Críticas Lucinha no Cinema

Os Oito Odiados

Como já dizia o saudoso Chacrinha, na televisão, nada se cria, tudo se copia. E no cinema, não é diferente, tanto aqui como em Hollywood. E um desses diretores, Quentin Tarantino, em seu oitavo filme, ‘Os oito odiados’ (‘The Hateful Eight’), revisita o gênero Western e nos apresenta mais uma de suas loucas aventuras.

E ele mesmo, Tarantino, confessa ter se inspirado nos seriados populares na TV americana dos anos 1960 e 1970, como ‘Bonanza’ ou ‘Gunsmoke’, imaginando um daqueles episódios, no qual os personagens da série ‘Bonanza’, ‘Hoss’ e ‘Little Joe’, ficam presos num armazém com outros sete personagens esquemáticos, durante dois dias de furiosa tempestade de neve, tal qual o enredo do seu novo longa-metragem.

E do chamado cinema Western, filme de cowboy ou de faroeste, visto por entendidos como o mais americano dos gêneros cinematográficos, está tudo lá: a questão da colonização do Oeste americano, a partir do Mississipe, os traumas da Guerra Civil Americana, a ocupação de terras por conta da criação de gado, da questão indígena, da corrida do ouro, e a convivência com a violência, muitas vezes gratuita ou como forma de garantir a segurança a qualquer custo.

Os personagens do longa, o grande trunfo de Tarantino, são tipos bem conhecidos nos filmes do gênero: temos a criminosa Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), o xerife Chris Mannix (Walton Goggins), o condutor de diligências (James Parks), os caçadores de recompensas, o branco John ‘The Hangman’ Ruth (Kurt Russell) e o negro Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) e toda uma série de sujeitos bizarros, como o general confederado Sanford Smithers (Bruce Dern), o carrasco Oswaldo Mobray (Tim Roth), o mexicano Bob (Demian Bichir), os pistoleiro Jody (Channing Tatum) e Joe Gage (Michael Madsen), cada qual contribuindo a seu modo para criar um clima de desconfiança, violência, tensão.

E, naquele casarão perdido no meio do nada, o ‘Armazém da Minnie’ (Dana Gourrier), o verdadeiro protagonista do longa, há realmente um pouco de tudo que ainda hoje atormenta a vida dos americanos. Desde a questão em suspense do feminismo e da mulher na familia e na sociedade de então, passando pelas sequelas da escravidão e o reposicionamento do negro na sociedade americana pós-guerra civil, a discussão do papel dos imigrantes, do esnobe inglês, do bronco mexicano, até o poder de polícia dos xerifes, do caçador de recompensas, do carrasco, dos militares. Um verdadeiro duelo no estilo do velho e bom faroeste, uma espécie de guerra psicológica, por conta do perigo iminente, sorrateiro.

A estória vai se desenrolando aos poucos, na verdade aos pouquinhos, um personagem de cada vez, mas isso não é ruim. Na verdade precisa ser assim, pois há que se desenvolver um clima de desconfiança, de quem é quem, de suspense, de humor negro, de terror, de violência, de vingança. E o frio lá fora, a nevasca que se anuncia, limita, segrega, condena os oito personagens ao convívio forçado, espécie de ‘tempo na solitária’, sem alternativa, sem rota de fuga.

E tudo isso não teria nenhuma graça sem a música de Ennio Morricone, o compositor, arranjador e maestro italiano de 87 anos, que fez o som de mais de 500 filmes e programas de televisão, além das trilhas sonoras mais conhecidas dos filmes do ‘western spaghetti’ do cineasta Sérgio Leone: ‘Por um punhado de dólares’ (1964), ‘Por uns dólares a mais’ (1965), Três homens em conflito’ (1966) e ‘Era uma vez no Oeste’ (1968). Também é o responsável pela músicas de ‘Bastardos Inglorios’ (2009) e já ganhou o Globo de Ouro pela trilha deste novo longa de Tarantino.

Somente um ser curioso, destemido, conhecedor e amante do melhor do cinema, como Quentin Tarantino, poderia criar essa obra de arte, unindo atores de excepcional performance, um fantástico roteiro, num cenário deslumbrante, envoltos em maravilhosa trilha sonora. Na vida nada se perde, tudo se recicla e se renova. Que assim seja!

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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