Críticas Lucinha no Cinema

O Quarto de Jack

A dúvida que parece atormentar Joy (Brie Larson), mais do que todas as outras que ela enfrentou até aquele momento: como mudar o futuro de Jack (Jacob Tremblay), agora que ele começa a questionar as coisas, a fazer os característicos ‘por quês’ das crianças de 5 anos?

Foi o que pensei, logo no início do longa ‘O quarto de Jack’ (‘Room’), do diretor irlandês Lenny Abrahamson, responsável pelo emblemático ‘Frank’ (2014). O roteiro é de Emma Donoghue, autora do livro homônimo que deu origem a estória de Jack, o espirituoso menino nascido em cativeiro, fruto dos estupros semanais sofridos por sua mãe, sequestrada e mantida em um minúsculo cômodo desde os 16 anos pelo ‘Velho Nick’ (Sean Bridgers).

O ‘Caso Fritzl’, descoberto na Áustria em 2008, logo nos vem à mente. É inacreditável imaginar que alguém possa manter sua própria filha num porão por 24 anos, sujeitando-a à escravidão sexual e ao isolamento total do mundo. Pois parece que essa incrível e inimaginável crueldade inspirou a estória de Jack.

A primeira metade do filme é claustrofóbica, um horror sem fim, apesar da delicadeza de perceber como o isolamento aperfeiçoou a relação mãe-filho, tudo mostrado sob a perspectiva de Jack, aparentemente adaptado àquela situação. Mas, eis que basta uma idéia, um pequeno mas necessário embate entre os mundos do interior e o do exterior, e o drama ganha outro rumo.

A descoberta de uma realidade diferente, que ultrapassa a tela da pequena e velha TV do quarto de Jack há de ser sofrida, não só para Jack e Joy, como para todos ao redor. Por mais que seja reconfortante saber que Joy está viva, a existência de Jack quebra velhos paradigmas, e o relacionamento surgido pela maternidade há de ser questionado.

E a atriz Brie Larson, que já ganhou vários prêmios por sua delicada e insuperável relação maternal, nos faz lembrar de idêntica realidade paralela criada no relacionamento pai-filho mantido em A vida é bela’, de Roberto Benigni, que ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1999.

Interessante perceber que as ‘pessoas de fora’ não tem noção do que se passa no interior de um cativeiro. Da crueldade de cada minuto que se perde naquele isolamento, das angústias da solidão, da crueldade de ser ter e criar um filho naquela situação.

E por mais que Joy tenha sofrido, que tenha passado por tudo aquilo, parece que a maior crueldade foi feita pela repórter do programa de entrevistas, quando questionou o por quê de ela ter mantido Jack aprisionado ali, junto com ela no pequeno quarto.

Não foi suficiente terem lhe roubado a juventude. Agora querem também lhe tirar sua sanidade, sua razão de ser. O relacionamento surgido da maternidade efetivamente salvou Joy. Jack foi sua força, sua razão de viver e de suportar todo o horror daquela situação.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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