Críticas Lucinha no Cinema

O Filme da Minha Vida

Para muitas pessoas, não há melhor lugar para se estar do que numa sala de cinema. E aquele breve e instigante instante – entre o apagar das luzes e o início da sessão, com os primeiros sons e imagens do que virá a seguir – se assemelha a um momento mágico. Você pode até não gostar do resultado final, mas só por estar participando daquela experiência sensorial, já terá valido a pena sair de casa.

Lá, no escurinho do cinema, uma grande ansiedade invade o seu pensamento e você não vai querer estar em nenhum outro lugar do mundo. Todo o resto está lá fora, parado no tempo. Nada irá acontecer enquanto você estiver olhando para aquela tela gigante. Esquecer do mundo real por uns instantes e viver os sonhos idealizados e vividos por outras pessoas: eis a magia do cinema!

Esses foram meus pensamentos quando sai da sessão de “O Filme da Minha Vida”, do ator, roteirista e diretor brasileiro Selton Mello. O filme não é exatamente uma perfeição. Aliás, está longe disso. Mas a magia do cinema está toda ali, em cada cena, em cada fotografia, em cada diálogo, em cada cenário, em cada interpretação, em cada canção. E que canções!

Aliás, talvez o melhor do filme seja mesmo a trilha sonora, com ótimas lembranças nacionais e estrangeiras, além da trilha original, a cargo de Plínio Profeta. Não há como não se emocionar com os clássicos da música francesa e os sucessos românticos da Jovem Guarda, nos remetendo aos anos 50, 60 e 70 no conjunto de dezoito canções, que vão de ‘Hier encore’, com Charles Aznavour a ‘Coração de papel’, com Sérgio Reis, passando por ‘Voilà’, com Françoise Hardy e ‘Errei, sim’ com Dalva de Oliveira.

A nostalgia, o romantismo e o lirismo presentes nas letras e melodias se refletem na história do jovem Tony Terranova (Johnny Massaro) que decide retornar a Remanso, na Serra Gaúcha, sua cidade natal, depois de estudar na capital.

Ao chegar, ele descobre que Nicolas Terranova (Vincent Cassel), seu pai, voltou para a França alegando sentir falta dos amigos e do país de origem. Tony se torna professor no colégio local e descobre – em meio aos conflitos do seu amadurecimento e os de seus alunos e amigos –  como é difícil viver, ou melhor sobreviver, depois dos sofrimentos e desencantos que a vida nos faz passar.

O roteiro – escrito por Selton Mello e Marcelo Vindicatto, responsáveis também pelos roteiros de “Feliz Natal” (2008) e “O Palhaço” (2011), os dois primeiros longas-metragens dirigidos por Selton Mello – é baseado no livro “Um Pai de Filme” do professor, diretor de teatro, roteirista, embaixador e escritor premiado Esteban Antonio Skármeta Vranicic, descendente de croatas nascido no Chile.

Antonio Skármeta se tornou mundialmente conhecido depois do longa-metragem “O Carteiro e o Poeta” (1994), do diretor britânico Michael Radford, baseado no romance “O carteiro de Pablo Neruda”, de Skármeta, autor também de “A dança da vitória”, romance no qual foi inspirado o longa-metragem “A Dançarina e o Ladrão” (2009), dirigido pelo espanhol Fernando Trueba, além da peça “El Plebiscito”, que deu origem ao filme “No” (2012), do diretor chileno Pablo Larrain, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013.

“O Filme da Minha Vida” é de uma delicadeza ímpar, exalando lirismo, paixão e encantamento. E toca no íntimo de cada um, falando do amadurecimento do ser humano a partir das perdas. Mas não só das perdas comuns, inexoráveis,  como a inocência ou a virgindade, mas também das decorrentes da quebra de confiança, das promessas não cumpridas, dos sonhos que se desfazem ou se interrompem com o passar do tempo ou por conta das surpresas que a vida nos oferece.

Os cenários encantadores e exuberantes  da Serra Gaúcha – como Cotiporã, Veranópolis, Bento Gonçalves, Garibaldi, Farroupilha, Monte Belo do Sul e Santa Tereza – que serviram de locação, valorizam a cinematografia a cargo de Walter Carvalho, além de servirem totalmente ao efeito temporal da direção de arte de Claudio Amaral Peixoto, que recria fielmente a década de 60, época propicia ao desenrolar dos fatos narrados no roteiro.

Talvez a maior deficiência do filme seja a inconsistência do roteiro, com algumas pontas soltas, personagens pouco desenvolvidos e situações inexplicáveis. É pena, realmente uma lástima, pois o filme tem muitos aspectos louváveis, especialmente a grande homenagem ao próprio cinema, este sim o personagem realmente bem desenvolvido, presente do início ao fim, não só através das referências a personagens e filmes icônicos, como também pela atmosfera lúdica e pelas relações afetivas relacionadas ao meio cinematográfico, a grande paixão de Selton Mello.

O elenco é, sem sombra de dúvida, uma das melhores apostas de Selton Mello, ele próprio um ótimo ator – cujo personagem Paco, o criador de porcos, bronco e solitário – é um arquétipo bem conhecido nas histórias contadas nas salas de cinema. Aliás, cada um dos personagens é um tipo muito bem explorado pelos roteiristas, com histórias mais simples ou mais complexas e finais felizes para sempre. Como quer a sua imaginação.

Parafraseando Steven Spielberg, “todas as vezes que vou ao cinema é mágico, e não interessa que filme é que é.”

Comentários

Print this entry

Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

%d blogueiros gostam disto: