Críticas Lucinha no Cinema

Raça

Consta do noticiário mundial, que certa feita, por conta de uma dessas críticas dos Estados Unidos à situação dos direitos humanos na China, algum porta-voz do governo chinês teria respondido que a questão dos direitos humanos é relativa, lembrando que muitos americanos, até a década de 1960, não podiam frequentar os mesmos locais que outros. Hipocrisias e pragmatismo à parte, o que se viu e se continua a ver, no mundo como um todo, são conflitos raciais que se perpetuam e pouca ou nenhuma intenção de cada país olhar seu próprio umbigo e fazer uma verdadeira e eficiente autocrítica.

Direitos humanos, qual o seu conceito? Ou, quiçá, preconceito, sub-reptício naturalmente, pois quem admite que os tem? Quem quer que se dê ao trabalho de pesquisar, confirmará que direitos humanos são os direitos básicos de todos os seres humanos. E aí estão compreendidos os direitos civis e políticos, direitos econômicos, sociais e culturais, direitos difusos e coletivos. Definição muito vasta e complexa. A Declaração Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas afirma que todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Perfeito, filosoficamente falando. Na prática, nem tanto, nem tanto, infelizmente.

Apesar de todas as boas intenções dos poderosos ao longo da história da humanidade, as diversas declarações dos direitos do homem e do cidadão sempre deixaram brechas para que alguns fossem mais iguais que outros. Mesmo com a criação da ONU, por conta das atrocidades vividas durante a Segunda Guerra Mundial, a tão desejada paz mundial continua no imaginário, no desejo mais recôndito do ser humano.

Depois de tantas lutas e outras tantas leis, a cinebiografia ‘Race’ [Race], do diretor britânico Stephen Hopkins (‘Predador 2’, ‘Contagem Regressiva’, ‘A sombra e a escuridão’, ‘Perdidos no Espaço’, ‘A vida e a morte de Peters Sellers’ e alguns episódios da série ’24 Horas’), ainda causa espanto, tristeza e questionamentos. O longa conta a vitoriosa história do esportista americano Jesse Owens, que brilha nas pistas de atletismo dos Jogos Olímpicos de Berlim de 1936. Na competição ele vence as provas dos 100m, 200m, revezamento 4x100m e salto em distância, ganhando quatro medalhas de ouro e desmoralizando o preconceito em pleno território comandado pelo ditador Adolf Hitler, que prega o nazismo e a doutrina da supremacia da raça ariana.

James Cleveland Owens, conhecido como Jesse Owens, por conta de um mal-entendido decorrente de seu sotaque sulista, nasceu (12/9/1913) numa família pobre e numerosa em Oakville, no Alabama, e começou sua vida de esportista em 1930, depois que sua família se mudou para Ohio, competindo no ensino médio, no Fairmount High School em Cleveland. Logo em seguida tentou a seletiva para as Olimpíadas de Los Angeles, em 1932, mas não conseguiu se classificar. Em 1933 Owens começou a mostrar que era um fenômeno, conquistando 75 vitórias em 79 provas ao longo do ano e, de quebra, bateu o recorde mundial das 100 jardas (9s40). Em 1935, na seletiva dos Jogos Olímpicos de 1936, Owens venceu 4 provas, em um intervalo de 75min.

No longa, Jesse Owens é conduzido brilhantemente pelo ator canadense Stephan James, de 22 anos, que tem oito filmes em seu currículo, entre os quais ‘Selma: Uma luta pela Igualdade’, com indicação de melhor ator coadjuvante pela Canadian Screen Award. Participam, também, Jason Sudeikis, como Larry Snyder, o obsessivo e romântico Técnico de Owens e Jeremy Irons, o inescrupuloso empresário Avery Brundage, que se tornou o chefe do Comitê Americano na Olimpíada, e lutou para que os EUA não boicotassem os Jogos Olímpicos em Berlim, por conta do crescente nazismo alemão. Completam o elenco William Hurt, como Jeremiah Mahoney, presidente da União Atlética Amadora dos USA, contrário à participação dos americanos naquela Olimpíada e Carice van Houten, como Leni Riefenstahl, a cineasta alemã preferida de Hitler, responsável pelo documentário ‘Oympia’, de 1938, que serviu como propaganda do nazismo ao mostrar o sucesso dos Jogos Olímpicos em Berlim, considerado o mais grandioso, bem realizado, rico e politicamente explorado dos jogos olímpicos até então, quando a Alemanha ficou em primeiro lugar, com 33 medalhas de ouro, 26 de prata e 30 de bronze, seguida pelos EUA, com 24 medalhas de ouro, 20 de prata e 12 de bronze, entre os 49 países, com 3963 atletas, em 22 modalidades esportivas. O documentário ‘Olympia’, aliás, utilizando técnicas de realização inéditas para a época, se tornou o padrão na filmagem de eventos desportivos.

