Críticas Lucinha no Cinema

Um limite entre nós

Uma das piores coisas que podem acontecer com uma criança é imaginar que seus pais não a amam. E pior ainda, seria ouvir essa declaração feita pelos próprios pais.

Normalmente, são os filhos que tendem a questionar a autoridade paterna, principalmente na adolescência, dizendo barbaridades como ‘eu te odeio’ e coisas do gênero. Alguns, mais rebeldes, chegam a fugir de casa, quando severamente repreendidos ou maltratados.

Antigamente os pais eram mais autoritários, muitas vezes ríspidos e grosseiros, totalmente ignorantes das melhores formas de educar os filhos.

Certamente, repetiam o mesmo tratamento inadequado recebido dos próprios pais. Quem sabe, imaginavam eles, não estariam, dessa forma, educando as crianças no sentido de serem mais obedientes e preparadas para a vida, para os dissabores da vida, melhor dizendo.

Negar pedidos ou solicitações fora da rotina, sem qualquer justificativa plausível, além de desprezar manifestações de afeto ou qualquer sintoma de  dependência sentimental, costumam ser utilizados por pais mais durões ou que não querem ter sua autoridade contestada. Mas isso não costuma dar bons resultados. Muito pelo contrário.

Por conta dessa dificuldade em lidar com os filhos, Troy Maxson, protagonista do longa-metragem “Um limite entre nós” [“Fences”], se expõe de forma hostil e melancólica. Em um dos diálogos mais contundentes do roteiro, Troy, confrontado por seu filho Cory, lhe indaga: “Qual lei diz que tenho que gostar de você?”

Troy Maxson (Denzel Washington) tem 53 anos e mora com a esposa, Rose (Viola Davis) e o filho adolescente, Cory (Jovan Adepo), num bairro pobre de Pittsburgh, Pensilvânia, habitado, em plena década de 1950, predominantemente por negros e imigrantes judeus e italianos. Ele trabalha recolhendo lixo das ruas e batalha na empresa para ser promovido ao posto de motorista do caminhão de lixo, função restrita aos empregados brancos.

Troy sente um profundo ressentimento  por não ter conseguido se tornar jogador profissional de baseball, devido à cor de sua pele, e por causa disso não quer que o filho siga como esportista. Isto faz com que o jovem bata de frente com o pai, já que um recrutador está prestes a ser enviado para observá-lo em jogos de futebol americano.

“Fences” é baseado na aclamada e premiada peça teatral homônima, escrita em 1987 por August Wilson, dramaturgo americano, numa série de dez peças intitulada ‘The Pittsburgh Cycle, pela qual recebeu dois prêmios Pulitzer de Teatro.

Cada uma das peças retrata aspectos cômicos e trágicos da vida dos negros norte-americanos em décadas diferentes do século XX. A adaptação para o cinema, a cargo do próprio autor, foi demorada, por conta da exigência de Wilson de que o diretor fosse também um negro.

August Wilson (1945-2005), pseudônimo de Frederick August Kittel Jr., era filho de um padeiro, imigrante alemão, com uma faxineira negra, que criou os seis filhos sozinha, na mesma Hill District, em Pittsburgh, Pensilvânia da peça, numa época fortemente afetada pelo preconceito racial. Por conta da ausência do pai, August passou a usar o sobrenome da mãe, Daisy Wilson, cuja família saiu da Carolina do Norte em busca de uma vida melhor na Pensilvânia.

Troy é um sujeito boa praça, falastrão e espirituoso. Ele tem dois grandes amigos há décadas: Bono (Stephen Herderson), seu parceiro no trabalho e uma garrafa de gim, ambos companheiros  e bons ouvintes das histórias de Troy.

Mas ele tem dificuldades, principalmente com seu passado, que a todo instante se interpõe no seu presente, ameaçando seu futuro. Por conta disso, ele tem certeza de que sendo durão com os filhos vai protegê-los das mesmas frustrações que arruinaram sua vida.

Na primeira montagem teatral em 1987, “Fences” levou três ‘Tonys’, feito repetido em 2010, quando os mesmos atores do longa-metragem, Denzel Washington e Viola Davis, ganharam outros ‘Tonys’. Este é o terceiro longa-metragem do diretor Denzel Washington e foi escolhido como um dos dez melhores filmes de 2016 pelo American Film Institute.

Também foi indicado ao Oscar em quatro categorias (Filme, Ator, Atriz Coadjuvante e Roteiro Adaptado), das quais levou o de Melhor Atriz Coadjuvante para Viola Davis, além do Golden Globe de Melhor Ator e Atriz Coadjuvante.

A performance do elenco é o grande mérito do filme, sem sombra de dúvida. Mas o tema universal – da difícil adaptação do ser humano frente às vicissitudes da vida e de como o que nos circunda nos influencia – justificam todos os diálogos, pensamentos e alucinações do roteiro.

Vida longa para o magnífico ator e diretor Denzel Washington, que nos brindou com mais um grande exemplo de que o mundo fica melhor sem cercas, muros, limites ou ressentimentos entre os homens.

 

“No início, os filhos amam os pais. Depois de um certo tempo, passam a julgá-los. Raramente ou quase nunca os perdoam.”
Oscar Wilde


FILEM:
Um Limite Entre Nós
IDADE: 14 Anos
ANO: 2016
GÊNERO: Drama
DURAÇÃO: 2h 19m

SINOPSE: Baseado na aclamada e premiada peça teatral homônima, um jogador de beisebol aposentado, que sonhava em se tornar uma grande estrela do esporte durante sua infância, agora trabalha como coletor de lixo para sobreviver. Ele terá de navegar pelas complicadas águas de seu relacionamento com a esposa, o filho e os amigos.
LANÇAMENTO: 24 de fevereiro de 2017 (Brasil)
DIREÇÃO: Denzel Washington
MÚSICA: Marcelo Zarvos
Indicações: Prêmio Globo de Ouro: Melhor Ator em Filme Dramático.
Prêmios: Prêmio Globo de Ouro: Melhor Atriz Coadjuvante em Cinema.
ELENCO: Denzel Washington – Viola Davis – Russell Hornsby – Mykelti Williamson – Stephen Henderson – Jovan Adepo – Saniyya Sidney
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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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