Críticas Lucinha no Cinema

Passageiros

Filme Passageiros, direção Morten Tyldum

por Lucia Sivolella Wendling*

Você está desanimado e sem perspectivas para o futuro? Que tal a possibilidade de emigrar para um outro planeta com as mesmas características da Terra e viver uma nova vida, ter um novo trabalho, fazer novos amigos, sonhar novos sonhos?

E você iria, mesmo sabendo que esse planeta está distante, muito distante, e que, para chegar lá, com a mesma idade que saiu daqui, você teria que viajar numa cápsula de hibernação por 120 anos?

Iria mesmo sabendo que nunca mais reveria ninguém conhecido e que deixaria para trás suas raízes, seus parentes, seus amigos?

Isso parece um sonho distante e inatingível, pelo menos com o conhecimento que temos hoje. Mas, no cinema, tudo é possível. Com uma ideia na cabeça, muita imaginação, um bom roteiro e uma produção caprichada, os cineastas podem realizar qualquer sonho.

E esse é o cenário de ‘PASSAGEIROS’ [PASSENGERS], filme de ficção científica, aventura, drama e romance do diretor de cinema norueguês Morten Tyldum, conhecido pelo suspense histórico ‘O jogo da imitação’ [The Imitation Game] de 2014, pelo qual foi indicado ao Oscar de Melhor Diretor.

A Avalon, uma fantástica nave espacial, foi programada para viajar por 120 anos no modo automático, transportando cinco mil passageiros em estado de hibernação, para um planeta-colônia da Terra: Homestead II.

Em razão de avarias decorrentes de um choque com asteroides ou meteoros, dois passageiros – Jim Preston (Chris Pratt), engenheiro mecânico, e Aurora Lane (Jennifer Lawrence), jornalista e escritora – são despertados 90 anos antes do tempo programado.

O que poderia ser o início de um possível relacionamento amoroso é ameaçado, entretanto, quando fatos novos surgem e os passageiros despertos descobrem que a nave está correndo um sério risco e que eles são os únicos capazes de salvar os outros milhares de passageiros.

O roteiro, do americano Jon Spaihts (de ‘The Darkest Hour’ – 2011, ‘Prometheus’ – 2012 e ‘Doutor Estranho’ – 2016), se desenvolve através de uma espécie de fantasia científica, que utiliza a ‘Avalon’ como pano de fundo para a exploração de temas filosóficos. Os personagens parecem estar o tempo todo em uma busca pessoal, uma espécie de jornada épica por razões e significados de questões existenciais, morais e éticas.

Avalon, a nave espacial de altíssimo padrão tecnológico, é o verdadeiro protagonista do longa, ora nos remetendo a uma moderna Arca de Noé, ora a um magnífico transatlântico de luxo, lotado de retirantes, exilados por escolha própria, certamente, mas levados a decisões extremas, com consequências totalmente inesperadas.

Isso sem mencionar os efeitos especiais, todos fantásticos, como ter uma visão panorâmica do Universo da borda da piscina, sofrer os efeitos da neutralização da força da gravidade sobre a água dessa mesma piscina, visualizar uma chuva de meteoros e uma estrela gigantesca como o nosso Sol através das amplas janelas da espaçonave, ou praticar um salto radical de ‘bungee jumping’ no espaço sideral – sem dúvida espetáculos inimagináveis!

O elenco, pequeno e muito bem entrosado, é o maior trunfo do filme. A tal ‘química’ realmente existe entre Chris Pratt e Jennifer Lawrence, os passageiros Jim e Aurora, um casal com muito mais interesses em comum do que aparentam à primeira vista. E Michael Sheen, o barman-robô, é um tremendo achado – espirituoso e falante, como qualquer barman de sucesso, o androide Arthur aparenta mais sensibilidade que os humanos naquele ambiente de inteligência artificial.

Ao final, muitas questões continuaram sem respostas: por que alguém sairia da Terra, viajaria 120 anos para conhecer um novo planeta, escrever a respeito e voltar viajando outros 120 anos? Por que somente dois passageiros acordaram antes da hora? Se a espaçonave tinha escudo contra choques de objetos espaciais, por que sofreu as avarias decorrentes de um grande choque com esses objetos?

Mas, espere um momento: estamos falando de cinema. Aliás, de um filme de ficção científica. Então, cobrar coerência de fatos, verossimilhança ou respostas para todas as dúvidas que o próprio filme levanta está fora de questão. Discutir filosofia, ética ou questões ligadas ao sentido da vida e ainda aproveitar um visual exuberante já valeu o ingresso.

Como lembrou um dos próprios personagens, o andróide Arthur, barman de profissão e filósofo nas horas vagas, não perca tempo tentando estar onde gostaria de estar. Aproveite onde de fato está!

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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