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Nise – O coração da loucura

‘Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura. Vou lhes fazer um pedido: vivam a imaginação, pois ela é a nossa realidade mais profunda. Felizmente, eu nunca convivi com pessoas muito ajuizadas.’

Essa afirmação diz muito de sua autora. Na verdade revela uma das muitas facetas da renomada psiquiatra alagoana Nise da Silveira (1905-1999), uma das primeiras mulheres a se formar em medicina no Brasil, e cuja biografia moldou a protagonista do longa ‘Nise – O coração da loucura’, do diretor Roberto Berliner.

Independente, inovadora e destemida para os padrões da época, Dra Nise revolucionou o tratamento de pessoas com problemas mentais, especialmente aqueles com esquizofrenia, ‘os inumeráveis estados do ser’, como ela os denominava, ao discordar dos métodos então adotados nas enfermarias de um dos mais conhecidos manicômios cariocas.

Denunciada por uma enfermeira pela posse de livros marxistas, Nise permaneceu dezoito meses presa durante a ditadura de Getúlio Vargas e só voltou a trabalhar no Centro Psiquiátrico Dom Pedro II, no Rio de Janeiro, depois de sete anos, tempo em que permaneceu com seu marido, o sanitarista Mário Magalhães da Silveira, na semi-clandestinidade, afastada do serviço público por razões políticas.

Embora esses fatos sejam públicos e notórios, praticamente nada disso aparece no filme. O roteiro do longa, baseado no livro ‘Nise – Arqueóloga dos Mares’, de Bernardo Carneiro Horta, não fala muito da vida particular da psiquiatra. Para dizer a verdade, o filme não se preocupou em mostrar a biografia da médica psiquiatra Nise da Silveira, tal qual habitualmente se faz. E essa diretriz, aliás, em consonância direta com a forma como ela via sua própria evolução, não poderia ser cartesiana, com começo, meio e fim. O importante era mostrar o que ela fez com aqueles com os quais ela se importava.

E, nessa empreitada, até que o filme não se saiu mal, apesar da abordagem maniqueísta, não obstante as dificuldades enfrentadas pela psiquiatra, que se via isolada dos demais profissionais, adeptos dos tratamentos convencionais, e apresentados pelo roteiro como profissionais insensíveis e desumanos.

O elenco é um dos pontos fortes do drama, com destaque para o desempenho de Glória Pires, como a protagonista, além das ótimas atuações de Flávio Bauraqui, como Octávio Ignacio, Fabrício Boliveira, como Fernando Diniz e Simone Mazzer no papel de Adelina Gomes, os três personagens, pacientes da Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação, setor criado e dirigido por Nise, de 1946 até sua aposentadoria compulsória em 1974.

Através de um corte no tempo, descobrimos como o combate aos tratamentos com eletrochoques, lobotomia e afins se tornou a razão de ser na vida daquela profissional, pioneira das idéias de Laing e Cooper (antipsiquiatria), Basaglia (psiquiatria democrática) e Jones (comunidade terapêutica), além de discípula de Carl Gustav Jung, com quem trocava correspondência e experiências.

E os vínculos dos pacientes, ou clientes, como ela preferia chamar, com a realidade externa, rompidos pela doença mental, eram reabilitados por meio do suporte afetivo proporcionado nos ateliês de costura, de pintura e de modelagem, na outrora desprezada Seção de Terapêutica Ocupacional.

Ali ocorria o verdadeiro despertar da consciência do ser, através do ‘afeto catalisador’, que se manifestava na‘expressão de vivências não verbalizáveis, que no psicótico estão fora do alcance das elaborações da razão e da palavra’, segundo acreditava Nise.

Com o sucesso da terapia ocupacional, que ao final acumulou cerca de 350 mil trabalhos produzidos por seus pacientes, Nise criou em 1952 o ‘Museu de Imagem do Inconsciente’, um centro de estudos e pesquisas destinado à preservação e valorização dos mesmos como documentos que possibilitam uma nova compreensão do universo interior dos esquizofrênicos.

Por mais curiosidade e medo que as doenças psiquiátricas e seus tratamentos possam suscitar, ter o lançamento do filme, em meio à discussão da reforma psiquiátrica no Brasil, revela muito da ignorância e do preconceito em relação aos transtornos mentais, tanto no que se refere ao sofrimento dos pacientes e de seus familiares, quanto no distanciamento, praticamente desprezo, da sociedade em geral pela questão.

Se nos lembrarmos que a Psiquiatria já nasceu como reforma, pelo mito de Philippe Pinel que desacorrentou os loucos em Paris no século XVIII, falar de tratamentos mais dignos e humanos ou da eliminação das internações é só o começo.

A verdadeira inclusão social depende não só da rede de apoio profissional, como do apoio familiar e da possibilidade de uma compreensão mais profunda do universo interior dos doentes mentais.

E para isso Nise da Silveira se valeu da expressão artística, como forma de lidar e entender a dissociação do doente com a realidade. As famosas mandalas, que a conectaram com Jung, se mostraram, ao final, a chave de entrada no universo das imagens do inconsciente dos seus queridos clientes.

Como dizia Spinoza, um dos filósofos preferidos de Nise, a quem ela dedicou muito dos anos em que se manteve afastada do serviço público, e tema do livro ‘Cartas a Spinoza’, publicado em 1995, talvez a solução esteja mais perto da emoção ativa, racionalmente percebida: ‘Não rir, nem chorar, mas compreender.’

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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