Críticas Lucinha no Cinema

O Contador (The Accountant)

Você consegue imaginar como seria viver com significativas dificuldades de interação social ou de comunicação não-verbal? E se, além disso, você fosse fisicamente desajeitado, com uma linguagem atípica ou excêntrica, rotinas obsessivas, repetitivas e interesses restritos, impedindo o convívio familiar, social ou profissional? Pensando bem, sua vida poderia ser muito difícil.

E se você fosse assim, até que ponto seu comportamento poderia ser orientado para melhorar sua convivência social? Seria possível um olhar para além das suas limitações? E isso poderia significar sua inclusão e a valorização das suas capacidades, daquelas potencialidades com as quais você se sente familiarizado e diferente das outras pessoas?

Pois esse é o mundo de alguém com a chamada Síndrome de Asperger (em homenagem ao pediatra austríaco Hans Asperger, que percebeu e estudou crianças com essas características) ou, no linguajar médico, Desordem do Espectro Autista de Nível 1, o mais leve de todos. E a primeira pergunta que vem à mente de todos: essa pessoa é um doente mental? Não, não se trata de um transtorno mental, muito menos de uma deficiência, mas de uma condição neurológica, uma forma diferente de ser, sem a presença de prejuízos intelectuais ou verbais.

Há quem simplifique dizendo que pessoas com essa síndrome teriam um tipo de autismo de alto desempenho, chegando a denominá-los ‘pequenos gênios’. Gênios do tipo de Albert Einstein, Isaac Newton, Leonardo da Vinci, Mozart e, para ficar mais atual, Bill Gates, Michael Phelps e Lionel Messi, dentre muitos outros gênios contemporâneos, das gerações próximas às nossas, que têm a tal da Síndrome de Asperger, os ‘aspies’, como se autodenominam.

Essa pessoa diferente, com uma espécie de hipersensibilidade sensorial e emotiva, também está na pele, ou melhor, na mente de Christian Wolff (Ben Affleck), protagonista de ‘O Contador’, o novo filme de ação policial, suspense e drama do ator, produtor, roteirista e diretor de cinema americano Gavin O’Connor (‘Pride and Glory’, 2008).

Christian Wolff é um gênio da matemática, que tem mais afinidade com números do que com pessoas. Sua vida pacata parece se resumir à gerência de um pequeno escritório de contabilidade em Atlanta. O burocrático negócio serve de fachada para seu verdadeiro trabalho: ele manipula os números para organizações criminosas.

Por trás da fachada de um pequeno escritório de contabilidade, Christian trabalha como contador autônomo para algumas das mais perigosas organizações criminosas do mundo. Enquanto o Departamento Criminal do Ministério da Fazenda, coordenado por Raymond King (J.K.Simmons) está fechando o cerco, Christian aceita um novo cliente: uma empresa de robótica de última geração, onde uma assistente de contabilidade, Dana Cummings (Anna Kendrick), descobre uma discrepância envolvendo milhões de dólares. Conforme Christian desvenda os registros e se aproxima da verdade, a contagem de corpos começa a subir.

O roteiro de Bill Dubuque (‘The Judge’) revela uma trama muito mais complexa de que aparenta ser. Ele nos conduz pelos caminhos e atalhos percorridos por Christian e sua família para conviver com seu comportamento diferente. Ao longo da narrativa, alguns segredos, mistérios e questões, aparentemente perdidos na trama ou sem conexão com a estória, serão expostos e desvendados. Muitas perguntas do presente serão respondidas pelas reviravoltas do roteiro, com flashbacks relâmpagos e desconcertantes. A estória é intrigante e, acredite, até as cenas finais novas revelações surgirão! E no meio de tantos crimes do colarinho branco, por conta de uma série de assassinatos, revela-se a figura de uma espécie de justiceiro. Pronto! Está aberta a possibilidade de uma franquia!

Cinema é, acima de qualquer coisa, entretenimento. Se além disso, podemos conhecer formas diferentes de ser ou de não ser, de como lidar e superar nossas limitações físicas ou mentais, isso sim é muito instigante. A ciência sequer chegou ao limiar da mente humana, esta a grande incógnita a ser desvendada. E quando você junta cenas de ação com lances pitorescos, tiradas bem humoradas e atores em grandes performances, valeu a pena ficar sentado em frente à telona, por duas horas, naquele escurinho do cinema.

‘Pensem nos canhotos, que até recentemente eram corrigidos, ou nos homossexuais, que por séculos foram considerados doentes’, dizem muitos portadores de Asperger. Ou ainda, “Adultos com Asperger: não queremos a cura (não aquela que alguém tenha escolhido por nós)”, como divulgam nas suas camisetas. Qual seria a fronteira entre patologia e modo de ser? O que é a normalidade? E quem está em condições de avaliá-la?

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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