Por conta da participação em corridas bizarras (contra carros, motos e animais), logo depois das Olimpíadas de Berlim, e com a justificativa de que um campeão olímpico não poderia passar por essas situações degradantes, Owens foi expulso da Associação Amadora de Atletismo, e perdeu as medalhas de ouro. Mesmo depois de todas as conquistas e da fama mundial, Owens só conseguiu trabalhos medíocres e morreu pobre, sem reconhecimento em seu país, aos 66 anos, de câncer no pulmão, em Tucson, no Arizona (31/03/1980).

O roteiro, de Anna Waterhouse e Joe Shrapnel, faz um bem sucedido contraponto entre o então racismo americano e o nazismo alemão. Em todas as oportunidades, as teorias de supremacia dos indivíduos são colocadas lado a lado e, tanto nos EUA de então, como na Alemanha Nazista, as dificuldades dos grupos considerados inferiores se equiparam. As atitudes preconceituosas e discriminatórias são exatamente as mesmas, independente das etnias ou dos grupos considerados. Esse é, na verdade, o grande trunfo do filme. Descobrir que seriam tratados como iguais, na Vila Olímpica, comendo e dormindo lado a lado com os brancos, causou espanto e boas recordações para os atletas negros da equipe americana. Aliás, por conta da segregação então vigente, os negros americanos só puderam competir individualmente. Na mesma Olimpíada, os atletas americanos de religião judaica também foram hostilizados, acabando por não competir, o que garantiu a quarta medalha de ouro para Owens no revezamento 4x100m.

O movimento por direitos civis para negros americanos ganhou força no fim da década de 1950 e começo da década de 60, com manifestações gigantescas forçando a sociedade a encarar o problema. O debate chegou ao Congresso Americano, que aprovou as leis dos direitos civis (1964) e do direito ao voto (1967), encerrando a segregação institucionalizada. A segregação de fato, infelizmente, nunca acabou. Nem lá nem em lugar algum. Diferenças em qualidade de vida, oportunidades, educação, emprego e saúde são recorrentes mundo afora. Uma das cenas mais emblemáticas do longa mostra a mesma platéia hostilizando Jesse Owens, quando ele chega para as provas classificatórias da Olimpíada, e o aclamando vivamente depois das fantásticas vitórias. Também é emblemática a cena em que ele é obrigado a entrar pela porta de serviço do hotel onde seria homenageado com um jantar de gala e um menino branco, que trabalhava no elevador de cargas, lhe pede um autógrafo.

Owens teria declarado que o que mais o magoou não foi a atitude de Hitler de não o cumprimentar nas diversas provas que venceu (fato, aliás, cercado de controvérsias, pois o Chanceler teria desistido de descer da tribuna de honra, em razão do tumulto e do atraso acarretado à evolução normal das competições), mas o fato do presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt não lhe ter mandado sequer um telegrama felicitando-o por suas conquistas na Olimpíada. Na verdade, até 2012, não tinha recebido qualquer aceno ou manifestação oficial do governo, quando foi imortalizado no IAAF Hall of Fame, criado no mesmo ano como parte das celebrações pelo centenário da Associação Internacional de Federações de Atletismo – IAAF.

Algumas pessoas são visionárias e servem de estímulo e de esperança. Para mostrar que não foi fácil, apesar do dom que parecia deter, Jesse Owens teria dito: ‘Nós todos temos sonhos. Mas, para tornar os sonhos realidade, é preciso uma enorme quantidade de determinação, dedicação, autodisciplina e esforço.’ Outro mito que se encaixa perfeitamente na questão dos direitos humanos é Nelson Mandela , que certa feita vaticinou: ‘Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender. E, se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinados a amar.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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