Críticas Lucinha no Cinema

T2: Trainspotting

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Há quem diga que um filme, na realidade qualquer filme, poderia ser sintetizado em uma única palavra, cujo significado estaria intrínseco em seu argumento. À primeira vista, poder-se-ia imaginar um viés reducionista, dada a complexidade de um longa-metragem e dos roteiros em especial. Tenho que admitir, no entanto, que essa ‘caça ao tesouro’ me instiga e, em busca da tal palavra, me vejo esquadrinhando os enredos. Chega a ser divertido.

Depois de assistir “T2: Trainspotting”, lançamento de 2017 com a sequência de “Trainspotting – Sem Limites” de 1996 – ambas comédias dramáticas de humor negro – onde tudo gira em torno de sexo, drogas e rock’n’roll – com o mesmo diretor: Danny Boyle, o mesmo roteirista: John Hodge, os mesmos personagens e o mesmo elenco – uma palavra se sobressai desses dois longas-metragens: expectativas.

E essas expectativas estão presentes nos dois roteiros, retratando momentos distintos dos cinco personagens, com suas aspirações e incertezas. A única certeza é que os conflitos surgiram por conta da quebra de expectativas. Angústias, frustrações e decepções se sucedem. A impressão é de que nenhum deles tem noção do que está fazendo com a própria vida. Eles teriam liberdade nas escolhas, mas o livre-arbítrio lhes toca como uma maldição: as escolhas são sempre as piores.

Viver pode ser um problema, se você tem medo de decidir. Viver pode ser um inferno, se você escolher mal. Mas, viver também pode ser uma dádiva, se você tiver noção das consequências das suas decisões, fizer boas escolhas e não criar expectativas sobre variáveis que você não controla.

A receita é simples, mas os ingredientes nem sempre estão à sua disposição. Algumas premissas, certamente, pesarão na balança: você vai precisar de bom senso, maturidade e, no mínimo, selecionar melhor suas companhias.

“Trainspotting – Sem Limites” [Trainspotting], um clássico de 1996, conta as histórias de cinco jovens de um subúrbio de Edimburgo, a partir do ponto de vista de um deles, Renton (Ewan McGregor), que leva uma vida despreocupada, dividindo-se entre seu romance com a estudante Diane (Kelly Macdonald) e os encontros com seus amigos: Sick Boy (Jonny Lee Miller), um imoral desenhista de HQs, fanático por Sean Connery; Tommy (Kevin McKidd), um atleta responsável; Spud (Ewen Bremner), um bobalhão de bom coração e Begbie (Robert Carlyle), um violento sociopata.

O roteiro deste primeiro longa, uma tremenda subversão na época (a ponto de alguns políticos terem sugerido boicote ao filme por considerá-lo uma incitação ao uso de drogas) foi construído por John Hodge a partir do livro homônimo de Irvine Welsh. Recebeu uma indicação ao Oscar 1997 na categoria Melhor Roteiro Adaptado, além de ter vencido o BAFTA 1996 na mesma categoria. Foi também indicado, no Independent Spirit Awards 1997, como Melhor Filme Estrangeiro, além de ter sido considerado um dos 1000 melhores filmes já produzidos!

A trilha sonora, eleita a melhor de 1997 pelo Brit Awards, integra a lista da revista ‘Rolling Stone’ como uma das vinte e cinco melhores trilhas sonoras de todos os tempos, incluindo músicas e artistas consagrados como Iggy Pop (Lust For Life e Nightclubbing), Primal Scream (Trainspotting), New Order (Temptation) e Lou Reed (Perfect Day), além de outros dez artistas e suas icônicas canções.

O longa-metragem também ficou conhecido por retratar o movimento ‘clubber’, atribuído às pessoas que frequentavam danceterias (os clubes em inglês), com vestuário e atitudes peculiares da década de 1990, valorizando a música eletrônica e a vida noturna das grandes metrópoles.

Na sequência com T2, Mark ‘Rent Boy’ Renton retorna à cidade natal depois de vinte anos de ausência. Hoje, ele é um homem novo, com um emprego fixo e livre das drogas. Os amigos não tiveram a mesma sorte: Simon ‘Sick Boy’ Williamson comanda um comércio fracassado, Daniel ‘Spud’ Murphy continua dependente de heroína e Francis ‘Franco’ Begbie está na prisão.

Sem Tommy, que morreu de overdose no primeiro longa, temos agora Veronika (Anjela Nedyalkova), a namorada búlgara de ‘Sick Boy’, que acaba por interferir, sub-repticiamente, no relacionamento dos, agora, ex-companheiros. Aos poucos, Renton revela que sua realidade não é tão positiva quanto ele mostrava, e volta a praticar os crimes de antigamente.

T2 se vale de inúmeras sequências do primeiro filme, incluindo lembranças da infância do grupo e alguns sucessos da então premiada trilha sonora, além de incluir nomes como The Clash, Queen e Blondie e uma bela homenagem a David Bowie, com seus álbuns na coleção particular do personagem Renton, ressaltando a importância da música naquela geração.

Certamente que o primeiro filme teve muito mais impacto que a sequência. Mas, as novas confusões do grupo, o exótico e hilário sotaque escocês, aliados às sutilezas das críticas sociais, mantêm o interesse dos fãs, principalmente pelas novidades introduzidas com a adaptação do livro ‘Porno’, sequência de ‘Trainspotting’, do escritor escocês Irvine Welsh.

Primeiro foi a oportunidade, depois a traição. Vinte anos se passaram e muita coisa mudou, mas outras tantas não. Mark Renton volta para o único lugar que ele consegue chamar de casa. Aquela juventude envelheceu, mas continua desiludida. Não parece ter amadurecido, provavelmente porque não admitiu seus erros e muito menos soube lidar com suas expectativas.

Saber a origem das palavras, como e porque surgiram, além de divertido, ajuda muito a entender o sentido e orienta o uso correto das mesmas. Descobrir, por exemplo, que ‘trainspotting’ [literalmente ‘ver trens passando’, um passatempo de homens, em especial, de jovens], uma gíria escocesa que se refere a uma ‘atividade sem sentido’, ‘uma total perda de tempo’, explica e justifica os títulos e o espírito dos dois longas. Também serve como uma metáfora para a vida medíocre e sem futuro daqueles personagens, que preferem se perder em um universo de contravenções a assumir uma vida moldada por compromissos.

‘Escolher a vida’, a senha manifestada nos diálogos e nas músicas, não levou nenhum deles a uma vida melhor, ou pelo menos à satisfação com a vida que escolheram. Talvez porque não aceitaram, como lembra o personagem Begbie, que o mundo muda, mesmo que você continue o mesmo.

“O homem está condenado a ser livre, condenado porque ele não criou a si, e ainda assim é livre. Pois tão logo é atirado ao mundo, torna-se responsável por tudo que faz.” Jean-Paul Sartre

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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