Críticas Lucinha no Cinema

Táxi Teerã

O diretor iraniano Jafar Panahi se passa por taxista para andar pelas ruas movimentadas de Teerã, capital do Irã, em busca de boas histórias. Cada um que entra no carro conversa com o motorista sobre política, costumes locais e a liberdade de expressão na sociedade e no cinema.

Um dos diretores mais famosos do Irã, Jafar Panahi foi condenado, em 2010, pelo regime islâmico do Irã, à prisão domiciliar por seis anos, além de ser proibido de filmar por vinte anos, sob a acusação de fazer propaganda contra o Estado, quando desenvolvia um projeto sobre as manifestações contra a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad.

Mesmo com todas as dificuldades, Panahi já tinha burlado as regras para realizar “Isto não é um filme” (2011) e “Cortinas fechadas” (2013), que ganhou o Urso de Prata de Melhor Roteiro em 2013, ambos filmados em locais fechados, tratando das mesma questões: falta de liberdade de expressão.

Além desses três filmes, Panahi também dirigiu “O balão branco” (1995), que ganhou a ‘Câmera de Ouro no Festival de Cannes de 1995, e participou como roteirista e produtor de todos os seus filmes, trabalhando ainda como ator e assistente de direção em “Através das Oliveiras”(1994), de Abbas Kiarostami.

Conhecendo as limitações de trabalho e o currículo de Jafar Panahi, fica mais fácil entender as motivações que o levaram a se fazer passar por um motorista de táxi. Para começo de conversa, um personagem que conta uma estória interessante é o que todos os diretores precisam. E usar esse personagem como um taxista é para lá de genial, num momento de cerceamento dos direitos de locomoção, trabalho, livre expressão.

Na verdade, fica até difícil saber quem conta a melhor estória: se o taxista ou os passageiros, e conforme o tempo passa, fica mais interessante, pois o táxi se assemelha, às vezes, a uma espécie de ‘lotada’, com pelo menos quatro pessoas juntas, com experiências de vida e discursos bem distintos, por vezes antagônicos, como a discussão sobre a pena de morte por enforcamento, vigente no Irã, entre um homem que se diz punguista e uma professora.

O filme é um drama, com aspecto de documentário, com passageiros aparentemente aleatórios, em situações por vezes engraçadas, como a do vendedor de filmes piratas, ou a das senhoras com um peixinho vermelho dentro de um aquário de vidro, outras angustiantes, como a do casal que acabou de sofrer um acidente de moto, ou a do encontro com um amigo vítima de um assalto.

O interessante é perceber que mesmo com tantas diferenças entre eles, todos demonstram a mesma preocupação em lidar com os problemas enfrentados pelo país: criminalidade e desemprego crescentes, convivendo com um estado que usa a religião e os costumes religiosos para cercear a liberdade do cidadão.

O encontro com a sobrinha do motorista, como uma estudante que recebeu a incumbência de fazer um trabalho de audiovisual na escola, é sem dúvida o ponto alto do filme, considerando-se que ela seria seu alter ego, personagem através da qual Panahi contesta os critérios de se fazer cinema no Irã, critérios esses, aliás, por conta dos quais ele está privado de circular, trabalhar, mostrar como vivem e o que pensam os iranianos.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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