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Moonlight: Sob a Luz do Luar

Há quem ame e há quem odeie. Já li críticas, as mais variadas. Depois de assisti-lo, não pude deixar de imaginá-lo como o atual paradoxo hollywoodiano. À primeira vista, parece um filme de graduação de estudante de cinema, aparentemente sem uma técnica apurada, sem paisagens ou cenários grandiosos, quase sem diálogos, quase sem colorido, quase sem orçamento, quase sem divulgação, quase mais uma manchete de jornal.

Com um pouco mais de atenção, no entanto, se percebe que não se trata somente de mais um filme com uma temática universal, que expõe mais uma vez a difícil jornada dos negros nos Estados Unidos.  Como um círculo vicioso, temos uma triste, comovente e, aparentemente, insolúvel questão posta: a vítima que vira bandido, que vira vítima, num ambiente repleto de esteriótipos de todos os gêneros, sem qualquer tentativa de se limpar a barra de quem quer que seja.

Estou me referindo ao vencedor do Oscar 2017 na categoria Melhor Filme, “Moonlight: Sob a Luz do Luar” [Moonlight], que havia sido indicado em 8 categorias e saiu da festa com três, numa noite pontilhada de piadas politicamente incorretas e gafes, incluindo a troca do nome do filme vencedor, um tremendo ato falho da classe artística americana, atribuído, porém, à incompetência da empresa guardiã dos cobiçados envelopes.

“Moonlight” é o primeiro filme com temática LGBT e elenco totalmente composto por atores negros,  nos 89 anos de história do Oscar, a ganhar a estatueta de Melhor Filme. O drama é dirigido pelo americano Barry Jenkins, também responsável, juntamente com o ator e roteirista Tarell Alvin McCraney, pelo roteiro adaptado (a outra categoria premiada no Oscar 2017) da peça “In Moonlight Black Boys Look Blue”, baseada na vida de McCraney, vizinho de infância de Jenkins em Liberty City, Miami, onde ambos tiveram a experiência com a criminalidade e a problemática da convivência com mães viciadas em drogas.

Levando-se em consideração a variedade e a excelência dos competidores, poder-se-ia até imaginar que os eleitores do Oscar estão com uma espécie de sentimento de culpa,  porque nos dois anos anteriores as premiações ficaram marcadas pela falta de diversidade racial. Certamente que essa possível e desconcertante percepção não desmerece “Moonlight”. Mas, falando sinceramente, quem acredita que essas premiações do Oscar sejam realmente ‘democráticas’, com eleitores conscientes da importância, competência ou oportunidade da escolha a ser feita?

Em defesa do vencedor, não há como negar sua importância. Um longa-metragem que lida com difíceis questões da atualidade, como preconceitos, violência, abandono parental, tráfico de drogas e busca de identidade, com o protagonismo de um negro que se descobre homossexual, está longe de ter um enredo simplório, apesar de ser, eventualmente, retratado em Hollywood.

O roteiro nos apresenta Chiron, um jovem negro morador de uma comunidade pobre de Miami, a mesma Liberty City de Jenkins e McCraney. Do bullying na infância, passando pela crise de identidade da adolescência e a tentação do universo do crime e das drogas na fase adulta, eis o que os estudiosos de cinema chamam de estudo de personagem.

Além da temática, o elenco, com louvor, justifica a premiação máxima no Oscar 2017. A vida de Chiron, revelada em três fases distintas no longa-metragem, é o retrato sem retoques da vida de cada um dos negros americanos nas comunidades pobres dos Estados Unidos.

Na infância, com a performance do excelente ator-mirim Alex R. Hibert, que nos cativa com seus olhares cheios de desconfiança e inocência, Little descobre o valor da amizade com o traficante cubano Juan, o excelente ator americano, Mahershala Ali, uma espécie de alter ego do pai que o pequeno Chiron nunca teve. Por conta dessa esplêndida atuação, que se limita a cerca de um terço do longa, pela  primeira vez na história da Academia, um ator americano que professa a religião muçulmana ganhou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante.

Na adolescência, quando a solidão e o bullying se tornam mais contundentes e a inconformidade e a raiva se manifestam, o jovem ator Ashton Sanders nos revela como Chiron descobre a sexualidade, com o apoio da amizade de Kevin, também interpretado por três atores distintos: Jaden Piner na infância, Jharrel Jerome na adolescência e André Holland ao final.

Finalmente na fase adulta, com Chiron interpretado por Trevante Rhodes, temos a revelação da sua verdadeira personalidade, agora mais maduro, cheio de atitude e  autodeterminação. Mesmo com três atores diferentes, o personagem Chiron manteve, nas três fases, o mesmo olhar introspectivo do inseguro Little, ponto alto na direção segura de Jenkins, perfeito conhecedor do mundo vivido por Chiron.

Tanto Janelle Monáe, no papel de Teresa, a namorada do traficante Juan, quanto Naomie Harris como Paula, a mãe viciada e prostituta – únicas personagens que perpassam as três fases do filme – são figuras femininas marcantes na vida de Chiron, exercendo, para o bem ou para o mal, forte influência em seu destino.

A trilha sonora, que vai de clássicos como ‘Moonlight Sonata’ de Beethoven, passando por ‘One Step Ahead’ com Aretha Franklin, ‘Hello Stranger’ com Barbara Lewis ou ‘Cucurrucucú Paloma, de Caetano Veloso, reforçam o toque nostálgico e emocional do drama, autenticando os momentos cruciais da vida de Chiron.

Depois de conhecer a  vida de Chiron, repleta de perseguições, violência, conflitos e sofrimento reprimido, e lembrar que ela é idêntica à de milhares de negros que passam por problemas semelhantes nos Estados Unidos, fica a pergunta que não quer calar: até quando?

“Aprendi o silêncio com os faladores, a tolerância com os intolerantes, a bondade com os maldosos e, por estranho que pareça, sou grato a esses professores.”

Khalil Gibran

FILME: Moonlight: Sob a Luz do Luar 14 (Brazil) ANO: 2016 GÊNERO: Drama DURAÇÃO: 1h 51m
SINOPSE: Black trilha uma jornada de autoconhecimento enquanto tenta escapar do caminho fácil da criminalidade e do mundo das drogas de Miami. Encontrando amor em locais surpreendentes, ele sonha com um futuro maravilhoso.
LANÇAMENTO: 24 de fevereiro de 2017 (Brasil) DIREÇÃO: Barry Jenkins
PRÊMIOS: Prêmio Globo de Ouro: Melhor Filme Dramático. INDICAÇÕES: Prêmio Globo de Ouro: Melhor Diretor. PRODUÇÃO: Adele Romanski, Dede Gardner, Jeremy Kleiner.
ELENCO: Mahershala Ali: Juan – Naomie Harris: Paula – Janelle Monáe: Teresa – Trevante Rhodes: Black – Ashton Sanders: Chiron.
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Sobre o autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

LUCIA SIVOLELLA WENDLING é advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Esta autora escreve sobre cinema.

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