Críticas Lucinha no Cinema

O Novíssimo Testamento

Você gostaria de saber o dia da sua morte? E sabendo, o que faria com essa informação? Ela seria útil? Seria capaz de mudar sua vida e suas decisões dai para a frente? Essa é uma daquelas questões filosóficas, complexas. Na verdade, para lá de complexa. Muitas pessoas preferem não saber. Mas, se isso fosse possível, como seria o mundo a partir de então?

Pois foi com essa ideia revolucionária, que Jaco van Dormael, produtor, diretor, roteirista e ator belga, resolveu roteirizar, dirigir e produzir a divertidíssima comédia de dupla nacionalidade, belga e francesa, ‘O novíssimo testamento’.

Já pelo título, a gente se lembra, dos também ótimos, ‘Monty Python’, ‘A vida de Brian’ e ‘O Fabuloso Destino de Amélie Poulain’. Sinceramente? Aqui tem mais diversão, sarcasmo e criatividade. Olhe só a premissa: Deus (Benoît Poelvoorde) existe! Ele mora em Bruxelas, é alcoólatra, fumante inveterado, rabugento e malvado com a filha Ea de 10 anos (Pili Groyne) e com a esposa (Yolande Moreau).

E Ea, a filha pré-adolescente de Deus, cansada da natureza abusiva do pai, invade o computador dele e envia para todos os habitantes do planeta as datas de suas respectivas mortes, gerando consequências inimagináveis.

Essa manchete poderia estar enquadrada naquele tipo de notícias as quais denominamos sensacionalistas, fantasiosas, divertidas, ou simplesmente isentas de verdade. O próprio diretor classificou seu filme como um conto surrealista, sem juízo, sem censura. Será?

Pense numa família disfuncional, na qual a mulher e a filha estão confinadas num pequeno apartamento, mantidas em cárcere privado, isoladas do resto do mundo, sem contato com qualquer outro ser humano.

E Deus, aquele que pensa que é um deus, tentando controlar o destino das pessoas, mas na verdade infernizando o mundo. Eis que temos um perfeito burocrata, desleixado, mau-caráter. Imagine, ainda, um quarto cheio de escaninhos, de alto a baixo das paredes, com um computadorzinho bem mequetrefe no meio do quarto e milhões de arquivos em cartões de papel, tudo desorganizado. Pois esse é o escritório do Criador. Pelo menos no filme.

Não pense em racionalidade. Nada a ver. Temos sim uma criativa e divertida fábula, que tenta dar uma volta no pior da humanidade, juntando revolta pré-adolescente com novíssimos profetas, usando uma máquina de lavar roupas como passagem para outra dimensão, numa fantasia super colorida, praticamente um paraíso ‘kitsch’.

E, no meio de uma magnífica orquestra de pássaros adestrados, de peixes-fantasmas cantantes, de céus bordados de flores, surge Catherine Deneuve, numa pequena participação como Martine, apaixonada por um gorila, mais amoroso que seu marido, um completo canalha. Só um detalhe no caos formado por Ea. Espere para ver!

Talvez você veja nessa comédia uma janela para se debater o papel das mulheres na sociedade ou, quem sabe, a busca do paraíso na Terra, da felicidade, do amor, do otimismo e da fé nas pessoas. Você acredita realmente que a consciência da mortalidade modifica as pessoas?

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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