Planeta dos Macacos – A Guerra

by Lucia Sivolella Wendling | atras 7 dias

Tudo teria começado por volta dos anos 2500, quando o astronauta Ulysse Mérou – participando de uma exploração espacial em direção ao sistema solar mais próximo da Terra e capaz de abrigar vida: o do sol vermelho de Betelgeuse, a principal estrela da constelação de Orion – tem contato com um planeta muito parecido com a Terra, ao qual denominam Soror (‘irmã’ em latim), por suas semelhanças com o planeta de origem.

Em Soror, os macacos – com inteligência igual ou superior à humana – estão no topo da cadeia alimentar e sua civilização domina totalmente o planeta, assim como a civilização humana domina a Terra. Lá, os seres humanos comportam-se e são vistos pelos macacos como animais irracionais, tal qual os macacos são vistos pelos humanos na Terra.

Essa é a sinopse do livro “O planeta dos macacos” [“La planète des singes”], que se tornaria a obra mais famosa do escritor francês Pierre Boulle (1912-1994), autor ainda do romance histórico de guerra “A Ponte sobre o Rio Kwai”/”Le Pont de la rivière Kwaï”, considerada uma obra semi-ficcional, por ser baseado em experiências reais de Boulle durante a Segunda Guerra Mundial, quando atuou como agente secreto do governo britânico e da resistência francesa na Indochina, à época sob ataque do Império Japonês, aliado da Alemanha Nazista.

Das vinte e quatro obras escritas por Pierre Boulle, duas foram adaptadas para filmes de grande sucesso de público e crítica. Em 1957, David Lean transformou em filme “A Ponte do Rio Kwai”, que ganhou vários Oscars, incluindo os de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Ator (Alec Guinness). O próprio Boulle ganhou o prêmio de Melhor Roteiro Adaptado, apesar de não tê-lo escrito, pois os verdadeiros roteiristas, Carl Foreman e Michael Wilson, estavam na ‘lista negra’ de Hollywood, acusados de pertencer a organizações comunistas. Somente em 1984, a Academia de Cinema concedeu um prêmio póstumo aos dois roteiristas.

A outra obra de Boulle, “O Planeta dos Macacos” um clássico da ficção científica, serviu de base para nove longas-metragens: “Planeta dos Macacos”/”Planet of the apes” (1968), de Franklin J. Schaffner; “De volta ao planeta dos macacos”/”Beneath the planet of the apes” (1970); de Ted Post; “Fuga do planeta dos macacos”/”Escape from the planet of the apes”  (1971), de Don Taylor; “Conquista do planeta dos macacos”/”Conquest of the planet of the apes” (1972) e “A batalha no planeta dos macacos”/”Battle for the planet of the apes” (1973), de John Lee Thompson; “Planeta dos macacos”/”Planet of the apes” (2001), de Tim Burton; “Planeta dos macacos: a origem”/”Rise of the planet of the ages” (2011), de Rupert Wyatt; e os dois últimos de Matt Reeves: “Planeta dos macacos: o confronto”/”Dawn of the planet of the apes” (2014) e “Planeta dos macacos: a Guerra”/”War for the planet of the apes” (2017).

Além da franquia cinematográfica, o livro foi adaptado para uma série televisiva, desenhos animados e ‘tie-ins’ de merchandising, livros, quadrinhos, videogames e brinquedos, exercendo grande influência sobre filmes, na mídia, nas artes, bem como na cultura popular e até em discursos políticos.

Em “Planeta dos macacos: A Guerra” (roteiro de Mark Bomback e Matt Reeves), César (Andy Serkis) – um chimpanzé nobre e inteligente – e seus seguidores – macacos geneticamente evoluídos –  são forçados a um conflito mortal com um exército de seres humanos liderados pelo Coronel McCullough (Woody Harrelson). Após os macacos sofrerem grandes perdas, César luta com seus instintos e começa sua própria busca para vingar a espécie. Esta jornada coloca César face a face com o cruel Coronel, numa batalha épica que irá transformar o destino de ambas as espécies e o futuro do planeta.

Depois do sucesso do personagem George Taylor, o astronauta norte-americano interpretado por Charlton Heston nos dois primeiros filmes da franquia, o grande astro da série foi o ator Roddy McDowall, participando de quatro filmes, ora no papel do chimpanzé Cornelius, ora no de seu filho César, além de ter atuado como o macaco Galen na série de TV homônima.

A partir do desenvolvimento da técnica de captura de movimento (‘motion captured acting’) a gravação das cenas com os macacos passa a incorporar os movimentos dos atores humanos – captados através de pontos de referência presos em roupas e capacetes especiais – e recriados nos modelos dos personagens digitais. Quando se inclui a face, os dedos ou quando se captura expressões sutis, a técnica é frequentemente denominada como ‘captura de performance’.

O ator Andy Serkis tornou-se conhecido por fazer papéis de personagens em computação gráfica, como Gollum da franquia “O Senhor dos Anéis”/“The Lord of the Rings”, o gorila gigante de “King Kong”, Snoke em “Star Wars: O Despertar da Força”/“Star Wars: The Force Awakens” e agora se destaca em mais uma grande performance como  César, o protagonista do misto de drama, ação, aventura, suspense e ficção científica “Planeta dos Macacos: a Guerra”.

