Carnaval

Carnaval carioca para novos foliões

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

Parece o fim do mundo.
– Isso é muito divertido! 
– Que sujeira, uma vergonha… E a história da multa por jogar lixo no chão e urinar por aí?
– Vocês estão reclamando do metrô? Eu já perdi o Bola Preta e o Favorita; estou aqui dentro há mais de 3 horas…
– Bora beber!!
– Olha o estado desse aí! Já era não consegue nem levantar do chão! Caiu em cima da comida..
– …ah, mas é CARNAVAL!!!

O Rio de Janeiro é só loucura, é só desespero nessa época do reinado Momo. Mas todo mundo gosta – até o prefeito (“quem não gosta de samba bom sujeito não é“), é divertido, é o fim do mundo, você pula bloco, anda do centro à Zona Sul porque vai encontrando outros blocos pelo meio do caminho e também não é fácil achar transporte (as ruas ano a ano ficam cada vez mais fechadas; os ônibus estão circulando de portas abertas, mas fantasiados de coração de mãe, sempre cabendo mais um; ubers circulam a passos lentos, assim como o 99 táxi, mas suas tarifas dinâmicas beiram o enlouquecer: você solicita um motorista, tenta achar um ponto de encontro mais ou menos tranquilo, bate um papo com o motorista pelo aplicativo, sua bateria acaba, você acha que não vai mais sair do lugar, até que o carro chega; daí, em 2 horas, você está em seu destino, um percurso que normalmente levaria 20 min).

Um amigo que não via há muito tempo resolveu passar o carnaval no Rio com a namorada. Ele não conhecia a Cidade Maravilhosa. Então me senti na incumbência de levá-lo para blocos famosos e para viver toda a experiência carnavalesca carioca. Para entrar no clima, na sexta-feira após o meu expediente, carreguei meu namorado e me vesti de super girl. Não caímos na folia, mas meu amigo tinha um spray de cabelo verde e senti que íamos botar para quebrar, quando sentamos no fim da noite na Mureta da Urca com uns pastéizinhos e a tradicional cervejinha. Eles tinham andado o dia todo, estavam cansados; tomamos um uber para Copa, de onde eles embarcaram para o Recreio. Marcamos de nos encontrar às 6h40 na estação Cinelândia para curtir o Céu na Terra – de quebra eles veriam os Arcos da Lapa, Escadaria Selarón e o charme do bairro de Santa Teresa. Acordei 2h antes, caprichei na maquiagem e nos apetrechos que fui criando com o que tinha em casa – o que mais gosto do Carnaval é a criação das fantasias -, tomei um café da manhã reforçado, peguei o metrô – vazio – esperei pelo meu namorado (que, mesmo não curtindo tanto carnaval, mas por já me conhecer,  repetiu um de seus looks do ano passado) e 1h depois chegavam os outros componentes, vestidos deles mesmos.  No meio do caminho transformaram-se em um sapo e uma tigresa – porque no Rio é assim: impossível ficar circulando sem qualquer adereço. Subimos a escadaria e a ladeira. Acho que eles quase desistiram do carnaval ali. Mas falei que a subida compensava. As vistas, o frescor e a animação do bloco com certeza encantaram os novos foliões. Algumas cervejinhas depois, fila do banheiro, fotos com os personagens de Oz, um Bob Marley muito louco, meu amigo mineiro que ia pedindo partes das fantasias de todo mundo para tirar foto, descemos para o centro. Comemos, demos uma volta no Saara para comprar souvenirs – e eu um novo adereço para a fantasia de domingo – e rumamos para Copacabana. De metrô. A partir desse momento, os ânimos baixaram. Vagões hiper lotados – como já era de se esperar -, um cara imprensado atrás do nosso quarteto, ao lado da porta que ameaçava fazer xixi ali mesmo, todo o piso do vagão molhado, muita gente bebendo cerveja e as paradas na estações que contavam em torno de uns 10-15 minutos. Meu amigo perguntava se era sempre assim, quando um casal começou a conversar conosco. Falavam sobre o Rio e sobre o absurdo que é pagar caro por um metrô daquele jeito. Reclamávamos do tempo de espera do trem nas estações quando uma senhora em pé ao nosso lado abre uma latinha e diz:

– Vocês estão reclamando do metrô? Eu já perdi o Bola Preta e o Favorita; estou aqui dentro há mais de 3 horas…

O casal, continuando a interagir, estava ali há 2 horas. O que éramos nós, uma Gata, um Minion, um Sapo e uma Tigresa há quase 1 hora? Seguimos viagem, saltamos, deixamos as sacolas em casa. Meu amigo queria porque queria ir à praia. Falei mil vezes que não era época para banhos de mar na Zona Sul. Mas ele queria. Rumamos para a Orla, o sol cada vez mais forte, ele entrou no mar, deu um mergulho e voltou reclamando da sujeira das águas. E a praia estava cheia, a Atlântica estava cheia. Sujeira por todo lado, acúmulo de latinhas, copos, garrafas, cheiro de xixi, pessoas sentadas e deitadas no chão, um homem que caíra sobre sua quentinha e não conseguia levantar…

– Isso ainda não é nada. Vamos para Ipanema ver a Banda de Ipanema…

Fomos andando, seguindo o fluxo. Paramos para um açaí. Seguimos. Sol, sol e sol. Na Vieira Souto não há sombras. Foto com o morro Dois Irmãos, ao fundo. Gente e mais gente. Onde estaria a Banda de Ipanema? Gente e mais gente. A decisão por ir embora. Vamos para o metrô? É de lá que a banda sai. Entramos em uma rua: lotada. Tentamos outra, também. Seguimos por entre arlequins, colombinas, muçulmanos, mendigos, reis, poposudas e borboletas. Ao chegar na General Osório, a fila para quem não tinha bilhete era gigantesca. O pânico era visível nos rostos deles. Demos a opção de caminhar até a próxima estação. Já chega, disseram. Chamaram um uber. O preço era de corrida dinâmica. Tentaram o 99 táxi. Preço justo. Mas a bateria do celular dá indícios de acabar, meu amigo bate um papo pelo chat com o motorista, marcam um ponto de encontro melhor, vamos para lá, esperamos, a bateria acaba. Eu e meu namorado, que pensávamos em ir para a Tijuca, desistimos. Ir até a Nossa Senhora da Paz? Não vai ser tão diferente a situação do metrô. Nos despedimos, eles marcam uma praia na Barra para amanhã. Voltamos à pé para Copacabana. Eu com o joelho estoporado. As ruas repletas de foliões. A sombra dos prédios, enfim. O fim do mundo. Chega por hoje. Amanhã tem mais. Porque é CARNAVAL.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.