Críticas Lucinha no Cinema

Paterson

Há quem afirme que a rotina, a habitualidade e até mesma a tradição seriam aspectos potencialmente prejudiciais ao ser humano,   indicando uma vida sem perspectivas, enfadonha ou monótona. Mas, o que é a vida, afinal, se não uma série infindável de rotinas, de pequenos hábitos, que nos ajudam, como salvaguardas, a enfrentar as incertezas, intercaladas por expectativas, normalmente bem-vindas, do futuro, seja ele desejado ou não?

Viver pressupõe, certamente, a assunção de  desafios e, mais do que tudo, a percepção de que estamos, a todo instante, enfrentando novas experiências e, por conta delas, ‘amadurecendo’, ou o que quer que seja a possibilidade de tentar não repetir erros. Todo mundo comete erros e acertos. Aliás, a humanidade só sobrevive por conta da sua insistência em experimentar, em descobrir coisas novas, em querer acertar, sempre. Mas, sem poder contar com a aparente banalidade da rotina, sem o aprendizado do dia a dia, não há como encarar a vida, ou melhor a sucessão de surpresas, boas e ruins, que a vida nos oferece.

E nada parece mais rotineiro, ou mais banal e repetitivo que o ambiente, os personagens e as  circunstâncias mostrados em “Paterson”, o novo longa-metragem do ator e diretor de cinema norte-americano Jim Jarmusch, conhecido pelo estilo idiossincrático de seus filmes, entre os quais se destacam: “Stranger Than Paradise” (1982),  “Down By Law” (1986),  “Coffee and Cigarettes III” (1993), “Dead Man” (1995), “Ghost Dog:The Way of The Samurai” (1999) e  “Broken Flowers” (2005), entre cerca de quinze produções independentes, premiadas amplamente em festivais de cinema ao redor do mundo.

Paterson é também o nome do protagonista desse drama, um pacato motorista de ônibus urbano (Adam Driver), e da cidade onde tudo acontece, a eclética Paterson, em New Jersey. Essa cidade, aliás, ficou famosa pela obra ‘Paterson’, um poema épico de William Carlos Williams (1883-1963), publicado em cinco volumes, entre 1946 e 1958, a partir da forte influência exercida pela leitura de ‘Ulysses’ de James Joyce e por  ‘Os Cantos’ de Ezra Pound.

A cidade é conhecida pelos norte-americanos  por conta das quedas d’água do Rio Passaic [The Great Falls of The Passaic River], transformadas em parque nacional em 2009, e cuja hidrelétrica exerceu papel significativo no início do desenvolvimento industrial de New Jersey.

De Paterson  saíram também Frederick Reines (1918-1998), ganhador do Prêmio Nobel de Física de 1995; Allen Ginsberg (1926-1997), escritor e poeta da ‘geração beat’, além de Don Martin (1931-2000), famoso cartunista da revista de humor satírico ‘Mad’, onde trabalhou de 1956 a 1988.

Como seu  relógio de pulso, Paterson repete uma rotina diária, de segunda a sexta-feira: logo depois que acorda, vai a pé para o trabalho, onde toma posse do ônibus com o qual observa os passageiros e a cidade, que se revelam através das janelas e pelos fragmentos de conversas que o rodeiam. Ele também gosta de escrever, nas horas vagas, poesias em um caderno, que o acompanha aonde quer que vá.  À noite, depois do jantar, Paterson passeia com seu cão Marvin, enquanto revê conhecidos, bebe cerveja e volta para casa, onde vive com Laura (Golshifteh Farahani).

Ao contrário do marido, o mundo de Laura está sempre mudando. Ela tem novos sonhos todos os dias. Ela gosta de costurar e vive inventando roupas para si própria e acessórios para redecorar a casa, tudo em criativas variações da dupla ‘preto e branco’. Talvez não seja exímia cozinheira, mas pretende ser a ‘Rainha dos Cupcakes’. Nunca soube cantar ou tocar instrumentos musicais, mas encomenda um violão, com o qual pretende ser uma bem-sucedida cantora de ‘música country’.  Paterson e Laura se amam e convivem harmoniosamente bem: assim como ela encoraja o talento dele para a poesia, ele apoia suas ambições culinárias, estilísticas e musicais.   

O roteiro observa silenciosamente as pequenas vitórias e derrotas da vida cotidiana do casal e da cidade, sublinhando o lirismo e a filosofia de vida de Paterson,  evidenciados nos pequenos detalhes de sua criação poética. (Os poemas, na realidade, foram escritos pelo poeta Ron Padgett, alguns a pedido do próprio Jarmush). Não obstante a  aparente melancolia, Paterson está de bem com a vida, tudo está em seu devido lugar e, apesar dos pesares, ele não tem do que se queixar.

“O rigor da beleza é o alvo da busca. Mas como se poderá encontrar a beleza se ela está  encerrada na mente, para além de toda admoestação?”
William Carlos Williams

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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