Críticas Lucinha no Cinema

Rodin

Expressões tais como – ‘gosto não se discute’, ‘o que é de gosto regala a vida’ ou ‘há gosto para tudo’-  podem ser vistas como verdades absolutas ou simples concessão a emoções e crenças pessoais? Certamente, ninguém pode ser obrigado, assim como condenado ou criticado por gostar de alguém ou de alguma coisa.

Tanto na arte, quanto na vida cotidiana, os conceitos de bom e mau gosto variam de pessoa para pessoa. Efetivamente, não há como rejeitar ou limitar julgamentos em razão de vivências ou expectativas pessoais. No máximo, poderíamos discutir as bases de tais opiniões ou juízos de valor. E, evidentemente, combater julgamentos com base em preconceitos ou na ignorância.

Essas questões me vieram à mente por conta das críticas negativas a “RODIN”, cinebiografia escrita e dirigida pelo ator, produtor, roteirista e diretor francês Jacques Doillon (‘Ponette’ – 1996, ‘La Femme qui Pleure’ – 1979, entre outros mais de trinta filmes desde 1973) e indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes 2017, além de ter recebido também indicações pelas interpretações masculina e feminina no mesmo festival.

Assim como Jacques Doillon, François-Auguste-René Rodin, mais conhecido como Auguste Rodin também foi muito criticado, principalmente por  seus primeiros trabalhos, considerados ‘modernos demais’ para os padrões neoclássicos da época. Em 1864, por exemplo, Rodin teve sua primeira obra – ‘O Homem de Nariz Quebrado’ – rejeitada pelo Salão de Paris, por considerá-la uma obra inacabada. Ele teria tentado entrar nesse salão outras vezes sem sucesso.

Nascido em 12 de novembro de 1840, Rodin sofreu forte influência de Michelângelo, que o teria libertado do padrão acadêmico, levando-o a experiências em modelos vivos, para moldes em argila, que integram ainda hoje inúmeras mostras por conta do centenário de sua morte, em 17 de novembro de 1917.

O filme se passa em 1880, quando o escultor Auguste Rodin (Vincent Lindon), apesar de bastante conhecido, ainda não havia conseguido qualquer encomenda oficial. Esta oportunidade chega aos 40 anos de idade, com a escultura “La Porte de l’Enfer”, feita para o Museu de Artes Decorativas de Paris, logo depois da Exposição Universal, onde Rodin expôs 168 esculturas em gesso, 128 desenhos e 71 fotografias, tornando-se conhecido e aclamado pela crítica e pelo público.

Enquanto trabalha, ao lado da esposa Rose Beuret (Séverine Caneele), apaixona-se pela aluna Camille Claudel (Izïa Higelin), sua aprendiz mais talentosa, que se torna sua amante. Quando este relacionamento escondido acaba, Rodin muda radicalmente a forma de seus trabalhos.

A época retratada pelo roteiro relembra o momento de virada de Rodin – entre 1880 e 1890, período em que criou algumas das suas obras mais famosas, como ‘Balzac’, encomendada pela Societé des Gens des Lettres para ser colocada na praça do Palais Royal em Paris. Essa obra gerou uma série enorme de moldes em argila, todos recusados, por não se enquadrarem no paradigma criado pelos contratantes. Ao final, Rodin incluiu um roupão, que não só escondeu a enorme barriga de Balzac, como deu dignidade ao criador do romance moderno.

Da mesma época há ‘O Beijo’ e ‘O Pensador’, que fazem parte da série de esculturas realizadas para compor o portal denominado ‘Porta do Inferno’/’La  Porte de L’Enfer’), baseado na ‘Divina Comédia’ de Dante Alighieri,  encomendada em 1880 para o Museu de Artes Decorativas de Paris, anteriormente assolado por um incêndio. A obra levou 37 anos para ser concluída, mas a cobertura de bronze só foi colocada depois da morte de Rodin. Há relatos de que já foram fundidas sete portas em bronze,  expostas em museus pelo mundo.

O mais irônico, no que se refere às críticas ao filme, diz respeito ao pequeno papel que Doillon oferece à Camille Claudel na vida de Rodin. Os biógrafos de ambos atestam que Camille começou seus estudos na oficina de Rodin por volta de 1884, tornando-se sua inspiração, modelo, confidente e amante até 1892, quando rompem o relacionamento íntimo.

Rodin já vivia com Rose Beuret, desde 1864, com quem teve um filho (Auguste-Eugène Beuret 1866-1934) e com quem ficaria até o fim de sua vida. Os franceses, aliás, veem Rose como uma espécie de Amélia, a mulher sofredora mas sempre ao lado do marido infiel.

Certamente que Camille influenciou e foi influenciada por Rodin. Mas a vida e a obra de Rodin não se resumem a Camille Claudel, que ficou quase trinta anos num hospital psiquiátrico, para onde foi pouco depois do rompimento, e onde morreu em 1943. Camille Claudel foi ignorada como escultora até 1970, quando suas obras começaram a ser expostas. Sua obra mais conhecida, ‘Perseu e Górgona’, trabalho executado em 1902, encontra-se exposta no Museu Camille Claudel, recentemente inaugurado em Nogent-sur-Seine.

Nas palavras de Doillon, tudo o que Rodin diz ou faz no filme é resultado de muita pesquisa, mas também de muita fantasia. Como Rodin não gostava de escrever, tudo o que se sabe dele vem daqueles que conviveram com ele, como Paul Cézanne e Claude Monet, entre outros artistas seus contemporâneos.

Outra das críticas ao filme diz respeito à vida amorosa de Rodin. Parece que muitos não aceitam a visão de que ele, assim como a maioria dos artistas geniais da história da humanidade, era um homem sedutor, cortejado por suas modelos.  E suas obras retratam essa sedução, essa sensualidade. Ele era obcecado pelos detalhes e amante do corpo feminino. Suas magníficas esculturas evocam sentimentos de paixão, êxtase, sofrimento e parecem congelados no tempo.

Nas palavras do próprio Rodin, ‘o que faz meu Pensador pensar é que ele pensa não apenas com o cérebro, com sua testa enrugada, suas narinas dilatadas, lábios comprimidos, mas com cada músculo de seus braços, costas e pernas, com seu punho cerrado e dedos dos pés crispados em garras.’

O “RODIN” de Jacques Doillon pode não ser uma obra prima como ‘O Pensador’ de Rodin, mas nos ajuda a entender a importância desse artista genial. Poderia ser diferente, poderia ser melhor, mas é o que temos e certamente vale a pena ser visto. Não só pelo trabalho do diretor, como do elenco e da bela homenagem ao magnífico pai da escultura moderna: Auguste Rodin!

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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