Críticas Lucinha no Cinema

Sully – O Herói do Rio Hudson

Um pequeno detalhe pode mudar tudo. Alguns segundos podem transformar um herói em um vilão. Ou vice-versa. E pequenos detalhes, assim como a passagem do tempo, são fugidios: escorrem pelos dedos. E basta uma situação adversa, cuja solução exija um esforço ou uma habilidade especial, e eis que surge um candidato à honra ou à execração popular.

Recentemente, por conta de um pequeno, mas crucial detalhe, um piloto ceifou a vida de 71 das 77 pessoas a bordo de um voo charter entre Santa Cruz de La Sierra (Bolívia) e Medellín (Colômbia). Pelos resultados das investigações, uma aposta malsucedida do piloto (não fazer escala para reabastecimento), num plano de voo negligente (autonomia de voo idêntica à distância a ser percorrida), tirou a vida de quase todo um time de futebol, além de inúmeros profissionais da imprensa.

Por que um piloto assumiria esse tipo de risco? Imagine, por outro lado, que não houvesse concorrência na aterrissagem e que o piloto tivesse conseguido chegar ao destino sem maiores problemas. Talvez ninguém, ou a maioria das pessoas, soubesse que o avião estava com nenhum, ou praticamente nenhum, combustível. Nesse caso o piloto seria um herói? Ou, quem sabe, um anti-herói?

Diferentemente do vilão, o anti-herói sempre obtém aprovação por seu carisma, sua malandragem. E uma quase ‘pane seca’ em avião é possível? Pela vida pregressa do tal piloto, parece que sim. Mas, os órgãos de controle entendem que voar com combustível abaixo do limite recomendado é pior que malandragem: é inaceitável! Mas o ser humano é muito estranho: mesmo com toda a comoção mundial, não é que alguns ainda veem o tal piloto como um herói!

Mas herói, herói mesmo é o tal do Sully. Será? “Sully – O Herói do Rio Hudson” [‘Sully’] é o drama dirigido e co-produzido por Clint Eastwood, com roteiro de Todd Komarnicki, a partir da autobiografia ‘Highest Duty: My Search for What Really Matters’, escrita pelo próprio Sully, com a ajuda do seu copiloto, Jeff Skiles (Aaron Eckhart), que conta o drama vivido a bordo do Voo US Airways 1549, que partiu de La Guardia para Charlotte, na fria manhã do dia 15 de janeiro de 2009.

Chesley Burnett Sullenberger ou Sully (Tom Hanks) é o piloto com 30 anos de bons serviços prestados, que assumiu a façanha de pousar no rio Hudson, ao invés de voltar para o La Guardia, depois que seus dois motores foram atingidos num choque com aves.

O incidente, felizmente, não teve vítimas fatais e projetou o nome do piloto para além de sua área de atuação. Mas, eis que surge a dúvida que não quer calar: o pouso no rio Hudson era mesmo necessário?

Como bem defende Clint Eastwood (86 anos de idade, 4 estatuetas do ‘Oscar’, 68 filmes atuando e 38 dirigindo), não se trata da estória de um acidente aéreo evitado, mas da estória de um homem levado a duvidar de si próprio, ao ser acusado de negligência por pousar a aeronave nas águas geladas de um rio urbano, em pleno inverno nova-iorquino. Seria Sully um herói ou um vilão? Ou ambos?

Mesmo com todas as 155 pessoas a bordo ilesas, abandonando por conta própria o avião, a NTSB (National Transportation Safety Board), a agência americana independente que investiga acidentes em transportes públicos, virou uma espécie de antagonista, um verdadeiro algoz de Sully, fazendo do drama um filme investigativo, com todas as artimanhas de que uma investigação desse gênero se vale. Quem diz a verdade: o ser humano, com todas as suas idiossincrasias ou os simuladores de voo, máquinas programadas, desprovidas de emoções?

Apesar de todos conhecerem a estória do acidente, há um clima de suspense e de angústia no ar. E tal ocorre, não só pela série de pontos de vista do acidente – visto e revisto, cada vez com mais realismo e emoção – como pelos sonhos e pesadelos de Sully, ainda em choque com tudo o que lhe aconteceu.

Todos sofremos e torcemos para que ele tenha feito a coisa certa. Grande Clint Eastwood! Conseguiu criar um clima de ‘pós-verdade’, onde as circunstâncias emocionais ou crenças pessoais têm mais influência em moldar a opinião pública que os fatos objetivos.

Sully não se considera um herói. Para ele, um herói coloca a própria vida em risco pelos outros. E se ele fez alguma coisa, não foi para receber um elogio, mas porque era a única coisa certa a fazer. E, nessas ocasiões, não existe tempo para pensar, para escolher o melhor. Você simplesmente faz. E se você tem experiência e capacidade, provavelmente o feito será bem sucedido. Com sorte, naturalmente.

Aliás, aqui cai bem uma das definições de sorte feita por Sêneca: “Sorte é o que acontece quando capacidade encontra-se com oportunidade.”

Comentários

Print this entry

Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

Deixe um comentário

%d blogueiros gostam disto: