O Jantar

by Lucia Sivolella Wendling | 25/09/2017 15:08

Qual deles se aproximou mais da realidade: Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), filósofo francês, que afirmava que o ser humano é naturalmente bom, estragado eventualmente pela vida em sociedade, ou Thomas Hobbes (1588-1679), filósofo inglês, que defendia a ideia de que os homens são maus por natureza e só podem viver em paz se concordarem em se submeter a um poder central?

Pelo andar da carruagem desde então, as ideias defendidas por Hobbes acabaram por se mostrar mais próximas do mundo real. Sem um poder central, uma sociedade sujeita a leis e punições, o ser humano tenderia a possuir tudo o que desejasse, sem limites para suas paixões: uma guerra de todos contra todos.

Nessa circunstância, também chamada de ‘estado de natureza’, nenhuma das grandes realizações da humanidade teria seria possível, pois tudo dependeria, em maior ou menor grau, de alguma segurança. Daí a importância do contrato social, por conta do qual os indivíduos concordam em se submeter a um poder soberano em troca de proteção e estabilidade social.

Assim colocado, o dilema civilização versus barbárie parece distante, quase pré-histórico, mas até hoje muitos tendem a menosprezar esse tal ‘contrato social’: seja por incapacidade mental, ambição desmedida ou simplesmente por um estado de necessidade, que o exponha e o leva ao extremo da sua natureza selvagem.

Basta surgir a oportunidade e eis que o lobo se manifesta. E o comportamento civilizado, como um cristal que se quebra, cede vez à barbárie. E surgem as justificativas oportunistas, as cobranças em relação ao passado, as manipulações e chantagens de um futuro que mais se assemelha a uma volta às origens cavernosas da civilização.

Até onde você iria para proteger seu filho, sua família, sua história, seu nome? Muitas vezes não percebemos, mas ultrapassamos o limite da faixa amarela e, sem um mínimo de sensatez, tudo aquilo que parecia razoável se distancia e as atitudes beiram o caos.

Esse é o ponto de partida do ‘triller’ psicológico “O Jantar”, dirigido pelo israelense Oren Moverman (conhecido por “O Mensageiro”-2009; “O Encontro”-2014; “Norman:Confie em Mim”-2016, entre outros filmes de sucesso). O roteiro, elaborado pelo próprio diretor, é uma adaptação do romance homônimo de Herman Koch (1953- ), publicado em 2009 e cujo tema já serviu de inspiração para outros filmes e peças de teatro, com debates e títulos semelhantes, além dos aclamados “Deus da Carnificina” (2011), de Roman Polanski, o livro “Senhor das Moscas” (1954), de William Golding e o filme homônimo (1990), de Harry Hook , além do aclamado filme “Quem tem medo de Virgínia Woolf?”(1966), de Mike Nichols, adaptado da peça teatral homônima escrita por Edward Albee.

Dois casais jantam em um elegante restaurante: à direita, vemos Stan Lohman (Richard Gere), prestigiado político às vésperas de uma eleição, acompanhado de sua esposa troféu, Katelyn Lohman (Rebecca Hall), além da ‘entourage política’, à espreita no salão anexo. À esquerda, seu irmão Paul Lohman (Steve Googan), professor de história licenciado por problemas mentais, com sua mulher Claire Lohman (Laura Linney), debilitada no passado por problemas de saúde.

Enquanto os garçons desfilam no salão, apresentando iguarias que mais revelam as idiossincrasias dos chefes que o prazer dos comensais, estes conversam sobre banalidades da vida. A discussão chega ao seu limite quando falam sobre seus filhos adolescentes: dois rapazes envolvidos em uma complicada investigação policial.

Em flashbacks, Paul e Stan discutem questões triviais da sociedade americana à luz da Batalha de Gettysburg, considerado o pior momento da Guerra Civil Americana: mais de 51 mil baixas, fora as doenças que atormentaram a população local por vários meses após o confronto.

A vitória das forças federais em Gettysburg teria sido o ponto de inflexão da guerra civil americana. Além de ter quebrado o mito de invencibilidade do Gal. Lee, a vitória da União devolveu entusiasmo à causa Yankee, ao mesmo tempo que colocou em dúvida os ideais dos combatentes sulistas. Ainda hoje se discute o fracasso e o sucesso de cada lado,  além das circunstâncias que coroaram de êxito as estratégias do general vitorioso. E hoje, a Batalha de Gettysburg não é só um capítulo da guerra, mas uma metáfora da vida americana.

Lembre-se de um filme de sucesso e logo virão à sua mente personagens com doenças incuráveis, traumas de infância, segredos inconfessáveis, distúrbios mentais, crimes, culpas e castigos. Eis o segredo de um bom roteiro: personagens e suas incríveis peripécias para demonstrar o melhor e o pior da natureza humana. E maravilha: aqui temos roteiro e personagens.

Até que ponto somos responsáveis pelo que fazem nossos filhos? Você acredita que repetimos o comportamento de nossos pais, num ciclo ininterrupto de manipulações e maus tratos ou nossos ressentimentos e rancores só se manifestam por escolhas inadequadas e riscos mal calculados?

O tal ‘palimpsesto selvagem’ de que falam os antropólogos – por conta do qual seriamos o resultado de um rascunho de nossos antepassados, moldados tal qual uma maldição do determinismo darwiniano – é verdadeiro ou temos sempre a possibilidade de reescrever a história, apoiados no que se denomina popularmente como livre-arbítrio?

Mesmo que você nunca tenha passado por uma situação semelhante, você vai se sentir desconfortável, confrontado com a possibilidade ali exposta e, mais uma vez, surge a incômoda indagação: até onde você iria para proteger seu filho?

Mas, o filme tem muito mais a questionar, e por lá desfilam as consequências derivadas do olhar fascista e preconceituoso do ser humano, os dilemas morais e éticos do poder versus impunidade, culminando com a visão pessimista de que, infelizmente, a sociedade moderna não tem jeito: a decadência se impôs, a elegância ficou no na poeira deixada no capacho da entrada. Só o que nos resta é o caos. Será?

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