Críticas Lucinha no Cinema

Perdidos em Paris

Uma das características das comédias é o engano, o teor inverídico das situações, através de cenas que têm o único propósito de tornar aquele momento, que poderia ser absolutamente comum em outras circunstâncias, em um momento engraçado, lúdico.

E é curioso descobrir que a fórmula de se usar o humor nas artes cênicas varia conforme o lugar, a época e os costumes. Mas as comédias existem desde que o homem percebeu que rir, ou simplesmente sorrir, é necessário para a preservação de uma vida mais saudável.

E todo mundo adora rir, sem distinção de idade, de nível social ou cultural. Rir faz bem, principalmente quando se está entre amigos, ou mesmo em uma multidão de desconhecidos. Mas então, por que será que as comédias são tão subestimadas em relação aos dramas, às tragédias.

Vale citar, a propósito, a comparação de Aristóteles, em sua ‘Arte Poética’, que teria dito que enquanto as tragédias tratam essencialmente de homens superiores – os heróis;  as comédias falam sobre homens inferiores – as pessoas comuns da ‘pólis’, as pessoas do povo, os anônimos, ou, melhor dizendo, os perdedores, aqueles personagens que vão sendo enganados ao longo da história.

A própria escolha dos jurados, nos festivais de teatro da Grécia antiga, comprovava a nobreza e a representatividade na sociedade daqueles que se dedicavam a avaliar as peças trágicas. Já o júri das comédias era formado por pessoas sorteadas da própria platéia.

E, assim como na Grécia antiga, as comédias encontram grande receptividade nos homens simples do povo. Talvez seja essa a razão do desdém de alguns críticos: a comédia não depende da cultura ou do conhecimento de quem ri, pois atinge o que de mais humano existe em nós – nossas vulnerabilidades. E nesse momento, somos todos iguais, posto que sujeitos às mesmas frustrações, desilusões, equívocos e desencontros.

O melhor das comédias talvez seja a possibilidade de podermos fazer sátiras uns dos outros, sem que sejamos punidos por isso. E, assim como na antiguidade, essa manifestação popular é muito bem-vinda pela platéia. Na verdade, era e continua sendo um dos raros momentos em que qualquer um, independentemente do espaço que ocupe na sociedade, pode ser o alvo de uma crítica, de uma sátira. E essa aparente forma de criticar a si mesmo funciona como uma grande e eficiente crítica às instituições convencionais, como casamento, escola, políticos e às regras impostas pela ordem pública.

E eis que surge uma dupla de comediantes que faz um tipo de humor diferente e chama a atenção: Dominique Abel e Fiona Gordon. Ele é belga e ela australiana e tiveram a sorte de se conheceram ainda bem jovens no colégio. Desde então vivem e trabalham juntos em peças, filmes e espetáculos, buscando dar forma a um universo teatral atípico, centrado no assunto predileto da dupla: a falta de jeito dos seres humanos.

Desenvolveram para isso um visual cômico e burlesco, no qual o corpo humano, muitas vezes  sem a emissão de qualquer palavra – no melhor estilo de palhaços e atores do cinema mudo como Buster Keaton, Max Linder e Charlie Chaplin ou, pelo lado francês, Jacques Tati e os Les Deschiens – se comunica com a platéia e então, num instante mágico de união de identidades, cria um humor poético, às vezes melancólico, às vezes sarcástico, e todos se veem ali, na mesma falta de jeito, na mesma confusão, na mesma solidão, na mesma loucura.

Depois de atuarem com sucesso nos palcos, a dupla partiu para o cinema com  o curta-metragem “Walking on the Wild Side” (2000), além de quatro longas-metragens: “O Iceberg” /”L’Iceberg” (2005),Rumba”/”Rumba” (2008),  “A Fada”/”La Fée” (2011) e o mais recente lançamento – “Perdidos em Paris”/”Paris pieds nus” (2016), que acaba de chegar aos cinemas nacionais.  Todos os trabalhos foram escritos, dirigidos e protagonizados pela dupla, com grande êxito de público e de crítica, em festivais ao redor do mundo.

Em “Perdidos em Paris”, Fiona (Fiona Gordon) é uma bibliotecária de uma pequena e improvável  cidade canadense, que recebe uma aflita e misteriosa carta de Martha (Emmanuelle Riva), uma tia distante que mora em Paris há quarenta anos. Na carta, ela pede que a sobrinha viaje imediatamente a Paris, para evitar que ela seja internada em um asilo. Sem ter a menor ideia do que está acontecendo, Fiona viaja até a capital francesa e descobre que Martha desapareceu.

A história poderia ser comum, mas o humor surgido dos enganos e desencontros conseguem criar situações inusitadas e absolutamente impagáveis!  Em uma verdadeira avalanche de desastres urbanos, Fiona conhece Dom (Dominique Abel), um sem-teto egoísta e sedutor, que não vai deixá-la seguir sozinha em sua busca.

E ainda temos Paris. Mas não aquela Paris que os turistas comuns costumam visitar. Que tal observar a cidade e seus monumentos, como a Torre Eiffel, de um outro ângulo? Visitar cemitérios lhe parece um programa fora de propósito? Mas, aposto que iria se soubesse que se trata do Cimetière du Père-Lachaise, um dos mais famosos do mundo, pois lá estão sepultados Honoré de Balzac, Oscar Wilde, Cyrano de Bergerac, La Fontaine, Marcel Proust e Jim Morrison!

Aproveite para conhecer um típico funeral parisiense, com direito a uma divertida dança de pés, com Emmanuelle Riva (que morreu dois meses depois do lançamento do filme) e  Pierre Richard num dueto imperdível! Aliás, você sabia que tem uma Estátua da Liberdade em pleno Rio Sena?

Trata-se de um conto requintado e cativante sobre três pessoas peculiares perdidas em Paris. O filme é, sem dúvida alguma, muito divertido  e imperdível!

Em defesa do gênero e parafraseando Bernard Shaw: “Morrer é fácil, difícil é fazer comédia.”

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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