Críticas Lucinha no Cinema

Uma família de dois

Sempre que vejo uma criança ou um adolescente perambulando pelas ruas, fico imaginando os motivos que os teriam levado àquela situação de risco. Onde estariam suas famílias? Como permitiram que isso acontecesse? Todos sabemos como o núcleo familiar é importante para suprir as necessidades básicas das crianças, oferecendo apoio emocional, segurança e afeto, além de contribuir para a sua socialização.

Teoricamente, tudo isso parece bem razoável, mas na vida real… Bem, na vida real, nem todas as crianças, mesmo aquelas com famílias consideradas bem estruturadas, conseguem ter essa rede de proteção, tão indispensável para a formação da sua  identidade. Felizmente, há famílias e famílias. A própria composição do núcleo familiar, aliás, tem se modificado ao longo do tempo.

Da estrutura familiar tradicional, constituída por um casal heterossexual e seus filhos, para aquelas formadas por pais únicos ou, ainda, para as ditas famílias alternativas, também chamadas famílias arco-íris – constituídas por pessoas do grupo LGBT e seus filhos – houve um bom avanço e novíssimos problemas, certamente.

Muitos supõem que o casamento, com a formação  de uma família, seja um fim em si mesmo. Mas, será  efetivamente necessário que as pessoas se casem para se sentirem realizadas? E quanto à maternidade, será que todas as mulheres querem mesmo ter filhos? E precisam se casar para tal? Os papéis estereotipados –  de homens mantenedores e mulheres cuidadoras – continuarão a reger as relações maritais? E os homens, depois da emancipação das mulheres, serão capazes de assumir a paternidade e criar filhos sozinhos?

Parece que todas essas questões já estão sendo respondidas, de um jeito ou de outro, pelas circunstâncias e fenômenos da vida social. Como todos bem sabemos, o ser humano tem uma capacidade inigualável de adaptação, para o bem da humanidade, felizmente.

Com tantas questões no ar a respeito de casamentos, famílias, filhos e seus papéis na sociedade, não parece surpreendente que o cinema tenha também entrado nessa discussão. E que tal incluir nesse caldeirão um bom-vivant, que se descobre pai amoroso, verdadeiramente exemplar, em uma família do tipo monoparental, ou seja, aquela do tipo na qual o pai sozinho cuida e mantém os filhos?

Essa é a história de Samuel (Omar Sy), um jovem francês solteiro e despreocupado, que vive no litoral sul da França, onde muda de emprego e de namorada ao sabor das estações. Mas essa tranquilidade se altera quando Kristin (Clémence Poésy), uma mulher com quem teve um caso amoroso em Londres, aparece com um bebê de poucos meses nos braços e lhe informa que a menina é sua filha. Depois dessa revelação  surpreendente, Kristin desaparece sem dar qualquer explicação ou notícia.

Em pânico, julgando-se incapaz de cuidar da criança, Samuel viaja para Londres, determinado a resolver o problema e devolver o bebê à mãe. Quando percebe que não há formas de encontrá-la, arranja emprego e decide criá-la sozinho. Oito anos depois, ainda vivendo em Londres, pai e filha são inseparáveis. Quando nada fazia prever seu retorno, eis que Kristin reaparece, empenhada em recuperar a guarda da filha Gloria (Gloria Colston) e  retomar o papel de mãe.

Estamos falando de “Uma família de dois” [“Demain tout commence”], comédia dramática dirigida pelo ator, roteirista, produtor e diretor de cinema francês Hugo Gélin (“Comme des frères”- 2012). Trata-se da refilmagem da comédia dramática “No se Aceptan Devoluciones”/”Não Aceitamos Devoluções”, com atuação, direção, roteiro e produção do mexicano Eugenio Derbez, que fez um enorme sucesso de público e de crítica no México, quando foi lançada em 2013, alcançando 18 milhões de espectadores.

Apesar de bem semelhantes no uso dos clichês típicos do homem irresponsável que se descobre um ótimo pai, além do estrangeiro que consegue se virar bem, sem sequer falar o idioma local – há que se destacar a superioridade da versão francesa, com produção cuidadosa, elenco e cenários bem distintos – sul da França e Londres, ao invés de Acapulco e Los Angeles, na Califórnia – e também com ótimos resultados de público e crítica – mais de três milhões de espectadores só na França.

O trunfo da versão francesa é, sem dúvida, seu elenco, que conta com o ótimo e carismático ator francês Omar Sy, premiado em 2012 com o César de Melhor Ator pelo longa-metragem “Os Intocáveis” [Intouchables], além da excelente atriz mirim Gloria Colston, perfeita no papel da criança disputada pelos pais, da atriz francesa, Clémence Poésy, a ‘mãe-vilã’ da história, e do divertido ator canadense Antoine Bertrand, como Bernie, o produtor de cinema inglês gay, que se mostra o providencial apoio de Samuel, tanto no papel de pai, quanto no de dublê, seu emprego na Inglaterra.

Interessante observar que as versões francesa e mexicana, apesar de fiéis à história original, fizeram questão de apresentar títulos bem diferentes, indicando as perspectivas de cada diretor: Eugenio Derbez, com “No se aceptan devoluciones”, pelo viés do mexicano brincalhão, que vê a situação da criança abandonada pela mãe como uma espécie de negociação comercial, já Hugo Gélin, numa homenagem à sua avó – que costumava falar a expressão ‘Demain tout commence’ – preferiu demonstrar sua visão otimista da vida, pois nada melhor que um dia depois de outro. Melhor ainda o título dado pela distribuidora no Brasil, que efetivamente valorizou a estrutura familiar com “Uma família de dois”.

As poucas críticas desfavoráveis ao filme dizem respeito a uma possível crise de identidade: o filme não sabe se é comédia ou drama. Para início de conversa, por que uma comédia dramática deveria ser um filme inferior? Aliás, de que vive o cinema: da crítica ou do público? Trata-se efetivamente de uma ótima comédia, com um quê de drama, ou como diria Charlie Chaplin na abertura de seu filme “O Garoto” [The Kid] – “Um filme com um sorriso e, talvez, uma lágrima.”

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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