Críticas Lucinha no Cinema

Um Homem entre Gigantes

Você tem noção do volume de dinheiro que circula anualmente pela Liga Nacional de Futebol Americano, a poderosa NFL – National Football League, a maior liga esportiva do mundo, criada em 1920 (com a anterior denominação American Professional Football Association), para profissionalizar e administrar o esporte até então jogado a título amador pelos universitários?

Na temporada de 2014, o futebol americano gerou US$ 7,24 bilhões em renda nacional, aí incluídos os valores decorrentes dos acordos de transmissão com 5 canais de televisão (CBS, NBS, Fox Sports, ESPN e NFL Network), o faturamento gerado nos 31 modernos estádios, sendo o mais antigo o Bank of América Stadium em Charlotte, na Carolina do Norte, inaugurado em 1993, e o maior deles, o AT&T Stadium, utilizado pelo Dallas Cowboys em Arlington, no Texas, com capacidade para 111.000 torcedores, além da renda proveniente do licenciamento de inúmeros produtos.

E esse valor, mais do que o dobro do arrecadado há cinco anos, será dividido igualmente entre as 32 equipes integrantes da liga mais popular e lucrativa dos EUA, independentemente do valor individual de cada equipe, ou do número de títulos.

Para efeito de comparação, no mesmo período, os 20 clubes de futebol mais valiosos do planeta renderam cerca de US$ 1,5 bilhão, o que mostra o potencial e a força financeira do futebol americano.

No que se refere ao público pagante, por outro lado, na fase classificatória da temporada 2013/2014, por exemplo, houve um total de 17 milhões de espectadores, com um público médio de 68 mil fãs por partida.

Depois de conhecer esses números e perceber o enorme potencial desse esporte, fica mais fácil entender o posicionamento da NFL, ao ignorar e tentar desqualificar, o estudo publicado em 2005 pelo Departamento de Patologia da Universidade de Pittsburgh, no Jornal ‘ Neurosurgery’, sob o título ‘Chronic Traumatic Encephalopathy in a National Football League Player’, associando a encefalopatia traumática crônica aos jogadores de futebol americano.

Esse é o cenário mostrado no longa ‘Um Homem entre Gigantes’ (‘Concussion’), do diretor americano Peter Landesman, a partir da reportagem de Jeanne Marie Laskas, na revista GQ, intitulada ‘Game Brain’, posteriormente transformada, pela autora, no livro ‘Concussion’.

O roteiro, do próprio Landesman, mostra o drama vivido por Bennet Omalu (Will Smith), neuropatologista forense, nascido na Nigéria, que descobriu, a partir da autópsia em Mike Webster (David Morse), ex-jogador da NFL falecido em 2002, a Encefalopatia Traumática Crônica, tipo de concussão traumática, somente detectável em autópsias, e que gera demência, perda de memória e depressão, sintomas e aparência cerebral idênticos aos dos doentes com Alzheimer, e que teria contribuído ainda para levar outras estrelas do futebol americano, como Justin Strzelczyk, Andre Waters, Tom McHale, Dave Duerson e Junior Sean, ao suicídio.

Para pessoas que não têm o hábito de assistir jogos de futebol americano, como era o caso do Dr. Omalu, essa descoberta pareceria um grande furo, talvez a chave para a solução de graves problemas, já percebidos pelos próprios médicos da NFL no passado, com base em doenças dos lutadores de boxe e dos jogadores de hóquei sobre gelo, que também sofrem com repetidos impactos no cérebro.

E esse foi o sentimento que o roteiro quis passar e que o verdadeiro Bennet Omalu mostrou em entrevistas. Ele se arrependeu de ter sido ingênuo, imaginando estar ajudando, tanto os jogadores, quanto a própria Liga, por conta de possíveis mudanças nas regras do jogo.

Infelizmente, não foi o que aconteceu, pelo menos de pronto. Ele foi humilhado e demorou a ter suas descobertas reconhecidas e utilizadas para evitar futuros problemas de saúde nos jogadores de futebol americano.

Certamente que esse olhar tem a ver com o ponto de vista mais crítico desenvolvido pelo diretor Peter Landesman, que atua também como jornalista investigativo, com histórico de ativismo político e engajamento em questões como o tráfico de armas e de mulheres, as lutas dos refugiados políticos, ou os genocídios como os ocorridos em Ruanda, em Kosovo, no Paquistão e no Afeganistão.

É fato, também, que o filme pecou por um posicionamento maniqueísta, mostrando o pessoal da NFL sem escrúpulos, na maior parte do tempo, e o médico que lutava praticamente sozinho, quando não contava com a ajuda do ex-médico da NFL, Dr. Julian Bailes (Alec Baldwin), como uma espécie de ‘Dom Quixote de La Mancha’, enfrentando os ricos e poderosos ‘vilōes’ da influente Liga de futebol americano.

Tanto na tela quanto na vida real, Bennet Omalu pode ser considerado , um herói, mas não um herói americano do tipo largamente visto nas telas do cinema, ou um pobre imigrante que virou herói. Simplesmente um homem destemido e convicto de suas crenças, valores e conhecimentos, que enfrentou uma série de adversidades num país estrangeiro, chegando a ser desacreditado profissionalmente, apesar da sólida formação, com todos os seus inúmeros títulos e diplomas.

Não obstante alguns alertas e antigas constatações, a Liga efetivamente teria escondido de seus atletas estudos apontando sobre o risco de como repetidas concussões poderiam afetar suas vidas no futuro.

Mesmo tendo negado em diversas ocasiões que tais estudos fossem conclusivos, em 2010 a NFL mudou sua postura e iniciou uma série de mudanças nas regras do jogo, punindo, por exemplo, os defensores que usassem força desproporcional do ombro para cima nos recebedores, considerados desprotegidos, ou proibindo que jogadores abaixassem a cabeça antes do contato com o defensor.

Por conta da constatação de negligência da NFL, cerca de 4800 jogadores e ex-jogadores abriram processos coletivos contra a Liga, que se viu obrigada, depois de mais de 4 anos de disputa judicial, a fazer acordos, no valor total de US$ 1 bilhão, incluindo o compromisso da criação de um centro de estudos sobre concussões e traumas cerebrais ligados à pratica do futebol americano.

Lamentável que o filme não tenha mostrado as mudanças ocorridas nas regras, muito menos o histórico das ações e dos resultado obtidos com os acordos, além da intenção de cuidar efetivamente da saúde futura dos gigantes do futebol americano.

Assistir ao filme foi realmente instigante, não só por saber que há pessoas tão dedicadas ao que fazem, como o verdadeiro Dr. Bennet Omalu, que hoje é cidadão americano e trabalha como Legista-Chefe de San Joaquin, na Califórnia, como por acompanhar o amadurecimento profissional de Will Smith, em grande performance, que infelizmente não foi indicado ao Oscar, apesar de ter sido nomeado para o Globo de Ouro de 2016. Mais uma vez os eleitores da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood foram míopes e deixaram de indicar muitos atores em ótimas atuações, e entre eles estava Will Smith.

E voltando ao gigantes, bem disse o ex-jogador Kevin Turner, que em 2010 foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica, também conhecida como a doença de Lou Gehrig, e incluído em pesquisas que possam associar a encefalopatia traumática crônica à esclerose, tendo doado seu corpo para pesquisas após a morte: ‘o que importa agora é tempo, algo que muitos aposentados da Liga não tem.’

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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