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Truman

‘Um amigo me chamou pra ajudar a cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso … e fui …’

Essa singela e bem-humorada frase de Clarice Lispector revela não só o verdadeiro sentido da palavra amizade, como se presta graciosamente para sugerir os motivos por trás do emocionante filme espanhol/argentino ‘Truman’, premiado com cinco Goyas, aí incluídos os de melhor filme, diretor, ator principal, ator coadjuvante e roteiro.

Nesse drama com suaves nuances cômicas, assim como costuma ser a vida, o dia a dia de qualquer um, temos Julián (Ricardo Darín), ator argentino que vive em Madrid, e que acabou de saber que um câncer que ele tratava há algum tempo se espalhou por outros órgãos. Desanimado, ele desiste de continuar o tratamento.

Apesar de seus amigos e parentes não concordarem com a decisão, ele segue se preparando para a partida. Nesse ambiente de luto antecipado, ele recebe a visita de um grande amigo, Tomás (Javier Cámara), que mora no Canadá e se propõe, nos quatro dias de que dispõe, a tentar fazê-lo mudar de opinião.

Essa estória poderia ser um tremendo dramalhão, triste do início ao fim, como costumam ser os roteiros sobre pacientes e suas doenças terminais. Mas, sob a batuta do jovem e premiado diretor espanhol, Francesc Gay i Puig, mais conhecido como Cesc Gay, os atores Ricardo Darín e Javier Cámara dão um show de desempenho. O roteiro pede e as emoções estão literalmente à flor da pele. Todas na medida, sem exagero, com aquele nó na garganta sentido a cada cena, a cada diálogo, a cada palavra não dita, a cada olhar não correspondido.

Além de uma verdadeira ode à amizade, ao afeto familiar, às conexões que surgem nos momentos de perdas, de despedidas, o filme mostra a difícil escolha do paciente quanto a fazer ou não tratamentos, muitas vezes paliativos, ou simplesmente aguardar a morte pelo seu processo natural.

Esta é uma das muitas questões tratadas pelo roteiro. Prolongar artificialmente o processo da morte ou deixar que este se desenvolva naturalmente? O médico e a família têm poder para prolongar a vida do paciente contra a sua vontade? Estaria o paciente, nesse caso, antecipando a morte, ou simplesmente constatando que ela é inevitável, pois seu processo já se instalou?

Não há dúvidas de que o roteiro trata de um tema difícil, triste e, infelizmente, inevitável. Normalmente, ninguém gosta sequer de planejar seguro de vida, quanto mais planejar seu próprio funeral. E uma das cenas mais emblemáticas do longa é justamente a da escolha da cerimônia e demais questões ligadas aos trâmites após a morte.

E qual a razão para o título do filme? Quem afinal é o tal do Truman? Simplesmente o melhor amigo de Julián: seu cão da raça Bull-mastiff, que curiosamente é uma raça canina originária do Brasil. Trata-se de um cão obediente, de extrema força, coragem e grande aptidão para a guarda e o pastoreio de gado. E essas características, aliadas à inteligência, à sensibilidade e ao bom faro, úteis a um guardião natural, devem ter sido observadas para a escolha de Truman como companheiro de Juliàn

Na verdade, a maior das preocupações de Julián hoje é saber quem cuidará de Truman quando ele se for. E essa busca de um lar, de um herdeiro, toma grande parte da estória e faz surgir um clima de empatia, de crescente identificação emocional entre os personagens e o público.

Por uma triste coincidência, o cão-ator, que na vida real se chamava Troilo, em homenagem ao compositor de tangos argentino Aníbal Troilo (1914-1975), e já era bem idoso, morreu meses depois do término do filme, de causas naturais.

Quando soube do verdadeiro nome do cão, Ricardo Darín sugeriu ao diretor que o nome no filme fosse o mesmo da vida real, não só por seu país de origem ser o mesmo do compositor, como pelo drama, pela paixão, pela ironia e pelo sentimentalismo masculino presentes no filme, elementos tão característicos desse gênero musical. Cesc Gay, no entanto, queria fazer uma homenagem a outra pessoa e manteve o nome Truman.

Nas próprias palavras do diretor, ‘parece que a tragédia da morte do cão completa o filme, cuja idéia central nada mais é a de que devemos demonstrar amor enquanto as pessoas ou os animais ainda estão vivos.’

No final das contas, ter amigos é o que importa na vida.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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