Críticas Lucinha no Cinema

O Apartamento

por Lucia Sivolella Wendling*

Imagine a seguinte situação: sua mulher foi surpreendida no banho por um estranho, que entrou na sua casa, depois que ela deixou a porta entreaberta, certa de que você havia acabado de chegar. Após o confronto, o estranho foge, antes que alguém o veja. Você chega e encontra sangue e cacos de vidro espalhados pelo chão do banheiro. Procura por sua mulher, mas ela não está em casa. O que você faria?

Enfrentar situações como essa parece difícil em qualquer lugar, mas em uma sociedade islâmica, onde não há separação entre religião e estado, o incidente assume um aspecto muito mais temerário, principalmente porque será vinculado à questão da honra ou, melhor dizendo, da desonra da família, e isso pode se tornar um fardo insuportável para os envolvidos.

Esse é o argumento do filme ‘O Apartamento’ [‘The Salesman’/’Forushande’], drama com direção e roteiro do cineasta iraniano Asghar Fahadi, conhecido por ‘A Separação’, longa-metragem que ganhou 78 prêmios internacionais, incluindo o Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro de 2012.

Emad (Shahab Hosseini) e Rana (Taraneh Alidoosti) são casados e encenam a montagem da peça teatral “A Morte do Caixeiro Viajante”, de Arthur Miller. Um dia, são surpreendidos com um alerta para abandonar o prédio onde vivem, que corre o risco de desabamento devido a uma obra próxima.

O casal passa a morar num apartamento emprestado por um amigo, onde Rana é surpreendida pelo estranho no banheiro. O susto faz com que ela se machuque seriamente e procure um hospital. O tal estranho teria ligações com a inquilina anterior, mas o incidente mudará drasticamente a vida do jovem casal.

O conceito de honra costuma ser associado à excelência moral ou ética e é percebido pela conduta virtuosa ou integridade pessoal de quem se fala. Outros a relacionam com reputação e fama, como consequência de poder. Mas quando diz respeito a mulheres, honra pode ser sinônimo de castidade ou fidelidade, a depender do estado civil da mulher.

Na maioria dos países do ocidente, essa associação poderia afrontar o livre exercício da sexualidade da mulher, mas em muitos outros, em especial os do oriente médio, onde a religião parece confundir a vida privada com a pública, a questão da honra extrapola o ambiente familiar, impondo comportamentos derivados da tradição, dos costumes e dos textos religiosos.

Nesses estados teocráticos, certos comportamentos, mesmo aqueles considerados ilegais, seriam justificados pela honra da família. Não há fidelidade ao governo ou a um código legal. Neles impera a cultura da honra, onde superar uma vergonha também faz parte do conceito de justiça.

No caso do Irã, em especial, onde as punições do estado são dadas pela ‘charia’, o direito islâmico baseado no Alcorão, não há separação entre religião e direito. Tudo é regido pelos preceitos tradicionais islâmicos, pelos costumes locais ou, na dúvida, pela opinião de líderes religiosos.

Talvez essa estrutura legal, com irrestrita obediência aos preceitos e costumes locais, nos ajude a entender os conflitos presentes no roteiro. É certo, no entanto, que a perda da honra, ou daquilo que ela representa, orienta o comportamento dos personagens. Tanto na escola onde leciona, como no teatro onde encena a peça com a mulher e os demais colegas de ofício, o sentimento de vergonha e o desejo de vingança dominam os sentimentos e as ações de Emad.

Os conflitos sociais, morais e psicológicos presentes na peça encenada pelo casal nas horas de folga do professor, parecem aflorar na vida real de Emad e Rana. As inquietações e os dramas familiares de Willy Loman, o personagem central de ‘A Morte do Caixeiro-viajante’, também incomodam Emad e o estimulam a agir, numa espiral de dúvidas, insatisfação e vergonha.

O próprio diretor, Asghar Farhadi, declarou que tencionava usar, há tempos, o ambiente teatral num de seus roteiros. E a verossimilhança entre os dramas da peça – que aborda a falência do sonho americano na década de 1940 – e o do filme – que explora as inconsistências da renovação urbana de Teerã, estabelecem um clima de crítica social, de desespero, de decepções, de perda de esperanças.

Quaisquer que sejam as razões, em algum momento você precisará assumir as consequências de suas escolhas. E então, pode valer a pena lembrar de um dos poemas de Castro Alves: “Ai! Que vale a vingança, pobre amigo, se na vingança a honra não se lava?”

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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