.

Teoricamente, não há profissão mais nobre que a política, pois quem a exerce assume responsabilidades incompatíveis com a imoralidade ou a incompetência. Considerando, ainda, o grau de influência sobre a vida das pessoas, a política pode ser considerada a mais importante atividade do homem em sociedade, especialmente pelos danos ou benefícios que pode causar.

Em termos práticos, no entanto, a atividade política está essencialmente vinculada à conquista e manutenção do poder. E, como há posições e pensamentos discordantes entre os vários grupos sociais, surge, como inequívoca, a finalidade do político – depois de alcançar o poder – adquirir o monopólio da força. Isso não significa, necessariamente, que o poder será exercido pela força, mas que os demais saibam que ele a detém.

E eis que surge a questão da ética ou, melhor dizendo, da ética da responsabilidade, que leva em consideração as consequências das decisões que o político vai tomar – antes de assumir, durante o mandato e depois que deixar o poder.

Política e ética, razões de Estado e relações de conflito, vaidade e glória, tirania e mentiras úteis: esses são os atributos dos personagens do longa-metragem “Norman: Confie em Mim” [Norman: The Moderate Rise and Tragic Fall of a New York Fixer], drama dirigido e escrito pelo norte-americano de nacionalidade israelense Joseph Cedar – premiado no Festival de Berlin pela direção de ‘Beaufort’ (2007) e pelo roteiro de ‘Campfire’ (2004), e em Cannes pelo roteiro de ‘Footnote’ (2011), além de ter dirigido dois filme indicados por Israel ao Oscar de melhor filme estrangeiro (‘Footnote’ e ‘Beaufort’).

Nesta inusitada comédia dramática, num misto de ficção e realidade, Norman Oppenheimer (Richard Gere) tem uma solitária vida às margens do poder e do dinheiro de Nova Iorque – um improvável operador sonhando sobre esquemas financeiros que nunca se tornam realidade. Sempre na busca de alguém disposto a prestar atenção nele, Norman faz amizade com Micha Eshel (Lior Ashkenazi), um carismático político israelense em início de carreira. Três anos depois, Eshel torna-se um influente líder mundial, transformando drasticamente a vida de Norman, tanto para o bem, quanto para o mal.

Apesar de Joseph Cedar ter nascido em Nova York, foi educado em Israel, para onde se mudou aos seis anos de idade. Hoje se divide entre os Estados Unidos e Israel, onde já foi considerado um judeu ortodoxo, cujas opiniões nem sempre são bem aceitas pelos locais. Depois de cursar filosofia e história do teatro em Jerusalém e cinema na Universidade de Nova York, foi em Israel que ele se sentiu mais à vontade para escrever e dirigir seus quatro primeiros filmes, conhecidos por abordar temas delicados da sociedade israelense, retratando o verdadeiro espírito dos judeus dentro e fora de Israel. “Norman” é seu primeiro filme falado em inglês, com filmagens realizados no inverno nova-iorquino e em Jerusalém.

Depois de conhecer a história do banqueiro judeu Joseph Suess Oppenheimer – patrocinador e conselheiro financeiro de Karl Alexander, Duque de Württemberg, na Alemanha do século XVIII, preso e executado após a morte de seu protetor – retratado no filme “The Jew Suess” (1940) do alemão Veit Harlan (1899-1964) – que se tornou a maior propaganda nazista de Joseph Goebbels – Cedar resolveu criar um personagem como Norman Oppenheimer: alguém que não é exatamente uma má pessoa, mas cujos atos se situam numa espécie de zona cinzenta da moralidade.

Uma das cenas mais icônicas de “Norman” retrata um político israelense, em visita oficial a Nova York, recebendo um caríssimo sapato de presente de um estranho que ele acabara de conhecer. Esse encontro e suas consequências – à primeira vista aparentemente inofensivas – assombrarão o tal político e aqueles que estão à sua volta até o fim dessa extraordinária, mas talvez não tão incomum,  história.

Qual seria o limite entre o certo e o errado, o plausível e o inconveniente, nas relações entre políticos e pessoas de fora do seu círculo profissional? Quando deve soar o aviso de perigo nos relacionamentos profissionais que se tornam pessoais, a ponto de se criarem situações inadequadas para pessoas em funções públicas? Os fins justificam os meios? O valor insignificante de uma espécie de ‘presente’ pode tornar lícito um ato criminoso? Encontros entre políticos e ‘facilitadores’ podem ser vistos como meras oportunidades profissionais, casos fortuitos, ou deveriam ser evitados, pois espalham dúvidas e levantam suspeitas de comportamentos antiético?

De alguma forma, “Norman” é uma história de amizade entre judeus americanos e israelenses, diz o próprio Cedar. E esse envolvimento ultrapassa a produção, pois o elenco inclui atores de origens judaicas, consagrados em um e no outro país – como Steve Buscemi, Charlotte Gainsbourg, Dan Stevens, Michael Sheen, Josh Charles, Harris Yulin, além do icônico Richard Gere e de Lior Ashkenazi, ator israelense presente em vários de seus filmes – em tipos esquematizados e estereotipados, para tornar plausível uma teia de interesses e relações controvertidas, enredadas por Norman na realização de seus sonhos de grandeza.

A atuação do elenco é excepcional, mas o personagem de Gere – o arquétipo do mitômano,  vaidoso, ambicioso e solitário – não deixa dúvidas sobre o foco do roteiro: fixar-se em alguém que todos conhecem, insinuante, por vezes necessário, mas sobre quem nada sabem, ou não querem saber. E, aproveitando-se do muito que já se falou a respeito – o senso de uma herança comum – com a questão da identidade judaica, neste caso, poder-se-ia evitar questionamentos sobre comportamentos inadequados ou suspeitos. A conferir.

Curiosamente, o título do filme seria ‘Oppenheimer Strategies’, que talvez valorizasse mais o lado das artimanhas financeiras e menos o lado humano, dos relacionamentos reais e imaginários deste fantástico, irônico e nada glamuroso anti-herói americano. Melhor assim.

“Os homens são bons de um modo apenas, porém são maus de muitos modos.” Aristóteles

Comentários

Print this entry

Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

Obrigado por visitar o nosso site.

Facebook
%d blogueiros gostam disto: