Críticas Lucinha no Cinema

Steve Jobs

O título do filme ‘Steve Jobs’ é efetivamente simples e direto. Todo mundo sabe, mesmo sem ler a resenha, de quem se trata. É praticamente um título autoexplicativo. Mas se houvesse outro, esse até poderia ser ‘Jobs, o homem-marketing’: aquele que identifica a necessidade e cria a oportunidade.

Sem sombra de dúvida, a única certeza que se pode ter da vida atribulada e cheia de curiosidades desse inventor, empresário e magnata é que ele estava à frente do seu tempo. Ele tinha o dom de despertar as necessidades reprimidas das pessoas e transformá-las em objetos de desejos. Os consumidores da Apple, aliás, eram e continuam a ser, mesmo depois da era Jobs, muito mais que clientes satisfeitos, são clientes encantados!

E isso tudo é revelado aos poucos, com muitos diálogos, discussões e ‘lavação de roupa suja’ em público, de forma despudorada, quase agressiva, à beira de um ataque de nervos.

Steve Jobs não era fácil, como todo mundo está cansado de saber. Mas o protagonista (Michael Fassbender, em fantástica atuação), pautado nos seus dramas pessoais, passeia pelos fatos e versões empresariais, quase como que numa cartase, passando a limpo o passado genial, porém turbulento.

Os demais personagens, todos complexos, pontuados por ótimas atuações, também carecem de atenção constante de Jobs. Desde a discussão da paternidade da filha Lisa, passando pela baixa autoestima do primeiro sócio, Steve Wozniak (Seth Rozen), ou pelos questionamentos da efetiva liderança do CEO da Apple John Sculley (Jeff Bridges), até as oportunas e utilíssimas intervenções da diretora de marketing Joanna Hoffmann (Kate Winslet), todos são isolada ou conjuntamente importantes na vida de Jobs, e sem eles provavelmente o gênio não teria saído da garrafa, ou a própria Apple não teriam existido.

Falando assim, sem saber como isso tudo foi elaborado, até parece roteiro de novelão dramático. Mas, nas mãos do diretor Danny Boyle (Trainspotting’, ‘Quem quer ser um milionário’), apoiado em roteiro de Aaron Sorkin (‘A Rede Social’), a partir da biografia escrita por Walter Isaacson, jornalista que cobriu grande parte das apresentações de Jobs, os fatos são revisitados de uma forma quase teatral, em três atos completamente distintos, mas interligados e pautados pelas vicissitudes da vida atribulada de Jobs.

O roteiro valoriza e contextualiza os três momentos mais importantes da vida de Steve Jobs: os bastidores dos lançamentos do computador Macintosh (1984), da empresa NeXT (1988) e do iMac (1998). E para identificar melhor cada lançamento com seu tempo, os períodos são exibidos em formas diferentes. O de 1984, filmado em 16 mm, para realçar o período punk do jovem que queria mudar o mundo. O de 1988, produzido em 35 mm, como numa ópera, em tons mais sombrios, maduros. Já o de 1988 foi registrado em HD, limpo, aberto, inovador.

E tudo isso só reforça o fantástico sucesso empresarial de Steve Jobs, o homem-marketing, voltado para seu público, sempre pronto a surpreendê-lo. Aliás, o lançamento do Macintosh é considerada uma das apresentações mais impressionantes da história do corporativismo nos USA. Dirigido por Ridley Scott e divulgado nos intervalos do Super Bowl XVIII, em 22 de janeiro de 1984, foi o maior hit da história da TV, estabelecendo o nível para todo comercial passado durante o Super Bowl desde então.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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