Críticas Lucinha no Cinema

Presságios de um Crime

Imagine a cena. Fulana acabou de saber que tem uma doença terminal. O futuro é incerto, mas ela tem três opções. Pode fazer um tratamento paliativo, servir de cobaia para um medicamento novo no mercado, ou não fazer nada e esperar até o momento em que, perdendo o controle sobre seu corpo, poderá por fim ao sofrimento, conforme desejo já formulado.

Esqueça. Isso faz parte de um mundo ideal. Infelizmente ainda não temos esse controle sobre nossa vida, muito menos em relação ao fim dela. Mas às vezes as pessoas imaginam e a discussão aparece. É o caso do filme ‘Presságios de um crime’ (‘Solace’), dirigido pelo brasileiro Afonso Poyart, seu segundo filme depois de ‘2 Coelhos’ (2012), considerado um filme inovador no cinema brasileiro.

Como ocorre muitas vezes, os distribuidores brasileiros alteraram o sentido do título. Pelo original,solace, teríamos algo como conforto, consolo, alívio. Mas ficamos mesmo com prenúncio, ou melhor presságios de um crime. A impressão é que o drama sobre eutanásia, ou qualquer reflexão sobre misericórdia, dignidade ou ato humanitário, cedeu lugar ao suspense policial, ao ‘serial killer’. O filme trata disso sim, mas como veículo de uma coisa maior, com certeza!

Quando o agente do FBI Joe Merriwether (Jeffrey Dean Morgan) encontra-se de mãos atadas frente a uma série de homicídios ainda sem pistas concretas, ele decide recorrer à ajuda de seu ex-colega, o médico aposentado e consultor civil Dr. John Clancy (Anthony Hopkins). Mas o recluso Clancy não quer se envolver no caso nem usar suas habilidades especiais, algo que deixou no passado quando fechou seu consultório e retirou-se do mundo após a morte de sua filha e o divórcio que logo seguiu-se à tragédia.

Mas Clancy muda de ideia quando tem visões de imagens perturbadoras e violentas da mais nova parceira de Joe, a cética agente especial do FBI Katherine Cowles (Abbie Cornish), seguidas ainda por algo que ele interpreta como uma mensagem pessoal. Quando os excepcionais poderes de Clancy colocam esse estranho trio de investigadores na forte trilha de um suspeito, Charles Ambrose (Colin Farrell), o médico logo percebe que suas habilidades podem ser insuficientes para solucionar os crimes.

Falar sobre a eutanásia não é novidade no cinema. Muitos ótimos filmes, como ‘Mar adentro’, ‘Uma primavera com minha mãe’, ‘Menina de Ouro’, ‘Amor’, ‘As invasões bárbaras’ e ‘A festa de despedida’ sempre são incluídos nas listas do gênero. As estórias são edificantes, os personagens incríveis e inesquecíveis, mas as transformações na vida real têm sido lentas, ou inexistentes na maior parte dos países.

Colocar a questão num suspense policial tem suas vantagens. É realmente inusitado, traz frescor ao tema, além de colocar um pouco de ação e reviravoltas num drama tão difícil e ignorado. A escolha de Poyart foi acertada, pois sua direção é dinâmica, com muita cor, som e imagens fora do contexto usual de roteiros sobre o tema. O elenco também se sai muito bem, com destaque para Hopkins, que consegue demonstrar o enorme sofrimento que um dom pode proporcionar, além de Farell, um misericordioso ‘serial killer’.

A abordagem realmente se afasta do padrão. Foi preciso apelar para a clarividência, os super-heróis modernos do mundo ideal, para lidar com as agruras do ser humano e questões tão além das nossas limitadas possibilidades terrenas.

Que ninguém escapa da velhice, do sofrimento e da morte, não há a menor dúvida. A questão que se impõe, na verdade, é a quem compete decidir como viver, se isso for possível, os últimos anos, meses, dias, horas ou segundos do resto de nossas vidas. Como diz aquele outro belo filme sobre o direito de viver ou morrer, de quem é a vida, afinal?

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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