Críticas Lucinha no Cinema

O Círculo

Chega a ser irônico ouvir as pessoas culpando as redes sociais ou a Internet por seus problemas pessoais. Aliás, por mais paradoxal que possa parecer, muitas dessas reclamações costumam estar nessas mesmas redes. Não sei exatamente como todos conseguiam viver e conviver antes delas. Mas depois… Bem, depois tudo parece ter ficado muito mais fácil. Ou difícil, dependendo do ponto de vista, porque hoje ninguém precisa mais se encontrar para ter notícias ou saber de tudo o que ocorre no mundo. Todos se encontram na Internet.

As pessoas culpam também os tais algoritmos por direcionar anúncios ou incentivar compras ou visitas a sites indesejados. Mas se elas soubessem que todas as tarefas executadas por um computador são baseadas em algoritmos, talvez dessem um refresco nessas reclamações.

Tecnicamente, um algoritmo nada mais é que uma sequência finita de instruções, quase como uma receita de bolo. Há algoritmos adequados a cada problema, dos mais simples aos mais complexos. Certamente, as redes sociais e os sites precisam de anunciantes e estes de compradores. E nada funciona melhor para unir essas duas pontas que os chamados algoritmos de busca, unindo necessidades e tendências, muitas vezes ainda incógnitos ou perdidos no cipoal das muitas oportunidades existentes no mercado.

Mas a Internet é realmente um universo muito variado de pessoas e situações. Na verdade, temos ali um microcosmos da vida real, com um pouco de tudo que há no mundo fora das telas. Há pessoas e empresas que procuram informações, que trabalham e vivem com as possibilidades que essa rede mundial de informações oferece.

Mas há indivíduos que usam as redes somente para reclamar, para bisbilhotar a vida alheia. E, infelizmente, há pessoas que adoram odiar, que postam comentários e críticas  escudando-se no anonimato, no aparente isolamento que a Internet oferece. Já existe até um termo para as pessoas conhecidas por praticar o chamado ‘bullying virtual’ ou ‘cyber bullying’: ‘haters’, palavra de origem inglesa que significa ‘os que odeiam’ ou ‘odiadores’.

E o cinema resolveu falar disso tudo e de mais um pouco, explorando formas de controle da informação e, por conseguinte, da sociedade, com o uso abusivo da tecnologia. Os dilemas morais, as críticas sociais e a estupidez coletiva são manipulados por um poder paralelo, lastreado num discurso pessimista e falacioso do que seria o interesse público e o bem comum. E, como em todas as ficções do gênero, os governos nacionais são fracos e as corporações corruptas, reféns de suas próprias vilanias.

Trata-se do longa-metragem “O Círculo” [The Circle], espécie de drama, suspense e ficção científica, dirigido pelo diretor de cinema norte-americano James Ponsoldt (“Smashed”, “The Spectacular Now” e “The End of The Tour”) e estrelado por Tom Hanks e Emma Watson, ambos com performances adequadas ao desenvolvimento da trama, sem porém grandes arroubos de interpretação.

Pelo roteiro adaptado do livro homônimo de Dave Eggers (autor de “Negócios das Arábias” – 2016, também levado para o cinema, com o protagonismo de Tom Hanks) The Circle é uma das empresas mais poderosas do planeta, liderada por  Eamon Bailey (Tom Hanks), um CEO que nos relembra as performances de Steve Jobs na Apple, com a abrangência do Facebook e do Google juntos.

Atuando no ramo da Internet, a empresa acaba de lançar seu mais novo produto – o ‘SeeChange’, uma pequena câmera que permite aos usuários compartilharem detalhes de suas vidas com o mundo. Ao ser contratada, Mae Holland (Emma Watson) fica muito empolgada com a possibilidade de estar perto das pessoas mais poderosas do mundo, mas logo percebe que seu papel na nova empresa é muito diferente do que imaginava.

Estamos diante de uma sátira, daquilo que alguns denominam uma distopia (lugar ruim em contraposição à utopia, lugar nenhum) ou uma ‘utopia negativa’, na qual a obsessão pelo uso da tecnologia como ferramenta de controle vai além da ética empresarial. Na verdade, vai além de qualquer ética.

Como sempre, os limites são extrapolados por interesses variados, nem sempre os mais elogiáveis. O personagem de Emma, por exemplo, vive um dilema moral ao se envolver em um projeto que deixa vulneráveis os limites de privacidade dos usuários e os dela próprios.

O longa-metragem tem alguns pontos nebulosos,  algumas cenas pouco claras ou inexplicáveis e personagens aparentemente dispensáveis, sem qualquer função na evolução do enredo. Mas a idéia central  tem uma razão de ser frente às demandas que nos afligem no contato diário com as redes sociais. A discussão que ela propõe merece prosperar, principalmente por sabermos que a utilização da rede mundial de computadores é crescente e que viveremos cada vez mais dependentes de sua existência.

Até que ponto devemos dar e receber informações? O conhecimento e a liberdade são complementares ou a superexposição tem o preço da ultra vigilância? A intimidade e a segurança das pessoas estão em risco na Internet? Estamos todos paranóicos com o avanço do nível de informações solicitadas ou nossos mecanismos de salvaguardas nos manterão a salvo dos perigos que nos espreitam?

Os problemas surgidos com a superexposição são estimulados pelos tais algoritmos ou nossa vaidade, nossa idolatria a essas redes revelam nossa carência em sermos aceitos nessas comunidades, fazer amigos e nunca dormir sem uma curtida?

Todos parecem desejar que o bom senso e a razoabilidade prevaleçam. Mas, a natureza humana costuma nos pregar surpresas. As redes sociais, no entanto, não criam ‘odiadores’, depravados, molestadores ou criminosos de toda ordem. Elas simplesmente facilitam as conexões de todos esses seres humanos. Como diziam nossos pais, não devemos abrir a porta de casa para estranhos ou aceitar nada de graça. O conselho se mantém.

“É, provavelmente, demasiado elogioso chamá-los utópicos; deveriam em verdade ser chamados dis-tópicos. O que é comumente chamado utopia é demasiado bom para ser praticável; mas o que eles parecem defender é demasiado mau para ser praticável.”   Palavras de John Stuart Mill ao usar pela primeira vez o termo ‘distopia’ no Parlamento Britânico em 1868.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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