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O Dono do jogo – Pawn Sacrifice

Muito já se falou a respeito dos possíveis benefícios do Jogo de Xadrez. Há quem diga que desenvolveria o raciocínio lógico, a memorização, a atenção, a concentração, a confiança, o planejamento estratégico, a disciplina do corpo e da mente, a tomada de decisões, o pensamento crítico, a maturidade intelectual, o aumento da disciplina e a responsabilidade pelas ações, entre outras habilidades.

E daí surge a pergunta que não quer calar: por que essas habilidades e os supostos benefícios não transformaram o mundo ou pelo menos a vida dos jogadores, depois do tanto que se jogou Xadrez nas décadas de 50, 60, 70, 80 e 90 do século passado? Pois é, infelizmente, não há evidências de que as habilidades desenvolvidas pelo Xadrez tenham alterado os currículos das escolas, a vida dos estudantes, dos jogadores, daquela geração ou das que lhe sucederam. Há quem diga que aprender a jogar Xadrez é ótimo para … quem quer jogar Xadrez.

Certamente que um jogador de Xadrez, por menos competitivo que seja, precisa desenvolver certas habilidades, conhecer bem a forma de jogar de seus adversários e estudar os ataques e contra-ataques tomados como repertórios para os interessados. E essa prática, apesar de ser uma atividade lúdica, não é um simples jogo de tabuleiro. Xadrez é um jogo complexo, para o qual um bom jogador, daqueles que almejam campeonatos e destaque, necessita de muita dedicação, praticamente exclusividade, perfil que alguns classificam como o de um jogador obsessivo, cuja única meta na vida seria o Xadrez. E entre esses jogadores obsessivos se encontra, sem sombra de dúvida, o enxadrista norte-americano Bobby Fischer. E é dele que se fala em ‘O Dono do Jogo’, o novo longa do norte-americano Edward Zwick, diretor indicado ao Globo de Ouro por ‘Tempo de Glória’ e ‘Lendas da Paixão’, responsável ainda por sucessos do tipo de ‘Diamante de Sangue’ e ‘O último Samurai’.

O roteiro não se detém na biografia de Fischer, apesar de mostrar sua preparação e dedicação ao Xadrez desde criança. Seu foco, na verdade, são os bastidores do ‘confronto do século’, como ficou conhecido o Jogo de Xadrez entre o desafiante Bobby Fischer (Tobey Maguire) e o então campeão mundial, o soviético Boris Spassky (Liev Schreiber), realizado em 02 de julho de 1972, em Reykjavik, capital da Islândia, em plena Guerra Fria entre os USA e a URSS.

Certamente que a vida de Bobby Fischer daria muito conteúdo para uma cinebiografia, se esse fosse o interesse do diretor, pois Fischer era uma espécie de menino prodígio do Xadrez. Aos treze anos participou da ‘Partida do Século’ num torneio de Mestres. Venceu ainda o Campeonato Americano oito vezes, a primeira vez com 14 anos, disputando e vencendo mais de vinte campeões nacionais. Fischer venceu também todos os torneios que disputou, de 1962 a 1992, quando abandonou o título e a carreira. Além do título de Grande Mestre, obteve três medalhas em Olimpíadas de Xadrez, sendo a de Bronze em Leipzig/1960 e duas de Prata, em Havana/1966 e em Siegen/1970.

ara se ter uma noção mais clara da importância desse jogador, a nível internacional, vale lembrar que de 1948, quando o soviético Mikhail Botvinnik iniciou uma era de hegemonia soviética no mundo do Xadrez, até a dissolução da União Soviética, houve somente um campeão não-soviético, o norte-americano Robert James Fischer, ou Bobby Fischer para os entendidos.

Mas, tanta dedicação tem um preço. Desde o confronto com Spassky, quando quase perdeu por WO, por não concordar com o prêmio, Fischer demonstrava ter sérios problemas mentais. Apesar de eleito o melhor enxadrista do século XX, era considerado um gênio perturbado. Tinha manias de perseguição, paranóias, pensamentos obsessivos e, mesmo com mãe judia, tornou-se antissemita e extremista religioso, com declarações polêmicas e muitas vezes bombásticas, como as proferidas por conta dos atentados de set/2001.

Ainda se colocaria em novas dificuldades, vinte anos depois de sua última partida oficial, quando disputou e venceu novamente Boris Spassky na Iugoslávia, em 1992. Como havia um embargo da ONU, por conta da guerra civil causada por Slobodan Milosevic, seu passaporte foi revogado e Fischer permaneceu oito meses preso no Japão, sob ameaça de extradição para os EUA. Conseguiu asilo nas Filipinas e posteriormente a cidadania na Islândia, onde morreu aos 64 anos.

Curiosamente, o título do filme em inglês, ‘Pawn Sacrifice’, numa tradução livre, ‘O sacrifício do peão’, tem uma interessante duplicidade de significados, pois, além de se referir a um movimento de Xadrez, faz um jogo de palavras com as peças do tabuleiro e os adversários do jogo, os Peões do Rei, numa alusão aos termos utilizados, tanto por Brezhnev e os agentes da KGB, quanto por Henry Kissinger e Richard Nixon, por ocasião do célebre ‘confronto do século’, para denominar seus conterrâneos na disputa, convém lembrar, em plena Guerra Fria entre norte-americanos e soviéticos.

Desafortunadamente Bobby Fischer não conseguiu suportar o sucesso e a fama que o Xadrez lhe propiciou. Era uma pessoa realmente extravagante, tanto como jogador, como ser humano, tão instável e obsessivo, que abriu mão da riqueza em plena ‘fischermania’ que assolou os americanos em particular e o mundo, de uma forma avassaladora. Há rumores de que teria abandonado o título por medo de perder. Pena, pois os jogadores de Xadrez, apesar de competirem entre si, não disputam suas vidas ou dignidade. Simplesmente planejam e desenvolvem táticas criativas de abordagem, através de estratégias para capturar o Rei adversário. Xeque-mate!

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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