Críticas Lucinha no Cinema

Una

Tratar de abuso sexual, pedofilia, de seus  perpetradores ou das vítimas desses crimes não é uma tarefa fácil ou aceita em qualquer época e lugar, notadamente pelas questões morais e éticas envolvidas, além das inúmeras sequelas sempre presentes. Certamente, que a censura ou a criminalização dependerão da cultura e da codificação legal de cada país. Mas, que há um grande mal-estar, um  pânico generalizado, quase uma histeria coletiva, só de se ouvir falar do assunto, não há a menor dúvida.

E essa sensação de desconforto parece rondar o drama “Una” [Una], primeiro longa-metragem do diretor de cinema e teatro australiano Benedict Andrews, baseado na peça “Blackbird” (2005), de David Harrower, dramaturgo escocês, responsável também pelo roteiro do filme.

Ray (Ben Mendelsohn) e Una (Rooney Mara) já tiveram um complicado relacionamento quando ela tinha apenas 13 anos (Ruby Stokes). Quinze anos depois eles se reencontram, quando Una o surpreende em seu local de trabalho, buscando respostas sobre o abuso que sofreu. Ray construiu uma nova vida, mas os dois vão precisar revisitar o passado e escavar uma relação danificada. Seria um ato de vingança ou uma tentativa de reativar uma paixão mal resolvida?

Talvez você não saiba, assim como a maioria das pessoas, mas nem todo abusador de crianças é pedófilo, assim como nem todo pedófilo pratica  crimes sexuais. Apesar da utilização indiscriminada  do termo ‘pedofilia’ para todas as práticas sexuais com crianças e pré-adolescentes, há que se fazer distinção entre crime e doença, pois nem todo criminoso que abusa de menores de 14 anos pode ser classificado como pedófilo.

A pedofilia, segundo a OMS, é um dos transtornos da preferência sexual, neste caso, por crianças que ainda não atingiram a puberdade. Uma condição psicológica com poucas alternativas de tratamento, provavelmente incurável. Segundo descobertas recentes, haveria menos substância cerebral branca em pedófilos, dificultando conexões cerebrais, o que poderia explicar distorções comportamentais, que transformariam o instinto de proteção – que um adulto costuma sentir em relação a uma criança – em desejo sexual.

Em outras palavras, ninguém escolheria ser pedófilo, ou se sentir sexualmente atraído por crianças, ao contrário de abusadores sexuais não pedófilos. É fato, também, que pedófilos podem se transformar em agressores sexuais ao converterem suas fantasias em atos reais. Mas, as estatísticas apontam que só cerca de 50% dos casos de abuso sexual infantil são praticados por pedófilos.

A psicologia, a neurociência e a biologia avançaram na compreensão da pedofilia, havendo registros de pedófilos que buscaram tratamento para conter sua libido sem terem praticado nenhum crime. Em contrapartida, há ocorrências de agressões sexuais em crianças, cometidas por homens sem fixação sexual por menores de idade – principalmente quando há laços familiares entre os envolvidos, os chamados  incestos –  que chegam a 90% dos casos de abusos sexuais registrados.

Toda essa discussão traz à tona o romance “Lolita”, que guarda muita proximidade com o filme em questão. Escrito pelo russo de nacionalidade norte-americana, Vladimir Nabokov, foi considerado, quando do seu lançamento em 1955, um livro pornográfico e teve muita dificuldade para ser publicado nos Estados Unidos, onde só chegou em 1967, depois do sucesso da primeira edição francesa. O próprio Nabokov teria afirmado, no posfácio da edição americana, que não há moral para a história.

O romance é notável por seu assunto controverso: o protagonista e narrador é um professor universitário de Literatura de meia-idade, chamado Humbert, que está obcecado por Dolores, com 12 anos de idade (apelidado por ele de Lolita), com quem se torna sexualmente envolvido após se tornar seu padrasto.

“Lolita” rapidamente alcançou status de clássico, sendo considerada uma das principais realizações na literatura do século XX, embora entre as mais controversas. O romance foi adaptado para o cinema por Stanley Kubric em 1962 (James Mason, Shelley Winters, Peter Sellers e Sue Lyon, que interpretou uma Lolita de 16 anos, para evitar controvérsia adicional) e novamente em 1997 por Adrian Lyne (Jeremy Irons, Dominique Swain e Melanie Griffith).

“Lolita” também serviu de referência para o palco, dando origem a quatro peças de teatro, duas óperas, dois balés e um aclamado, mas comercialmente malsucedido  musical da Broadway, além de ter influenciado canções e inúmeros seriados e filmes norte-americanos, entre os quais “The Missing Page”, um dos mais populares episódios (1960) de “Hancock’s Half Hour”, “Irma La Douce” (1963), “The Last of Sheila” (1973), “Manhattan” (1979), “Beleza Americana” (1999) e Flores Partidas (2005).

Sua assimilação na cultura popular mundial foi de tal monta, que o nome Lolita tem sido usado para sugerir que uma menina é sexualmente precoce. “Lolita”  está incluído na lista da revista ‘Time’ como um dos 100 melhores romances em língua inglesa, publicados entre 1923 e 2005. Ocupa, ainda, o quarto lugar na lista de 1998 da  ‘Modern Library’, junto dos 100 melhores romances do século XX e na ‘Bokklubben World Library’, uma coleção de 2002, dos mais célebres livros da história.

Tanto em “Blackbird”, quanto em “Una” ou em “Lolita” há uma sugestiva tendência de se perceber uma história de paixão e abuso sexual. Certamente que meninas de 12 ou 13 anos podem ser sexualmente precoces e, sem perceber os efeitos e  consequências de seus atos, seduzir aqueles que lhes parecem atraentes ou que também se mostram sedutores. Haveria que surgir, nesse momento, o amadurecimento e a censura necessárias do adulto em questão, inibindo o relacionamento inadequado, a fim de preservar os direitos e a estabilidade física e emocional da parte mais vulnerável, no caso a criança.

Mas, a ficção pretende nos tirar do conforto, ao mesmo tempo que nos põe a refletir. E esse delírio – que os antigos denominavam ‘ninfolepsia’ – ainda se apossa do homem moderno, notadamente dos misantropos, que vislumbram na criança uma ninfa, despertando perversões, pensamentos obsessivos e sexuais insidiosos, que eles simulam parecer amor ou paixão. É notório, nesse sentido, que pedófilos não tiram prazer só do ato sexual, mas da convivência com a criança.

Sabendo-se que só uma parcela minúscula dos crimes sexuais contra crianças chega às autoridades e que esse tema permanece um tabu, apesar de estarmos em pleno século XXI, a conclusão a que se chega é que precisamos  falar desses crimes e dos predadores sexuais que assombram a infância das novas gerações, hoje mais do que nunca.

 

“Eu sou provavelmente o responsável pelo estranho fato de que as pessoas não parecem mais nomear suas filhas de Lolita. Eu tenho ouvido falar de jovens fêmeas poodles recebendo aquele nome desde 1956, mas nenhum ser humano.” Vladimir Nabokov.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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