Críticas Lucinha no Cinema

Trumbo – Lista Negra

Sempre achei fantasiosa essa estória de que uma imagem projetada numa velocidade maior que o olho podia captar, ou oculta num quadro, não seria vista conscientemente, mas atingiria diretamente o subconsciente, podendo influenciar as pessoas.

Embora muita gente queira que seja possível, não há efetivamente nenhuma evidência científica de que alguém, persuadido por uma mensagem subliminar, possa iniciar ações complexas, como consumir um determinado produto, ou suicidar-se, por exemplo. Mas essa tese ainda rende controvérsias.

Com o fim da Segunda Grande Guerra e o início da guerra fria entre americanos e soviéticos, a patrulha anticomunista deflagrada pelo Comitê de Atividades Antiamericanas do Congresso, a cargo do Senador Joseph McCarthy, sacudiu os EUA, desde o fim da década de 1940 até meados da década de 1950.

A possibilidade de uma ‘ameaça vermelha’, através da propaganda subliminar pelos comunistas e simpatizantes, nos filmes de Hollywood, assustava os adeptos do ‘macarthismo’.

Por conta do ambiente de suspeição e cobranças reinante, o Jornal ‘The Hollywood Reporter’ divulgou nomes de profissionais da indústria cinematográfica supostamente ligados aos ideais marxistas, entre os quais Dalton Trumbo, famoso roteirista e romancista americano.

Esse é o cenário de ‘Trumbo – Lista Negra’, drama biográfico dirigido por Jay Roach, com roteiro de John McNamara, a partir do livro ‘Trumbo’ de Bruce Cook.

Além de testemunhar a hostilidade presente no Congresso e o clima de ‘caça às bruxas comunistas’ que rondava Hollywood, o filme é um primor na reconstituição da época, com vários personagens e fatos que marcaram aquele triste, difícil e lamentável período da indústria cinematográfica americana.

Pelas supostas ligações com o Partido Comunista Americano, aliadas à desobediência civil, por não colaborar com o Comitê, Dalton Trumbo (Bryan Cranston, magnífico) e outros dez artistas (conhecidos como ‘Hollywood Ten’), a maioria deles roteiristas, foram condenados a um ano de prisão, além de entrar na ‘Lista Negra de Hollywood’, mantida pela indústria para boicotar simpatizantes da esquerda e negar-lhes emprego.

A lista arruinou a carreira de muitos profissionais (mais de 170, entre os quais Leonard Bernstein, José Ferrer, Lena Horne, Arthur Miller, Orson Welles, Luís Buñuel e Charles Chaplin) e serviu para criar um sentimento anticomunista na sociedade americana.

Curioso reconhecer entre os adeptos do ‘macarthismo’ o ator John Wayne (David James Elliot) e a atriz, posteriormente colunista social, Hedda Hopper (Helen Mirren), que apoiaram fortemente o trabalho do Comitê, tendo Hedda, inclusive, denunciando supostos comunistas em sua coluna no Los Angeles Times.

Muitos profissionais de Hollywood, em compensação, apesar da forte pressão exercida pela imprensa, pelos Sindicatos e pelo Comitê, apoiaram os ‘banidos’, não só assumindo a autoria de seus trabalhos, como o roteirista Ian Mc.Lellan (Alan Tudjk), como contratando seus serviços através de pseudônimos, caso do produtor de filmes ‘B’ Frank King (John Goodman, em ótima atuação) e do cineasta Otto Preminger (Christian Berkel), ou aplaudindo a autoria do premiado ‘Spartacus’, como fez o ator Kirk Douglas (Dean O’Gorman).

Apesar de tudo e de todos, Trumbo trabalhou ininterruptamente entre 1936 e 1973, e foi responsável por mais de 30 roteiros de sucesso, entre os quais os premiados, ‘Arenas Sangrentas’, Oscar de 1956, com o pseudônimo Robert Rich, e ‘A princesa e o plebeu’, Oscar de 1953, com a assinatura do roteirista Ian Mc.Lellan, com autoria reconhecida postumamente, em 1993.

O grande mérito de ‘Trumbo – Lista Negra’ é quebrar um tabu e mostrar para os de fora dos portões de Hollywood e da própria América o que realmente aconteceu. Abrir os arquivos da intolerância e reconhecer os erros do passado são os primeiros passos para evitar que fatos semelhantes se repitam. Errar pode ser humano, ignorar ou não admitir responsabilidades só se presta a fomentar a intolerância.

Como lembrou Trumbo ao final, quando teve o nome reabilitado, não se comprovou, depois de tudo o que ocorreu, nenhum prejuízo ou qualquer dano aos ideais americanos, mas os profissionais banidos amargaram anos de dificuldades, sem trabalho, sem dignidade, por conta do que muitos morreram na miséria e no esquecimento.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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