Críticas Lucinha no Cinema

Stefan Zweig – Adeus, Europa

Imagine o Mundo antes da Segunda Guerra Mundial: profunda crise econômica, alimentando e sendo realimentada por grandes tensões políticas e sociais em vários países, além de um crescente nacionalismo revanchista, que gerava agressões e regimes fascistas, especialmente na Alemanha, na Itália e no Japão.

O Tratado de Versalhes (formalizado em 1919 por 33 países, encerrando oficialmente a Primeira Guerra Mundial) impôs grandes perdas territoriais e financeiras à Alemanha e, por ter sido recebido pelos alemães com grande choque e humilhação, teria contribuído, como afirmam muitos historiadores, para a ascensão de Adolf Hitler e do Nazismo.

Nesse ambiente de progressiva desestruturação da ordem mundial, muitos buscavam lugares menos perigosos para viver. E esse era também o desejo de Stefan Zweig (1881-1942), escritor, romancista, poeta, dramaturgo, jornalista e biógrafo austríaco de origem judaica, que decide fugir do nazismo na Europa, passando por Buenos Aires e Nova York, antes de decidir-se pelo Brasil.

Depois de conhecer parte considerável do país, Stefan Zweig se instala em Petrópolis, onde o clima ameno tinha mais proximidade com sua Viena natal. Ali, sentindo-se abrigado das intempéries que se sucediam pelo mundo, começa a escrever um livro sobre a nova terra. Ao mesmo tempo em que se imagina livre do clima de antissemitismo que precede a Segunda Guerra Mundial, Zweig fica atormentado com o crescimento da intolerância, da barbárie e do autoritarismo na Europa.

Esse é o ambiente de “Stefan Zweig – Adeus, Europa” [Stefan Zweig: Farewell to Europe], drama biográfico dirigido pela atriz e roteirista alemã Maria Schrader (Urso de Prata de Melhor Atriz em 1999), com roteiro de Jan Schomburg, a partir do livro “Morte no Paraíso: A tragédia de Stefan Zweig” (1981), do escritor brasileiro Alberto Dines, cuja obra já havia sido adaptada para o cinema por Sylvio Back em 2002, no filme “Lost Zweig”.

A estrutura do longa-metragem lembra a de um livro, com seis partes distintas, incluindo um prólogo, um epílogo e quatro capítulos intermediários, que retratam episódios da vida do escritor entre 1936 e 1942. O filme não é exatamente uma obra-prima, aliás, deixa muito a desejar, tanto nos aspectos técnicos de som e imagem, quanto nos detalhes e referências históricas, especialmente no que se refere à reconstituição da época em que tudo se passou.  Mas, como trata de rever aspectos inerentes à história brasileira, o drama nos atrai, não só pela curiosidade de saber o por quê desse encantamento de Zweig pelo Brasil, como por aquilo que o filme não mostra, pelo que nos fica devendo.

Para começo de conversa, apesar de se referir, em grande parte, ao tempo em que Zweig morou no Brasil, o longa-metragem não teve a participação de atores brasileiros e foi rodado totalmente fora daqui: parte em Lisboa (na casa do presidente da Câmara de Lisboa, como se fosse em Buenos Aires) e parte na República Democrática de São Tomé e Príncipe, estado insular localizado no Golfo da Guiné, África Central, composto por duas ilhas principais e várias ilhotas (como se fosse na Bahia e em Petrópolis).

A produção teria optado por essas locações, segundo depoimento da própria diretora, em razão do orçamento limitado e pela língua oficial desses países ser o português, não obstante os sotaques serem totalmente distintos, como bem sabemos. Infelizmente, temos que considerar tal decisão lamentável – uma grande decepção para qualquer  brasileiro que tenha assistido ao filme – uma vez que o longa-metragem perdeu a rara oportunidade de prestar a verdadeira homenagem ao escritor e à fonte de seus devaneios.

Certamente, o Brasil e a cidade de Petrópolis – no momento das filmagens – seriam bem distintos daqueles lugares que receberam Zweig em 1940. Na prática, qualquer cineasta experiente saberia muito bem lidar com essas mudanças e suas adaptações. Mas, Maria Schrader parece ter perdido muito mais: caso ela tivesse valorizado a verossimilhança  das locações, teria tido a rara oportunidade de entender o fascínio que o Brasil e os brasileiros exerceram sobre ele, num momento tão peculiar da existência de um dos mais famosos e bem-sucedidos escritores que o mundo conheceu.