Talvez levados pelo medo e pelas condições adversas vividas, antes e depois de feitos reféns dos soldados rebeldes, alguns personagens – além de César, o sábio líder da tribo – se destacam pela ‘humanização’, inteligência e solidariedade com os demais membros do bando: Bad Ape (Steve Zahn), um chimpanzé irônico, que vivia em um jardim zoológico antes do surto da Gripe Símia; Maurice (Karin Konoval), um orangotango sábio e benevolente, conselheiro de César; Rocket (Terry Notary), um chimpanzé nobre, irmão de César; Cornélia (Judy Greer), a amorosa esposa de César e Olhos Azuis (Max Lloyd-Jones), o filho de César e Cornélia.

Depois de quase 50 anos de muito sucesso de público e de crítica, a franquia “Planeta dos Macacos” arrecadou mais de US$ 1 bilhão. E pensar que tudo começou como uma crítica social, em uma sociedade distópica, onde os primatas não-humanos ocupam os papéis dos seres racionais e os humanos dos irracionais, numa espécie de espelho invertido, ou mundo paralelo do que hoje conhecemos como humanidade.

Todos os filmes da franquia, de uma forma ou de outra, projetaram nossos dilemas morais num futuro pós-apocalíptico, onde a estupidez, a violência e o pessimismo convivem lado a lado com o medo, a doença e a morte, expondo a essência animalesca dos humanos e a índole racional dos primatas não-humanos.

Sem sombra de dúvida, uma inteligente e bem engendrada fábula moderna, que o próprio autor não entendia como ficção científica, provavelmente porque seu grande objetivo seria simplesmente revelar a desumanização daquele ser que ele tivera a oportunidade de conhecer durante os vinte e cinco meses em que permaneceu prisioneiro nos campos de trabalho forçado do sudeste asiático, durante a Segunda Guerra Mundial.

Apesar do título e das cenas de confronto, entre as quais se destacam, pelo inusitado do conjunto –   macacos cavalgando e portando armas – o filme pode ser considerado, assim como todos os filmes da franquia, um libelo anti-guerra, como faz parecer e declara o próprio líder dos macacos, o chimpanzé César, numa tentativa, quiçá infrutífera, de manter uma convivência pacífica entre humanos e macacos.

Por mais irônico que pareça, o dom da palavra – a possibilidade de se utilizar a voz, distinguindo os humanos dos demais primatas e lhes conferindo o poder de se comunicar verbalmente – marca o ponto de inflexão, o momento em que animais, não só se expressam, como manifestam sensibilidade, compaixão e solidariedade, ao contrário dos homens, que amargam a solidão, o medo e a desesperança, assim que a tal Gripe Símia faz seus estragos, com a perda da fala entre outros danos.

E as palavras de Pierre Boulle parecem soar como uma terrível profecia na voz do casal – os macacos Jinn e Phillys – que encontra uma mensagem (o diário de bordo do astronauta Ulysse Mérou) numa garrafa à deriva, ao final do romance “La planète des singes”/”O planeta dos macacos”. Eles zombam da possibilidade de humanos terem algum dia sido avançados o suficiente para construir espaçonaves, concluindo que a história toda deva ser uma piada de alguém.

Comentários

Compartilhe isso:

Curtir isso:

Endnotes:
  1. [Image]: http://cronicascariocas.com/wp-content/uploads/2017/08/planeta-dos-macacos-aguerra_foto4.jpg
  2. [Image]: http://cronicascariocas.com/wp-content/uploads/2017/08/planeta-dos-macacos-aguerra_foto3.jpg
  3. [Image]: http://cronicascariocas.com/wp-content/uploads/2017/08/planeta-dos-macacos-aguerra_foto2.jpg
  4. [Image]: http://cronicascariocas.com/wp-content/uploads/2017/08/planeta-dos-macacos-aguerra_foto7.jpg
  5. [Image]: http://cronicascariocas.com/wp-content/uploads/2017/08/planeta-dos-macacos-aguerra_foto6.jpg
  6. [Image]: http://cronicascariocas.com/wp-content/uploads/2017/08/planeta-dos-macacos-aguerra_foto5.jpg
  7. [Image]: http://cronicascariocas.com/wp-content/uploads/2017/08/planeta-dos-macacos-aguerra_foto4.jpg
  8. [Image]: http://cronicascariocas.com/wp-content/uploads/2017/08/planeta-dos-macacos-aguerra_foto3.jpg
  9. [Image]: http://cronicascariocas.com/wp-content/uploads/2017/08/planeta-dos-macacos-aguerra_foto2.jpg
  10. [Image]: http://cronicascariocas.com/wp-content/uploads/2017/08/planeta-dos-macacos-aguerra_foto7.jpg
  11. [Image]: http://cronicascariocas.com/wp-content/uploads/2017/08/planeta-dos-macacos-aguerra_foto6.jpg
  12. [Image]: http://cronicascariocas.com/wp-content/uploads/2017/08/planeta-dos-macacos-aguerra_foto5.jpg
  13. [Image]: https://www.pinterest.com/pin/create/button/?url=http%3A%2F%2Fcronicascariocas.com%2Fcinema%2Fcriticas%2Flucinha-no-cinema%2Fplaneta-dos-macacos-a-guerra%2F&media=http%3A%2F%2Fcronicascariocas.com%2Fwp-content%2Fuploads%2F2017%2F08%2Fplaneta-dos-macacos-aguerra_foto1.jpg&description=Planeta%20dos%20Macacos%20%E2%80%93%20A%20Guerra
  14. Tweet: https://twitter.com/share

Source URL: http://cronicascariocas.com/cinema/criticas/lucinha-no-cinema/planeta-dos-macacos-a-guerra/