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Mulheres do Século 20

Que a adolescência é uma fase complexa, talvez a mais difícil no longo processo de amadurecimento do ser humano, ninguém duvida. Mas, a adolescência seria pior para os meninos ou para as meninas? Difícil dizer, principalmente quando o tal adolescente vive só com um dos pais, e esse é exatamente do sexo oposto ao dele. O que já era difícil pode se tornar perturbador!

Eis o cenário de “Mulheres do Século 20” [20th Century Women”], comédia dramática lançada em 2016 por Mike Mills, diretor e roteirista americano, conhecido por “Thumbsucker” [Impulsividade], de 2005 e por “Beginners” [Toda forma de amor], de 2010, entre outros dez longas-metragens, além de retratar sua própria vida nos roteiros que desenvolve.

O filme se passa no final da década de 1970, em Santa Bárbara, Califórnia, onde Dorothea Fields (Annette Bening), mãe solteira de 55 anos, se esforça em educar Jamie (Lucas Jade Zumann), seu filho de 15 anos, numa época de grandes mudanças sociais, culturais e políticas no mundo e, em especial, na sociedade americana.

Apesar das dificuldades, Dorothea espera contar com a ajuda de duas mulheres muito diferentes dela própria, com quem acaba por criar fortes laços de amizade: Abbie (Greta Gerwig), uma artista punk que arrenda um quarto em sua casa, e Julie (Elle Fanning), uma adolescente inteligente e provocadora, que vê o mundo de uma forma muito especial. As três se propõem a interferir no amadurecimento de Jamie, mas ele tem visões próprias e bem distintas sobre as mulheres, os relacionamentos ou a vida em si mesma.

O roteiro, do próprio diretor Mike Mills, foi indicado ao Oscar 2017, na categoria Melhor Roteiro Original, e é inspirado na vida da própria mãe do realizador – da mesma forma que “Toda forma de amor”, seu filme anterior, para o qual se baseou na vida conturbada do pai.

O filme não é exatamente uma super produção. Na verdade está mais para o estilo despojado, de baixo orçamento, típico daqueles filmes denominados ‘indie’ (de ‘independent’/independente), produzidos e lançados à margem dos grandes estúdios e distribuidoras. Alguns detalhes até deixam a desejar, como por exemplo a montagem, um pouco confusa, ou a imagem, não tão exuberante, apesar da riqueza na reconstituição de época, explorando recantos da paisagem litorânea da Califórnia, numa espécie de ‘road movie’ que não poderia faltar, quando se fala daquela época e daquele lugar.

Mas o longa-metragem vale mesmo por seu elenco estelar, que valoriza cada tirada pitoresca dos diálogos, e se sobressai nas atuações exuberantes de Elle Fanning, Greta Gerwig, Lucas Jade Zumann, Billy Crudup e de Annette Bening, que, com esta interpretação, foi indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz de Comédia.

Apesar do título se referir a mulheres e o filme retratá-las em experiências e gerações distintas, o fio condutor está nas mãos de Jamie, narrador e alter ego do diretor, não só por conta das suas referências afetivas, mas porque é dele ou por conta dele que decorrem todas as ações e reações. O mais interessante, entretanto, é perceber como as mulheres foram importantes na sua vida, cada uma por uma razão, cada uma com um envolvimento diferente, uma necessidade especial de Jamie.

E lá estão muitas referências do século XX, incluindo a grande depressão que sucedeu a década de 1920, quando nasceu Dorothea, ou as duas grandes guerras mundiais, que antecederam as décadas de 1950 e 1960, quando nasceram Abbie, Julie e o próprio Jamie.

Aliás, não há como rever aquela época e não se emocionar ou apenas sorrir ao relembrar os sons que embalavam aquelas gerações, com uma variada trilha sonora, onde dezenove sucessos musicais fazem a festa de qualquer idade.

Ora a pura nostalgia se exibe, ora estridentes e ruidosos acordes chocam os ouvidos mais sensíveis, sejam com Louis Armstrong et His Hot Five, em ‘Basin Street Blues’, ou com os dançantes ‘This Heart of Mine’, de Fred Astaire e ‘In a Sentimental Mood’, com Benny Goodman e a desconcertante ‘As Time Goes by’, com Rudy Vallée et His Connecticut Yankees, ou ainda os então novíssimos acordes, numa disputa de ritmos entre o Art Rock, o New Wave, o Punk ou o Punk Rock, de Talking Heads, Devo, Gems, Roger Neill, David Bowie ou Suicide, cada um com sua tribo e suas preferências musicais.

Todos esses acontecimentos moldaram, para o bem ou para o mal, a personalidade de cada um dos personagens: Dorothea com determinação e independência financeira; Abbie, pelo viés feminista e punk; Julie, a adolescente amadurecida à força, cuja rebeldia foi paulatinamente incutida pela mãe psicanalista, em sessões programadas para jovens desajustadas, e Jamie, moldado pela presença feminina, num rito de passagem programado pela rebeldia, curiosidade e a necessidade de superar obstáculos impostos pela própria natureza humana.

‘Na adolescência tudo parece o fim do mundo, mas é apenas o começo.’ (Autor desconhecido ).

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Sobre o autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

LUCIA SIVOLELLA WENDLING é advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Esta autora escreve sobre cinema.

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