Stefan Zweig era, no início do Século passado, entre as décadas de 1920 e 1930, um dos mais populares autores europeus. Escreveu sobre a vida e obra de muitos escritores – Dickens, Tolstói, Dostoiévski, Hölderlin, Nietzsche, Balzac, Stendhal, entre outros, mas também se interessou por figuras históricas como Maria Stuart, rainha da Escócia, ou o navegador português Fernão de Magalhães.

Quando Hitler chegou ao poder na Alemanha, em 1933, a influência dos ‘nazis’ rapidamente se fez sentir na Áustria, persuadindo o escritor e sua segunda mulher, Lotte Altman (Aenne Schwarz) a partir para Londres. Com a invasão da França pela Alemanha, marcando o início da Segunda Grande Guerra Mundial, o casal deixa definitivamente a Europa, partindo para os Estados Unidos. Mas, eis que novamente a guerra os persegue – com a entrada dos americanos no front de batalha junto aos aliados, depois do ataque a Pearl Harbor – forçando o casal Zweig a se mudar novamente de país, desta vez para o Brasil.

Coincidência ou não, justo quando o Brasil resolve sair da neutralidade, depois do torpedeamento de embarcações brasileiras por submarinos alemães e italianos, em fevereiro de 1942, Stefan Zweig e sua mulher Lotte se suicidam, na mesma casa alugada há apenas cinco meses em Petrópolis. A barbárie nazista tinha se espalhado muito mais rápido e por mais lugares do que se poderia imaginar.

 E agora, Stefan Zweig não tinha como ajudar, nem a si próprio, nem aos que precisavam fugir do caos em que o mundo se transformou, assim como ele já tentara antes.

E, lembra daquele livro que Zweig resolveu escrever sobre o Brasil? Pois, adivinhe o título: “Brasil, País do Futuro”. Todos sabemos como os brasileiros estão cansados e, hoje mais do que nunca, descrentes de ouvir falar que o Brasil é o país do futuro. Essa conhecida alcunha, criada carinhosamente por um apaixonado pelo Brasil –  como foi Stefan Zweig – virou, infelizmente, uma grande piada.

Apesar de tudo, parece que o livro é uma ótima biografia do Brasil, a partir de uma cuidadosa e detalhada pesquisa e experiência pessoais, com explicações econômicas, políticas, sociais e culturais da nossa razão de ser.

Embora a II Guerra já estivesse em seu auge, a obra foi um sucesso de vendagem, com edições em vários países e idiomas, não obstante a crítica tê-la recebido de modo negativo – por conta dos elogios considerados exagerados, lembrando-se que o país se achava em plena ditadura de Getúlio Vargas.

O livro é um trabalho apaixonado de quem conheceu o Brasil e os brasileiros, retratando seu passado, as experiências aqui vividas como um exilado e uma expectativa, mais do que promissora, do que seria o futuro de uma terra calorosa e pacífica, não obstantes todas as diferenças de etnias, classes, crenças e opiniões.

Sabendo-se, no entanto, das razões pelas quais Zweig precisou deixar a Europa, temos que admitir que ele teve muita condescendência com tudo o que viu e viveu por aqui. Além desse olhar complacente, emoldurado pelo padrão de um europeu deprimido, ele  parece também ter errado em suas previsões sobre um futuro próspero e  promissor, cada vez mais distante da realidade, como bem sabemos hoje.

“Antes de deixar a vida por vontade própria e livre, com minha mente lúcida, imponho-me última obrigação; dar um carinhoso agradecimento a este maravilhoso país que é o Brasil, que me propiciou, a mim e a meu trabalho, tão gentil e hospitaleira guarida. A cada dia aprendi a amar este país mais e mais e em parte alguma poderia eu reconstruir minha vida, agora que o mundo de minha língua está perdido e o meu lar espiritual, a Europa, autodestruído. Depois de 60 anos são necessárias forças incomuns para começar tudo de novo. Aquelas que possuo foram exauridas nestes longos anos de desamparadas peregrinações. Assim, em boa hora e conduta ereta, achei melhor concluir uma vida na qual o labor intelectual foi a mais pura alegria e a liberdade pessoal o mais precioso bem sobre a Terra. Saúdo todos os meus amigos. Que lhes seja dado ver a aurora desta longa noite.

Eu, demasiadamente impaciente, vou-me antes. – Stefan Zweig”

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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