Críticas Lucinha no Cinema

‘Spotlight – Segredos revelados’

Você acha que remorso e arrependimento são a mesma coisa? Então pense num padre que diz ‘eu tive relacionamentos com eles mas não tive qualquer prazer’. Parece estranho, mas foi um dos comentários obtidos pelos repórteres do jornal Boston Globe, que investigaram, durante pelo menos dois anos, a denúncia de pedofilia por membros da Igreja Católica de Boston.

Fica a impressão de que ele teve um sentimento de remorso, talvez movido pelos questionamentos da sociedade, quem sabe da própria comunidade religiosa, mas não exatamente um arrependimento, uma constatação da culpa, além da incapacidade de perceber a total falta de inadequação de seu comportamento, tanto frente à moral da sociedade quanto aos padrões da Igreja católica.

Mas, até que ponto e de que forma podemos ou devemos julgar tais comportamentos? São questões simplesmente morais, éticas ou desvios de comportamento sujeitos a tratamentos médicos? Por onde andariam os sentimentos religiosos de culpa, a efetiva existência de uma consciência moral pessoal?

Quaisquer que sejam suas respostas, você ficará chocado ao descobrir o que aconteceu. Mesmo sabendo que muito já foi escrito e que aqueles terríveis segredos foram revelados, não há como não se surpreender ou mesmo se horrorizar com tais fatos. E a primeira pergunta que surge – por que ninguém fez nada para evitar que esses acontecimentos se repetissem, quando se constata que há relatos de abuso por 70 religiosos durante 30 anos?

A grande tristeza ou melhor dizendo, a maior perturbação é constatar como os religiosos e as pessoas fora da Igreja lidaram com o assunto tentando ‘resolver’ a questão, quando na verdade buscavam esconder as consequências, escamotear os fatos.

E tudo começou com uma pequena equipe daquele jornal, a’Spotlight’, responsável por matérias especiais, partir da investigação de casos obscuros ou de denúncias de crimes. Tais trabalhos de pesquisa, que poderiam suscitar tempo muitas vezes inadequado para a redação normal de um jornal, mostram-se, no entanto, necessários para a efetiva comprovação dos fatos que lhe deram origem.

Por sugestão do novo Editor Geral do Boston Globe, Marty Baron (Liev Schreiber), o grupo de investigação formado pelos repórteres Michael Rezendes (Mark Ruffalo), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) e Matty Carroll (Brian d’Arcy James), chefiado pelo editor Walter Robinson (Michael Keaton), se dedica à pesquisa do caso, tanto na redação, com as informações eventualmente registradas e abandonadas no passado, quanto nas ruas, junto às vítimas e seus advogados, entre os quais se destaca Mitchell Garabedian (Stanley Tucci), com os padres e representantes da Arquidiocese local.

Além de contar com uma equipe brilhante de atores, o grande lance do diretor e roteirista Tom McCarthy foi conduzir o filme como se nós, os espectadores, fizéssemos parte daquela equipe, participando das pesquisas em campo, das entrevistas, conhecendo as denúncias, envolvendo-nos no sofrimento das vítimas, no drama dos parentes, na burocracia da polícia e da justiça e na hipocrisia dos poderosos, tanto na Igreja, quanto na sociedade.

Infelizmente, tudo aconteceu de verdade, e a história rendeu não só uma denúncia bombástica na sociedade católica de Boston, como um livro, vencedor do Prêmio Pulitzer de Jornalismo de 2003. Por uma dessas estranhas coincidências, a matéria seria revelada em 2001, mas a edição foi postergada, em razão dos fatos marcantes ocorridos no atentado no World Trade Center.

Quando o filme termina, a questão que fica no ar e nas mentes é se tudo teria acontecido da mesma forma se as cerca de 1500 vítimasnão fossem filhos de desfavorecidos. Como se permitiu que a conivência da Igreja Católica com o Sistema Judiciário acobertasse esses crimes?

Felizmente, no entanto, a publicação ocorreu, e antes tarde do que nunca, graças, principalmente, à liberdade de imprensa reinante nos EUA. O maior mérito tanto da denúncia do Boston Globe, quanto do filme foi romper sigilos, reações locais, nacionais e internacionais, a ponto de até hoje a Igreja Católica ainda falar em mudanças e apelar para o perdão dos crimes cometidos em nome dafé.

spotlight-segredos-revelados-foto3spotlight-segredos-revelados-foto2

Comentários

Print this entry

Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

Deixe um comentário

%d blogueiros gostam disto: