Críticas Lucinha no Cinema

Sete homens e um destino

O que leva um bando de foras-da-lei a arriscar a própria vida para defender uma pequena cidade nascente, aterrorizada por um industrial corrupto e tirano? E como explicar que, mesmo entre bandidos, possam imperar valores tais como um ideal de justiça, a defesa do mais fraco contra o forte opressor ou, simplesmente, algum vestígio daquilo a que chamamos de honra?

Provavelmente, tudo se explicaria ou se justificaria pela presença de um líder. Muitas pessoas têm habilidades manuais, outras carisma, coragem, visão estratégica, curiosidade e até sabedoria. Mas, a função de liderança, essa é rara. Aliás, a capacidade de orientar, chefiar e conduzir, detida pelos chamados líderes, mudou o destino da humanidade ao longo da sua história. E, felizmente, na maioria das vezes, no fim de cada período dessa história, fez toda a diferença.

E o chamado cinema western se apropriou desses tipos para criar verdadeiros clássicos, entre os quais desponta ‘Sete Homens e um destino’, [The Magnificent Seven], dirigido em 1960 por John Sturges, que ora se renova na refilmagem do diretor e produtor de cinema americano Antoine Fuqua, mais conhecido pelo longa ‘Dia de Treinamento’ (2001), filme policial americano, que consagrou Denzel Washington com o Oscar de melhor ator, além de servir para a indicação de Ethan Hawke ao Oscar de melhor ator coadjuvante.

Nesta refilmagem de 2016, ao invés de um pequeno vilarejo mexicano, temos Rose Creek, que cresce à sombra de uma grande mina de ouro, sob o controle mortal do tirano Bartholomew Bogue (Peter Sarsgaard). Seus cidadãos, abandonados à própria sorte pelos homens da lei local, corrompidos pelo tirano, são liderados pela viúva de um dos fazendeiros atacados, Emma Cullen (Haley Bennett), e contratam sete foras-da-lei, para protegê-los.

E eis que surge o líder, o caçador de recompensas Sam Chisolm (Denzel Washington), que arregimenta o jogador com conhecimento em explosivos, Josh Farraday (Chris Pratt), o veterano confederado e pistoleiro Goodnight Robicheaux (Ethan Hawke), o rastreador e caçador Jack Horne (Vincent D’Onofrio), além dos ‘estrangeiros’, o oriental e hábil manipulador de facas Billy Rocks (Lee Byung-hun), o mexicano fora-da-lei Vasquez (Manuel Garcia-Rulfo) e o guerreiro Red Harvest (Martin Sensmeier), fugitivo da tribo Comanche.

Na versão de 1960, os habitantes sofrem constantes ataques de um bando de pistoleiros liderados pelo temido Calvera (Eli Wallach). Cansados de serem saqueados, alguns moradores locais que não têm armas e muito menos temperamento violento viajam até a fronteira, onde encontram Chris (Yul Brynner) e Vin (Steve McQueen), dois pistoleiros desempregados que estão dispostos, não pelo dinheiro mas pela aventura, a reunir mais cinco outros foras-da-lei, que concordam por motivos diversos, a defendê-los de Calvera.

Esse faroeste fez tanto sucesso, que gerou três continuações: em 1966, ainda com Yul Brynner em ‘A volta dos Sete Magníficos [Return of The Seven], em 1969, com George Kennedy em ‘A revolta dos Sete Homens’ [Guns of The Magnificent] e, em 1972, com Lee Van Cleef em ‘A fúria dos Sete Homens’ [The Magnificent Seven Ride!].

O clássico faroeste americano é uma releitura de ‘Os Sete Samurais’, do diretor e roteirista japonês Akira Kurosawa, vencedor do Leão de Prata no Festival de Veneza de 1954. E, por mais incrível que possa parecer, Kurosawa pincelou seus filmes históricos com o dinamismo e as recriações típicas do western de John Ford, assim como adaptou obras de clássicos como Rei Lear e Macbeth de Shakespeare, além de O Idiota e Humilhados e Ofendidos de Dostoiévski.

Nesse longa, Kurosawa retrata o Japão do século XVI, durante a Era Sengoku. Os temas da versão japonesa são recorrentes na versão americana: fome, violência, banditismo, desordem e miséria social, morte, guerras, estratégia militar, obediência, aprendizado.

Tal como no Velho Oeste, não havia como confiar nos homens da lei, razão pela qual procurar os samurais, guerreiros profissionais do Japão de então, era a única opção. Conhecidos pela disciplina, lealdade e habilidade nas artes marciais, eram soldados da aristocracia japonesa, que se tornaram a classe dominante entre 930 e 1868, quando perderam o poder, após a restauração Meiji, com a retomada do poder pelo Imperador.

Lá como na América, os forasteiros preparam a cidade para o combate violento, mas descobrem que estão lutando por mais do que apenas dinheiro ou comida. No final, tanto os samurais quanto os foras-da-lei sobreviventes constatam que os verdadeiros vencedores são os camponeses, ora plantando a próxima safra de arroz, ora lidando com o gado. Graças à guerra então travada, a paz foi restabelecida. Pelo menos até o próximo tirano da vez.

A violência de defesa é totalmente diferente da originada pelos ataques dos bandidos. E esse é um dos argumentos explorado pelos roteiros, tanto de Kurosawa, quanto de Sturges ou de Fuqua. Além disso, todos enfocam o respeito às diferenças sociais e pessoais, aos dramas cotidianos, aos épicos da história, às disputas políticas e sociais.

Os westerns, considerados o verdadeiro cinema americano, são clássicos e sempre vale a pena revê-los, mesmo quando a refilmagem inclui mudanças para reafirmar a diversidade cultural, de gênero ou de etnia ou o que quer que a época exija.

Com esta nova versão de ‘Sete Homens e um destino’, além de podermos revisitar o clássico de 1960 e relembrar Kurisawa, foi pura nostalgia poder ouvir em meio a trilha sonora de Simon Franglen e James Horner (ganhador do Oscar de 1997 com ‘My Heart Will Go on’, trilha sonora de ‘Titanic, falecido em 2015), a maravilhosa e emblemática trilha sonora da versão original de 1960, de Elmer Bernstein, indicada ao Oscar de melhor trilha sonora de 1961. Assim como os samurais, poder servir ao próximo é magnífico!

Comentários

Print this entry

Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

Obrigado por visitar o nosso site.

Facebook
%d blogueiros gostam disto: